Mantém-se um certo preconceito em relação à comédia, enquanto género, por mais elaborada e inteligente que esta possa ser. É isso que faz com que cada vez que realizadores como Pedro Almodóvar ou Woody Allen realizam um drama, venham mil aplausos, galardões de ‘obra-prima’, nomeações para Oscars que, muitas vezes, mais do que dar o mérito ao filme em causa, menoriza os filmes anteriores. Blue Jasmine é o primeiro filme sério de Woody Allen desde Match Point (2005). Mas não é de todo o único filme ‘a sério’ do realizador nesse período. Não ficará como uma obra-prima, mas também não como uma obra desprezível. Aliás, Wood Allen não sabe fazer filmes maus (tem um único filme falhado, Melinda & Melinda, 2004). Mas é um filme que foge a alguns padrões da sua cinematografia, o que faz com que quem não goste de Woody Allen talvez até possa gostar de Blue Jasmine. Essa diferença, a fuga aos padrões, é conseguida, em grande parte, pela criação da personagem e o trabalho de atriz de Cate Blanchett. Jasmine foge efetivamente aos estereótipos. A personagem torna-se densa pela necessidade de compreender um outro. Allen foge de si. Jasmine não tem traços do seu alter-ego. A depressão de Jasmine não está ligada a uma angústia perante a expansão do universo (como acontecia em Annie Hall que Alvy, de 9 anos, não conseguia dormir porque descobriu que o universo está a expandir-se), nem com qualquer outro problema existencial, nem sequer com qualquer maleita urbano-depressiva típica de americanos ricos. Não é apenas uma neurótica crónica. O seu mundo desabou e ela entrou em colapso, em esgotamento nervoso. A depressão de Jasmine não é uma piada. A depressão de Jasmine não tem piada nenhuma. E isso, em Woody Allen, é completamente desconcertante. Faltam-nos os pontos de fuga, uma janela para o humor. Estamos habituados a que as suas personagens não percam, seja qual for a circunstância, um alto sentido de auto-ironia. Aqui a auto-ironia é substituída por autocomiseração. É um drama. Blue Jasmine marca o regresso de Woody Allen aos Estados Unidos, mas não à sua Manhattan (Nova Iorque aparece pouco e de forma pouco reconhecível). Depois de Paris e Roma (e a caminho do Rio?), o realizador, em busca das melhores condições de filmagem, viaja até à Costa Oeste dos Estados Unidos, não ficando propriamente em Los Angeles, mas em São Francisco, uma cidade bem mais ao seu estilo. E, de alguma forma, descobre o lado mais nova-iorquino da cidade que fica no extremo oposto dos Estados Unidos. Mas, mais do que a localização geográfica, o que justifica o inesperado sucesso de bilheteiras de Blue Jasmine na América (maior do que Match Point) é o facto de contar uma história americana contemporânea. É quase um Wall Street contado de forma íntima e pessoal, procurando a perspetiva mais obscura da história. Está lá a crise financeira, mas mais do que isso os negócios ilícitos dos especuladores, que levaram a economia mundial à recessão e Jasmine à depressão. Jasmine não é propriamente uma vítima da crise financeira, mas antes da desonestidade do marido. A desonestidade enquanto gestor de fundos, mas também a desonestidade amorosa. Contudo, na sua enviesada maneira de estar, Jasmine também é vítima da sua própria desonestidade, pela forma como cria um mundo ilusório, plástico, que se desmorona com o soprar do vento. Uma joia falsa, assim como o seu nome. Jasmime não é uma aristocrata que cai na desgraça, mas antes uma falsa aristocrata que cai na desgraça. Mas, nem por isso, o mundo se lhe afigura mais fácil. A personagem de Jasmine funciona em contraste com Ginger, a sua falsa irmã. Jasmine e Ginger foram adotadas pela mesma família, só que Ginger ‘tem piores genes’. O contraste entre as personagens põe em evidência o conceito americano de falhado. Jasmine casou com um homem rico, e tem modos aristocratas, Ginger ainda não saiu de um ‘buraco’ em São Francisco e tem modos brutos. Mas, rapidamente, esta ideia acaba por ser desmontada e invertida, reformulando a questão do que é ganhar na vida. É o triunfo dos fracos. Acima de tudo há uma humanização inteligente das personagens, criando-lhes dimensões além do claro-escuro. Jasmine é uma vítima, mas não é apenas uma vítima, não sentimos mais comiseração por si, do que ela sente por si própria. Mais do que uma empatia pelo choque e os danos, sentimos uma esperança na sua regeneração (não económica, mas sim moral). Ginger é a personagem que nos causa maior empatia, na riqueza humana da sua vulgaridade. Jasmine não é uma figura simpática, mas não é uma figura a quem queiramos mal. Percebemos o seu drama, mas estranhamos os seus modos. E, sem saber como, chegamos às suas entranhas, às profundezas da sua superficialidade. Um longo mergulho no conturbado espírito do outro. Blue Jasmine é um falso Woody Allen de emoções verdadeiras. Blue Jasmine, de Woody Allen, com Cate Blanchett, Alec Baldwin, Peter Sarsgaard, Sally Hawkins, 98 min
BLUE JASMINE Joias falsas, emoções verdadeiras
Um filme de Woody Allen com pouco Woody Allen, mais depressivo do que neurótico e sem comic relief, que é como quem diz, sem escapatória
Mais na Visão
Política
Exclusivo