Setenta anos depois de “Rumo à Lua” e “Explorando a Lua”, a NASA volta a mandar quatro criaturas humanas dar a volta ao satélite com uma solenidade tecnológica que, no fundo, só confirma uma velha humilhação americana: Tintin, Haddock e o Professor Girassol e os irmãos Dupont e Dupond já lá tinham ido primeiro, com mais estilo, melhor guarda-roupa e muito menos sensacionalismo.
Há uma injustiça histórica que convém reparar antes que a NASA volte a colocar homens e mulheres a fazer cara séria diante de um foguetão e de um logótipo azul: a humanidade não começou verdadeiramente a regressar à Lua com a Artemis II. A humanidade regressa agora, sim, mas a imaginação já lá tinha chegado muito antes, e com uma vantagem humilhante para os engenheiros de carne e osso: Hergé fez isto em papel, com tinta, humor, rigor visual e uma elegância que a comunicação institucional americana dificilmente alcança, por mais vídeos em streaming e hashtags patrióticas que invente. Os dois álbuns lunares de Tintin, “Rumo à Lua” e “Explorando a Lua” (Objectif Lune e On a marché sur la Lune, nos respetivos originais), foram lançados em 1953 e 1954 — há também, creio, uma edição recente em filme de animação em DVD — muito antes do Sputnik, muito antes de Neil Armstrong em 1969 pisar a Lua, muito antes de a NASA aprender a transformar parafusos em mitologia nacional. O próprio universo editorial de Tintin continua a lembrar, com uma pontinha de orgulho belga, que o repórter de poupa impecável chegou à Lua 16 anos antes da Apollo 11.
Entretanto, no mundo real, a NASA aponta oficialmente a Artemis II para não antes de 1 de abril de 2026, curiosamente o Dia das Mentiras — com janelas de oportunidade adicionais até 6 de abril e no dia 30 do mesmo mês, caso necessário — numa missão de cerca de dez dias que levará quatro astronautas em torno da Lua e de volta à Terra. O quarteto é composto por três norte-americanos, Reid Wiseman, Victor Glover, Christina Koch e o canadiano Jeremy Hansen, o que por si só já torna a expedição simpática: é a primeira vez que um não-americano participa numa missão lunar e o primeiro canadiano a voar até lá. A missão será a primeira com tripulação no foguetão SLS e na cápsula Orion, ou seja, uma espécie de grande ensaio geral para futuras missões lunares, com a diferença de que, desta vez, não há Professor Girassol para bater com a cabeça e resolver tudo por teimosia.

É aqui que a comparação com Tintin se torna verdadeiramente deliciosa. A Artemis II apresenta-se ao mundo com toda a pompa do progresso, como se estivéssemos perante um feito absolutamente novo. E, no entanto, tudo ali soa familiar a qualquer leitor minimamente decente de banda desenhada franco-belga. Também em Hergé havia uma base secreta, tecnologia de ponta, sabotadores, uma potência inimiga, especialistas obcecados com segurança e uma missão que misturava heroísmo, risco e trapalhada. A diferença é que Hergé teve a honestidade de admitir que o espaço, além de sublime, é profundamente ridículo. Nenhuma aventura lunar está completa sem alguém a escorregar, sem um burocrata a complicar tudo, sem um capitão alcoólico a insultar a gravidade e sem dois polícias gémeos incapazes de distinguir um esqueleto de um espião. A NASA, pelo contrário, continua a apresentar cada passo como se o Cosmos fosse uma reunião de conselho de administração com estrelas ao fundo.
O mais extraordinário é que Hergé não acertou apenas no romantismo da coisa. Acertou no ambiente mental da exploração espacial: o fascínio técnico, a claustrofobia, o medo da sabotagem, a teatralidade nacionalista, o heroísmo nervoso e até aquela mistura de disciplina e improviso que marca todas as grandes aventuras humanas. A Artemis II vai levar quatro pessoas fechadas numa Orion durante cerca de dez dias, a testar sistemas de suporte de vida, a gerir o confinamento, a conviver com o desconforto e a aprender, mais uma vez, que o progresso humano depende sempre de uma verdade elementar: ninguém fica mais nobre só porque está de fato espacial. A cápsula Orion será, no fundo, um micro-autocarro orbital. Hergé já sabia isso. O espaço não transforma pessoas em deuses; limita-se a fechar temperamentos num cilindro caro e a ver o que acontece.
Repare-se no elenco, que parece escolhido por um argumentista sensato, isto é, um argumentista que leu Tintin. Reid Wiseman, comandante, veterano, homem sério, tem aquela energia de Tintin adulto se Tintin pagasse impostos e fizesse briefings. Victor Glover, piloto, carrega o peso simbólico da representação histórica e a compostura de quem sabe que o heroísmo moderno exige nervos de aço e frases televisivas impecáveis. Christina Koch, uma mulher recordista de longa permanência no espaço e participante da primeira caminhada espacial exclusivamente feminina, traz a combinação certa de competência absoluta e resistência física que faria o Professor Girassol aprovar, ainda que provavelmente lhe chamasse “minha cara colega” e depois se esquecesse do nome. Jeremy Hansen, por seu lado, é quase um Haddock canadiano domesticado pela boa educação: vai para a Lua, mas leva consigo a dose certa de humanidade, autoironia e, segundo a informação tornada pública, até um imaginário doméstico suficientemente terno para lembrar que as viagens épicas continuam a ser feitas por pessoas que deixam família em casa.
Falta, evidentemente, o cão. E essa é talvez a maior falha do programa Artemis. Milu continua sem lugar na arquitetura moral da NASA. Ora, qualquer pessoa de bom senso percebe que uma missão lunar sem um cão espirituoso é logo meia derrota civilizacional. Os americanos já corrigiram muita coisa desde Apollo, incluindo o facto de a Orion ter finalmente casa de banho, luxo que faria os astronautas de 1968 chorarem de inveja e que em Tintin teria rendido pelo menos quatro páginas de puro desastre cómico. Mas continuam sem perceber que a exploração espacial precisa de bichos, de excentricidade e de personagens secundárias que descomprimam o heroísmo oficial. A NASA leva dosímetros, protocolos, estudos sobre microbioma, escudos contra radiação e exercícios físicos num espaço apertado; Hergé levava um capitão a praguejar e dois idiotas a confundir segurança nacional com circo. Do ponto de vista dramático, peço desculpa aos engenheiros, mas a Bélgica continua a ganhar.
Também a própria encenação pública da Artemis II parece saída, sem querer, de uma prancha de banda desenhada. Há quarentena, briefings, transmissões ao vivo, cobertura da contagem decrescente, família a acenar, fatos laranja brilhantes, a ansiedade do lançamento e aquele momento inevitável em que todos fingem serenidade enquanto pensam no pior. A NASA anunciou cobertura contínua dos eventos de pré-lançamento, lançamento e missão, quase como se reconhecesse que a exploração espacial contemporânea é metade ciência, metade espetáculo em direto. E aqui Hergé, mais uma vez, sorri do além. Ele percebera cedo que a corrida à Lua não era apenas um feito técnico: era uma narrativa. Precisava de suspense, de traidores, de janelas, de silêncio cósmico e de público colado ao desenlace. A Artemis II terá até um momento particularmente tintinesco: ao passar pelo lado oculto da Lua, a tripulação ficará temporariamente sem comunicações com a Terra. Durante alguns minutos, o planeta inteiro ficará reduzido àquilo que sempre foi diante do desconhecido: uma plateia inquieta à espera que o sinal regresse.
E depois há o foguetão. Desculpem, mas nenhum foguetão real alguma vez derrotará simbolicamente o foguetão vermelho e branco de Hergé. Pode haver mais empuxo, mais toneladas, mais software, mais redundância, mais escudos térmicos corrigidos, mais siglas e mais contratos federais, mais Elon Musk; mas beleza, meus amigos, beleza é outra coisa. O SLS é poderoso, monumental, caríssimo, institucional até ao osso. O foguetão de Tintin é imediatamente reconhecível, pop antes do pop, um obelisco lúdico enfiado no século XX como quem anuncia que o futuro também pode ter grafismo. A NASA pode ter aperfeiçoado a física; Hergé aperfeiçoou a memória visual. Qualquer criança desenha o foguetão sildavo sem dificuldade. Quero ver alguém desenhar de cabeça a arquitetura industrial do SLS sem parecer que está a fazer um esboço de canalização pesada.
No fundo, o que torna esta comparação tão fértil não é apenas a antecipação profética de Hergé. É o facto de Tintin e a Lua ter percebido uma coisa que as democracias tecnológicas às vezes esquecem: a aventura científica só sobrevive na imaginação pública quando conserva mistério, humor e um certo grau de loucura. Se tudo for apresentado como gestão de risco, compliance, cronograma, hardware e patriotismo higienizado, sobra ciência, mas perde-se o assombro. Hergé nunca teve esse problema. O seu programa lunar era simultaneamente infantil e sofisticado, ingénuo e paranoico, rigoroso e delirante. Como toda a grande ficção científica digna desse nome, não queria apenas mostrar uma viagem; queria mostrar o que a viagem faz às pessoas. A Artemis II, com todo o seu esplendor tecnológico, ainda procura essa dimensão narrativa. Procura a frase, a imagem, o gesto, a epifania que a retire do domínio dos comunicados e a coloque na galeria dos mitos.
Talvez o consiga. Afinal, esta missão não é um passeio. É a primeira viagem tripulada do programa Artemis, o primeiro voo humano da Orion, a primeira missão lunar tripulada em mais de meio século, e a primeira oportunidade, desde os tempos da Apollo, para humanos olharem a Terra a partir daquela distância em que o planeta deixa de parecer uma pátria e passa a parecer uma coincidência luminosa. Os canadianos sublinham mesmo que a tripulação poderá ver uma nova versão do célebre “Earthrise”, a Terra suspensa na escuridão, imagem fundadora da era espacial e talvez da própria consciência ecológica moderna. Se isso acontecer, e se alguém tiver a decência de olhar para aquilo sem transformar o momento em publicidade de banco, então talvez a Artemis II encontre finalmente o seu lugar não só na história da engenharia, mas também na mitologia do olhar humano.
Até lá, porém, convém dizer a verdade com a franqueza que a imprensa escrita ainda permite quando não está a servir de amplificador a departamentos de comunicação: a NASA não está apenas a voltar à Lua. Está a voltar a uma paisagem que a cultura popular já ocupou há décadas. Vai reencontrar-se, queira ou não, com as sombras de Júlio Verne, Georges Méliès, Fritz Lang, a Destination Moon e, acima de todos, com aquele pequeno repórter belga de calças de golfe que tratou o satélite natural da Terra como quem vai a Sintra investigar uma tramoia internacional. A Artemis II é séria, cara, perigosa e historicamente relevante. Mas Tintin e a Lua continua a ter o melhor argumento, o melhor design e, francamente, o melhor casting secundário. Entre a solenidade da NASA e a anarquia organizada de Hergé, o leitor sabe de que lado está o prazer. E talvez também saiba de que lado está a imaginação.
No fim de contas, essa é a lição mais divertida desta coincidência entre 1953 e 2026. A exploração espacial precisa de cientistas, de engenheiros, de pilotos, de protocolos e de escudos térmicos que não se desfaçam na reentrada, claro. Mas precisa também de histórias. Sem elas, a Lua é só uma rocha. Com elas, torna-se cenário, metáfora, palco e espelho. Hergé percebeu isso antes de quase toda a gente. A Artemis II vai agora confirmá-lo, com meio século de atraso e orçamento federal. Como diria o Capitão Haddock, em versão minimamente publicável para jornal, ainda bem que chegam. Já não era sem tempo.
