É tão fácil desintegrar o átomo e tem tão más aplicações. Mais fantástico engenho seria um acelerador de partículas para o preconceito, mas esse nem o grande Einstein conseguiu inventar. Uma Separação (estreia-se hoje, dia 15), do iraniano Asghar Farhadi (Urso de Ouro e dois de prata para os atores, no Festival de Berlim) não fala nada de potrões nem de neutrões, nem de quarks, nem de física quântica e no entanto há ali, para começar, um núcleo central que é dividido – um casal com uma filha adolescente em desavença conjugal. E a partir daqui as separações desdobram-se em equívocos e escolhas que, em última instância recaem sobre os ombros débeis das crianças – duas meninas, a filha dos pais separados e a filha da empregada suportam o fardo do egoísmo dos adultos, que denunciam as suas imperfeições diante dos seus olhos de assombro. Claro que tudo isto não passaria de um filme sobre um drama familiar, se não se passasse no Irão porque aí, sim, há como que um acelerador de partículas que abre brechas, e fossos, e mais cisões e o filme torna-se numa tragédia de nós todos, onde há sempre esta dicotomia da escolha, mas nem a dialéctica pode seguir o seu curso, porque as partes conflituantes estão numa balança desafinada.
A gota de água vai gerar tempestade quando o pai faz a sua escolha. Não aceita a pretensão da mulher de abandonarem o Irão para assegurarem um futuro mais dignificante para ela e para a filha, e admite abdicar do casamento, e conceder-lhe o divórcio. Sai de casa a mulher, mas, determina o juiz, não pode levar a filha. A segunda opção paterna é arranjar uma empregada doméstica para tratar do velho pai com Alzheimer e incontinente. Mas é preciso voltar a lembrar, estamos em terreno minado. No terreno politica, religiosa, e humanamente minado do Irão. E as fracturas vão-se abrindo debaixo dos pés, numa cadeia de causas e efeitos. O primeiro barranco sexual é logo ali apresentado, abissal, entre os homens e as mulheres de véu. E o quotidiano delas é sempre tentar salvar a pele, a cada dia. Nova clivagem, desta vez social: o homem de classe média contrata uma mulher de classe baixa, de shador e cheia de temores religiosos. Assaltam-na escrúpulos, oprimida pelo seu próprio sentido de pecado, consulta o imã a cada passo das tarefas domésticos, pode ficar sozinha em casa com um homem ainda que senil? Pode lavá-lo, trocar-lhe a roupa? Ainda por cima está ali, sem permissão do marido violento, ex-presidiário e coberto de dívidas. Avolumam-se os segredos, as mentiras, as ambiguidades, os equívocos. É preciso lembrar outra vez: estamos no Irão. Rebenta a tempestade anunciada. Numa altercação algo dúbia, o pai é acusado de causar a morte do feto da empregada. Mas ele nem sabia daquela gravidez de quatro meses e meio, oculta debaixo daquele funesto manto negro. Ou sabia? Arrisca 10 anos de prisão, terá de negociar com o sinistro marido e seu islamismo fundamentalista e, acima de tudo, oportunista. Chega o momento temível das escolhas. E é aqui que a tragédia doméstica e intimista se torna tragédia política, religiosa, jurídica, moral, filosófica – universal, em suma. Ainda por cima, soberbamente bem filmada, com uma fotografia excelente, interpretações absolutamente envolventes, e um argumento que flui sem convulsões (e atenção que este pode ser um dos melhores filmes do ano). Levantem-se os réus. O pai tem de decidir: abdica ou não da sua dignidade e aceita um acordo com o marido da empregada para não enfrentar a prisão? A empregada tem de decidir: jura ou não sobre o Corão que abortou em consequência do empurrão do patrão? A mãe tem de decidir: apoia ou não o marido que abdicou dela e não foi solidário nos seus intentos? E enfim, o veredicto mais doloroso de todos. A filha tem de optar: escolhe viver com o pai ou com a mãe?