Com “Pecadores” a bater todos os recordes (16 nomeações), Paul Thomas Anderson em modo compressor (13 nomeações), o Brasil com Wagner Moura e “O Agente Secreto” na elite mundial, a Academia confirma: o cinema ainda é arte, mas primeiro é estratégia.
A Academia voltou a fazer aquilo que melhor sabe: fingir que está a reinventar-se enquanto repete, com ligeiras variações, o mesmo ritual de sempre, neste caso mais uma vez foram poucas as surpresas nas nomeações, tirando os números. Discursos sobre “a essência humana do cinema”, promessas de diversidade, a estreia de uma nova categoria — Melhor Elenco — e, claro, o regresso confortável e feliz de Conan O’Brien como mestre de cerimónias, a 15 de março, porque nada tranquiliza mais Hollywood do que uma piada moderadamente progressista dita por um homem branco de meia-idade.
Foi neste ambiente de conforto institucional que foram anunciadas há pouco, a partir de Los Angeles, as nomeações para os Oscars 2026, celebrando os filmes de 2025 e revelando, mais uma vez, o verdadeiro mapa do poder cinematográfico: quem manda, quem sobe, quem resiste e quem, discretamente, entra pela porta principal.
E este ano, curiosamente, o mapa é mais interessante do que o costume, pelo menos do ponto de vista artístico. No centro absoluto da manhã esteve “Pecadores” (Sinners), de Ryan Coogler, o verdadeiro campeão das nomeações. Presente em praticamente todas as frentes — argumento, realização, actores, montagem, som, fotografia, efeitos visuais, figurinos, maquilhagem, canção original, elenco e, claro, Melhor Filme — o estranho drama sobre a descriminação e racismo com vampiros, tornou-se o grande filme-síntese da temporada. No total, soma 16 nomeações, batendo todos os recordes e confirmando-se como o título mais transversal da lista. É o típico filme que a Academia adora: politicamente consciente, emocionalmente manipulador, tecnicamente irrepreensível e suficientemente “importante” para justificar votos em massa.
Logo atrás surge “Batalha atrás de Batalha” (One Battle After Another), de Paul Thomas Anderson, com 13 nomeações. PTA continua a ser tratado como o “cinesata-autor seguro”: rebelde o suficiente para parecer independente, clássico o suficiente para não assustar ninguém. Nomeações para Leonardo DiCaprio, Benicio Del Toro, Sean Penn, realização, argumento, fotografia, montagem, som, figurinos, direcção de arte, banda sonora e Melhor Filme confirmam que continua a ser o menino querido do cinema adulto americano.
A grande surpresa artística chama-se “Frankenstein”, de Guillermo del Toro. O cineasta mexicano ressuscita o clássico e conquista a Academia com uma avalanche técnica e estética: maquilhagem, figurinos, fotografia, direção de arte, som, banda sonora, argumento adaptado, ator secundário e Melhor Filme. No total, 10 nomeações. Del Toro volta a provar que sabe transformar monstros em produtos premium para prémios.
Na mesma liga surge “Marty Supreme”, protagonizado por Timothée Chalamet, que soma também 10 nomeações: Melhor Filme, Realização, Ator Principal, Montagem, Figurinos, Direção de Arte, Fotografia, Elenco, Argumento e Canção. É o típico “filme de estrela” elevado a obra séria e Chalamet, cada vez mais, funciona como passaporte automático para temporadas de prémios.
Mais discreto, mas profundamente respeitado, aparece “Hamnet”, de Chloé Zhao, com 8 nomeações: Melhor Filme, Realização, Atriz (Jessie Buckley), Argumento, Direcção de Arte, Figurinos, Elenco e Banda Sonora. Um filme literário, sensível, clássico, que representa o lado “culto” da Academia, Shakespeare, luto, memória, lágrimas discretas.
Ao lado surge “Valor Sentimental” (Sentimental Value), do norueguês Joachim Trier (Melhor Filme Europeu, sábado passado nos EFA), com 7 nomeações: Atriz principal, ator secundário, atriz secundária, montagem, argumento, filme internacional e Melhor Filme. Um triunfo silencioso do cinema europeu autoral, sem histerias promocionais, mas com enorme respeito crítico.
Já “Begonia”, de Yorgos Lanthimos, aparece como o “filme elegante” da temporada, com 6 nomeações: Melhor Filme, Atriz (Emma Stone), Argumento, Banda Sonora, Fotografia e Produção. Estranheza controlada, estética cuidada e actores premium: Lanthimos continua a saber jogar o jogo.
O fenómeno delicado “Train Dreams” —que estreou só no streaming da Netflix — soma 5 nomeações, incluindo Melhor Filme, Fotografia, Canção, Argumento e Produção. É o típico underdog poético que a Academia gosta de manter por perto para parecer sensível.
No campo mais industrial, “F1” surge com 4 nomeações técnicas — Montagem, Som, Efeitos Visuais e Melhor Filme, mostrando como Hollywood continua a premiar blockbusters… desde que tragam pedigree artístico.
E depois há um caso muito especial: “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho. O filme brasileiro entra com força histórica: Melhor Filme, Melhor Ator (Wagner Moura), Melhor Filme Internacional e Melhor Elenco: 4 nomeações de enorme peso simbólico. Não é apenas presença: é legitimação total. O cinema brasileiro, finalmente, tratado como cinema central e não como exotismo periférico.
Wagner Moura, aliás, torna-se uma das figuras da temporada ao disputar Melhor Ator com Chalamet, DiCaprio, Ethan Hawke e Michael B. Jordan. Um brasileiro na elite absoluta, há poucos anos isto parecia ficção.
No lado feminino de Melhor Atriz, o alinhamento é igualmente revelador: Jessie Buckley, Renata Reinsve, Emma Stone, Rose Byrne e Kate Hudson representam cinco estilos distintos de “atriz de prestígio”, da europeia introspectiva à estrela americana reinventada.
Nas categorias técnicas, confirma-se a tendência dos últimos anos: tudo gira à volta de quatro ou cinco super-produções “artísticas” que concentram quase todas as nomeações, deixando pouco espaço para verdadeiras surpresas.
A criação do prémio de Melhor Elenco também diz muito sobre esta nova fase da Academia: o reconhecimento, tardio, de que o cinema é um trabalho coletivo. Não por acaso, os nomeados são precisamente os filmes mais consensuais: “Hamnet”, “Marty Supreme”, “Uma Batalha Atrás de Batalha”, “Pecadores” e “O Agente Secreto”.
No fundo, as nomeações aos Oscars 2026 desenham um retrato claro de Hollywood no momento: mais aberta ao mundo, mais atenta ao Sul Global, mais disposto a premiar cinema político, mas ainda profundamente dependente de nomes, estúdios e fórmulas seguras.
Há diversidade, sim. Mas bem embalada. Há risco, sim. Mas controlado. Há internacionalização, sim. Mas validada pelos centros de poder. Entre monstros reabilitados, pecadores redimidos, batalhas morais, dramas literários e brasileiros finalmente reconhecidos, esta edição mostra uma Academia em transição: já não é totalmente imperial, mas ainda não é verdadeiramente democrática. É um meio-termo elegante. Como quase tudo aliás em Hollywood. Agora, resta saber se, na noite de 15 de março , a Academia vai premiar o filme mais votado, o mais “importante”, o mais politicamente conveniente ou simplesmente o que melhor soube jogar o jogo. Porque, no fim de contas, os Oscars continuam a ser isso: cinema. Mas também — e sobretudo — estratégia. E este ano ainda mais.