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Terra Vil, de Luís Campos, e Balane 3, de Ico Costa, geograficamente não podiam estar mais distantes — o baixo Douro e um bairro de Inhambane, no sul de Moçambique, mas falam quase exatamente do mesmo: comunidades a aguentar-se como podem, gente a viver dentro de sistemas que já falharam há muito, miúdos e jovens a aprender o mundo num cenário onde ninguém lhes explicou bem as regras.
À primeira vista, parecem filmes irreconciliáveis. Um é ficção, contida, seca, sombria, feita de silêncios herdados e violência infiltrada. O outro é um documentário, solar, expansivo, falado, dançado, vivido à flor da pele. Mas basta olhar com um bocadinho mais de atenção para perceber que ambos estão a filmar o mesmo invisível — ou melhor, os mesmos invisíveis em países ou comunidades diferentes — aquele que fica sempre fora do enquadramento quando se fala de progresso, crescimento ou futuro risonho.
Em Terra Vil, acompanhamos João (William Cesnek), um miúdo de 12 anos que cresce à beira do Rio Douro entre redes de pesca, lampreias cada vez mais raras e um pai alcoólico (Rúben Gomes) que nunca aprendeu a ser outra coisa senão o que herdou. Não há aqui monstros de cinema, vilões caricaturais ou discursos inflamados sobre masculinidade tóxica. Há frases ditas “porque sempre se disse assim”, gestos repetidos “porque sempre foi assim”, silêncios cúmplices que ensinam mais do que qualquer murro. É um filme sobre aprendizagem e sobre como, em certos lugares, aprender e crescer pode significar absorver o pior.
Luís Campos filma aquele território sem postal ilustrado, sem folclore, sem pena. O Douro surge como corpo cansado, ferido, marcado por tragédias que nunca desapareceram verdadeiramente: a ponte de Entre-os-Rios que caiu, as minas que fecharam, o abandono que se tornou paisagem. A violência aqui não explode, infiltra-se. E isso é muito mais incómodo. Porque nos obriga a reconhecer que nada disto é excepcional. É estrutural. É repetido. É passado de mão em mão como uma herança envenenada.
Já Balane 3 parece, à superfície, o oposto absoluto. Não há narrativa clássica, não há protagonistas, não há drama organizado. Há vida. Há jovens que lavam carros, cortam cabelo, vendem peixe, vão à escola, dançam, bebem, discutem política, falam de doenças, de amor e — sobretudo — de sexo. Falam muito. Sem vergonha, sem moralismo, sem aquela pose europeia de quem acha que descobriu a pólvora da liberdade sexual.
Ico Costa instala a câmara ao nível dos olhos e deixa-a ficar. Não explica, não traduz, não sublinha. Observa. Escuta. Confia. E isso faz toda a diferença. Balane 3 não “filma África”. Filma pessoas. Pessoas a tentar viver quando sobreviver já lhes ocupa quase todo o tempo. Há uma frase escrita num muro que resume o século XXI melhor do que mil relatórios económicos: “Até agora sobreviver impediu-nos de viver.” Podia estar em Inhambane. Podia estar em Penafiel ou Castelo de Paiva. Podia estar em Lisboa. Podia estar em todo o lado.
O que liga estes dois filmes não é o estilo, nem o género, nem o tom. É a ética do olhar. Nenhum deles tenta salvar ninguém. Nenhum oferece soluções fáceis. Nenhum transforma as suas personagens em símbolos convenientes para consumo rápido. Terra Vil recusa o miserabilismo e o optimismo falso; Balane 3 recusa o exotismo e o humanitarismo de catálogo. Ambos preferem a via mais difícil: estar presentes, aceitar o desconforto, filmar o tempo como ele é.
Há também uma ironia cruel nesta dupla estreia portuguesa. Um filme passado no interior do País, onde o futuro parece sempre adiado, e outro numa ex-colónia, onde o passado nunca foi realmente resolvido. Dois espaços marcados por ausências — de políticas públicas, de oportunidades, de atenção mediática — e, ainda assim, cheios de gente que fala, dança, ama, erra e insiste. Num, a violência aprende-se em casa; no outro, discute-se em voz alta. Num, o silêncio pesa; no outro, a palavra liberta. Mas ambos mostram a mesma coisa: comunidades inteiras a viver na margem de decisões tomadas longe dali.
Talvez por isso estes filmes possam incomodar os espectadores. Porque não nos permitem aquela distância confortável do “coitados deles”. Terra Vil lembra-nos que o interior não é um cenário pitoresco, é um campo de emoções lento e preciso. Balane 3 lembra-nos que a vida continua bonita mesmo quando tudo conspira contra ela e que essa beleza não precisa de ser explicada nem vendida como lição moral.
No meio de um cinema cada vez mais obcecado com discursos, mensagens e causas estes dois filmes fazem algo quase subversivo: olham, escutam e deixam-nos pensar. E talvez seja isso que os une de forma mais profunda. Entre lampreias em vias de extinção e danças improvisadas num bairro moçambicano, Terra Vil e Balane 3 dizem-nos exatamente a mesma coisa, sem nunca a dizerem em voz alta: sobreviver não devia ser um destino. Mas, enquanto for, há quem o filme com dignidade.
Os dois filmes estão em exibição desde quinta-feira, 26 de fevereiro