Scott Fitzgerald, Ernest Hemnighway, Picasso, Mattise, Luís Buñuel, Salvador Dali, Cole Porter, Degas, Gertrude Stein todos no mesmo filme. Se mais argumentos não houvesse este elenco de personagens seria o suficiente para despertar o interesse. Mas claro que Meia-Noite em Paris, o último filme de Woody Allen, é, acima de tudo, um filme de Woody Allen e o nome, usado como adjetivo, é o que melhor o descreve (como sempre). Ele está presente, não em pessoa, mas através de mais um dos seus alter egos, no caso Owen Wilson (ator de percurso parco e relativamente pobre). Meia-noite em Paris – Woody Allen continua a filmar na Europa – foi muito falado, logo desde o início das filmagens, em parte pela participação (irrelevante) da primeira-dama francesa, Carla Bruni. O papel é pequeno e mal se dá por ela, mas tem toda a razão na discussão sobre Rodin.
No centro está Jil, que talvez seja um dos mais irritantes alter-egos de Allen. Para não variar, é um escritor falhado, que vive fora do seu meio, inadaptado, perdido pela nostalgia de um tempo ausente, em que nunca viveu, o que faz com que seja constantemente acusado de anacrónico. É um argumentista que se atreve a escrever um livro, mas falta-lhe a confiança e eventualmente o talento. Coincide também com os últimos filmes do realizador o ambiente da classe alta, no caso a mais alta e sofisticada burguesia americana, cheia por fora mas vazia por dentro, que habita uma Paris luxuosa. Sobrepõem-se os dramas psicológicos de natureza fútil às essências da vida. E neste caso só não há divórcio, porque Jil e Inês se separam mesmo antes de se casarem. Mas esta é a parte mais desinteressante de um filme que se quer leve.
O que este filme tem de maravilhoso é o simpático senhor Fitzgerald, que se deixa dominar pela sua mulher. Um Hemingway beberrão e idealista que é quase uma caricatura de si próprio. Um Dali excêntrico como lhe obriga a fama. Um Picasso com um terrível mau feitio que nenhuma mulher aguenta muito tempo. Imagina-se que a Allen deu tanto gozo escrever diálogos para esta dezena de personagens, como nós temos em encontrá-las no filme, em conversa com o americaníssmo aspirante a escritor.
O fantástico não é propriamente um recurso surpreendente na sua filmografia. Já entrara por ambientes fantasiosos em obras como A Maldição do Escorpião de Jade, A Desconstrução de Harry, Poderosa Afrodite ou Rosa Púrpura do Cairo. Aqui há uma ideia de viagem no tempo, digna de uma história de cantar, algures entre a Cinderela e um Regresso ao Futuro intelectualoide. Também há uma confusão propositada de dimensões. Tal como em Rosa Púpura do Cairo a protagonista tem um amor impossível por uma personagem de um filme, que Allen concretiza, usando a magia do cinema, fazendo com que esta entre tela adentro, aqui usa a sua ‘câmara de condão’ para permitir que o escritor contemporâneo viva numa época pelo qual se enamorou, os anos 20 parisienses, e se apaixone por uma espantosa mulher daquele tempo. Um artefacto engenhoso que nos deslumbra por essa galeria de personagens. O sonho é real, porque em cinema não há impossíveis.
É um bacanal artístico, um delírio intelectual, uma bebedeira abençoada. Tudo se conjuga e ganha vida, com uma naturalidade quotidiana, que desmistifica os heróis, aplana os deuses. Até porque, como qualquer outro conto de fadas, Meia-Noite em Paris tem uma moral. E o que daqui se aprende é uma resposta ao tão banal comentário que se ouve por aí nos autocarros: “Dantes é que era bom”. Apercebemo-nos que esse é um jargão que se repete ao longo das épocas. Jil admira os anos 20, tal como os contemporâneos dos anos 20 admiram a Belle Époque, e estes o Renascimento. Ou seja, mais vale viver o presente, não tivesse este, como canta Sérgio Godinho, o acesso bloqueado. E os anos 20 até podem ter sido fantásticos, mas falavam-lhes filmes do Woody Allen.