Entre piadas de Conan O’Brien, discursos políticos, vampiros premiados e um realizador finalmente coroado, a noite dos Oscars de 2026 transformou-se numa pequena guerra civil cinematográfica: Batalha Atrás de Batalha venceu o conflito com seis estatuetas e Pecadores saiu da arena com sangue… mas também com quatro Oscars.
Hollywood gosta de fingir que a noite dos Oscars é apenas uma festa. Não é. É um campeonato mundial de egos com vestidos caros, discursos emocionados e produtores a rezarem discretamente para que ninguém faça algo demasiado embaraçoso em direto. E a edição de 2026, que começou às 23h e terminou às 2h40, precisamente, teve tudo aquilo que torna esta cerimónia simultaneamente gloriosa e ligeiramente absurda: rivalidades épicas, discursos políticos, piadas perigosas, momentos de emoção sincera e, claro, um realizador que finalmente recebeu aquilo que Hollywood lhe devia há décadas.
A grande história da noite chama-se Batalha Atrás de Batalha (One Battle After Another), o épico rebelde de Paul Thomas Anderson inspirado no universo literário de Thomas Pynchon. Depois de anos a ser tratado como o génio que todos admiram mas que raramente levam até ao altar da estatueta dourada, Anderson finalmente ganhou a guerra: seis Oscars numa só noite: Melhor Filme, Melhor Realizador, Melhor Ator Secundário para Sean Penn, Argumento Adaptado, Montagem e ainda o primeiro Oscar da história para Melhor Elenco. Uma espécie de consagração tardia para um verdadeiro cineasta-autor e para um filme que chegou à cerimónia com 14 nomeações e que, apesar de todo o favoritismo acumulado ao longo da temporada, parecia sempre condenado ao estatuto de eterno quase-vencedor. O suspense manteve-se até às últimas categorias, sobretudo porque Pecadores surgia como um adversário de peso.
No discurso, Anderson foi surpreendentemente sentimental: o que em Hollywood costuma ser um sinal de vitória verdadeira. Disse que tinha escrito o filme para pedir desculpa aos filhos pelo “mundo confuso” que a geração dele lhes está a deixar. A frase soou quase como um manifesto político, coisa que os Oscars também gostam de fingir que não são.
Mas se Batalha Atrás de Batalha dominou a cerimónia, o seu grande rival da temporada não saiu derrotado. Pecadores (Sinners), o drama vampírico de Ryan Coogler que chegou à noite com um recorde de 16 nomeações, conquistou quatro estatuetas importantes. A principal foi para Michael B. Jordan, que venceu o Oscar de Melhor Ator e derrotou uma concorrência que parecia saída de um festival de super-estrelas: Timothée Chalamet, Leonardo DiCaprio, Ethan Hawke e Wagner Moura. Jordan tornou-se apenas o sexto ator negro a vencer nesta categoria e fez um discurso que misturou emoção, memória histórica e agradecimentos à comunidade que abriu caminho antes dele.
Pecadores ganhou também Melhor Argumento Original para Coogler, Melhor Banda Sonora para Ludwig Göransson e Melhor Fotografia para Autumn Durald Arkapaw, que fez história ao tornar-se simultaneamente a primeira mulher e a primeira pessoa não-branca a vencer esta categoria. A diretora de fotografia, de ascendência filipina e afro-americana crioula, tornou-se uma das figuras mais celebradas da noite. Nada mau para um filme de vampiros que começou a temporada como outsider e acabou por se transformar num verdadeiro fenómeno cultural.
No meio desta guerra cinematográfica houve outras vitórias memoráveis. Jessie Buckley ganhou finalmente o Oscar de Melhor Atriz por Hamnet, tornando-se a primeira atriz irlandesa a conquistar a categoria. O discurso foi uma pequena peça de poesia improvisada dedicada “ao caos maravilhoso do coração de uma mãe”, frase que fez metade da plateia limpar discretamente uma lágrima.
Amy Madigan venceu Melhor Atriz Secundária pelo thriller Weapons — Hora do Desaparecimento e entrou diretamente para os livros de recordes. Entre a sua primeira nomeação e esta vitória passaram quase quarenta anos. Hollywood adora histórias de redenção tardia e esta parecia escrita por um argumentista particularmente sentimental.
Nos prémios técnicos, Guillermo del Toro levou três estatuetas para Frankenstein — direção artística, figurinos e maquilhagem — provando mais uma vez que o realizador mexicano sabe construir mundos góticos maiores do que muitos estádios de futebol. Avatar: Fogo e Cinzas venceu os inevitáveis efeitos visuais, F1 ganhou o prémio de som e o fenómeno pop KPop Demon Hunters conquistou dois Oscars: Melhor Filme de Animação e Melhor Canção Original com o irresistível hino “Golden”, a primeira música K-pop a ganhar a estatueta.
O cinema do mundo também teve o seu momento de glória. Valor Sentimental, do norueguês Joachim Trier, venceu o Oscar de Melhor Filme Internacional, a primeira vitória da Noruega nesta categoria. Já o documentário Mr. Nobody Contra Putin surpreendeu ao conquistar o prémio de Melhor Documentário com um discurso feroz contra a repressão política na Rússia.
A cerimónia teve ainda uma raridade estatística: um empate na categoria de curta-metragem de ficção, apenas a sétima vez que isso acontece na história dos Oscars. Pequenos milagres matemáticos que fazem os produtores do espectáculo suar frio.
Mas os Oscars não vivem apenas de prémios. Vivem de momentos. E Conan O’Brien, de regresso como anfitrião, tratou de garantir que a noite tivesse suficientes. Começou o espectáculo vestido como a vilã de Weapons — Hora do Desaparecimento e atravessou cenas dos filmes nomeados num número pré-gravado que parecia uma mistura entre paródia e ataque de nervos.
Depois vieram as piadas, sobre Netflix, sobre Amazon, sobre política americana e sobre a própria indústria. A melhor talvez tenha sido quando disse que era provavelmente “o último apresentador humano dos Oscars”, antes que a inteligência artificial também decidisse candidatar-se ao emprego.
Entre homenagens emocionadas — Billy Crystal a recordar Rob Reiner, Barbra Streisand a cantar para Robert Redford — e discursos inesperadamente políticos, como os de Jimmy Kimmel e Javier Bardem, este que subiu ao palco com um distintivo a dizer “No à la guerra”, a cerimónia acabou por ser aquilo que os Oscars são quando funcionam bem: um espetáculo caótico, ligeiramente auto-indulgente, mas profundamente apaixonado pelo cinema.
No fim das contas, a contabilidade é simples. Batalha Atrás de Batalha venceu a guerra com seis Oscars. Pecadores saiu da arena com quatro estatuetas e a sensação de que podia ter ido ainda mais longe, apesar de ter sido o filme com mais nomeações da noite. E Hollywood, como sempre, conseguiu transformar uma noite de prémios numa narrativa épica sobre si própria.
Porque os Oscars podem fingir que são apenas uma cerimónia. Mas, no fundo, continuam a ser aquilo que sempre foram: o maior filme que Hollywood faz todos os anos, ao vivo, com milhões de espectadores e um argumento que ninguém consegue prever completamente.