Tenho observado, com crescente preocupação, um padrão nos meus pacientes mais jovens e nos adultos preocupados com a saúde. Chegam ao consultório com hábitos alimentares aparentemente irrepreensíveis, praticam exercício físico regularmente, consomem suplementos vitamínicos e bebidas funcionais, mas apresentam níveis de erosão dentária que tradicionalmente associávamos a outros perfis de pacientes. Esta realidade clínica levou-me a refletir profundamente sobre como a nossa busca pela saúde geral pode, inadvertidamente, comprometer a saúde oral.
A erosão dentária distingue-se da cárie por resultar de um processo químico, não bacteriano. O esmalte, embora seja a substância mais dura do corpo humano, é vulnerável a ambientes ácidos prolongados. E é aqui que reside o paradoxo moderno: muitos dos produtos que consumimos para melhorar a nossa saúde têm um pH alarmantemente baixo. Observo frequentemente pacientes que iniciam o dia com água morna e limão, consomem sumos detox ao longo da manhã, bebem água com infusões de fruta durante o treino e terminam com um shot de gengibre e curcuma. Cada um destes momentos representa um ataque ácido aos dentes.
Os suplementos efervescentes de vitamina C, extremamente populares sobretudo nos meses de inverno, merecem atenção especial. Com um pH que pode rondar os 3, são comparáveis em acidez aos refrigerantes que muitos dos meus pacientes evitam conscientemente. A ironia é pungente: a pessoa que jamais beberia uma cola por questões de saúde, dissolve diariamente um comprimido efervescente na boca, muitas vezes deixando-o derreter sobre a língua, maximizando o contacto com os dentes.
As bebidas isotónicas e energéticas, consumidas por praticantes de desporto com o objetivo legítimo de repor eletrólitos e melhorar o rendimento, apresentam não apenas açúcares mas também níveis de acidez que, combinados com a desidratação típica do exercício físico, criam condições perfeitas para a erosão. Tenho visto atletas amadores na casa dos trinta anos com desgaste dentário equivalente ao que esperaria encontrar décadas mais tarde.
O que me inquieta particularmente é a natureza silenciosa desta condição. A erosão não provoca dor nas fases iniciais. Quando o paciente nota sensibilidade ao frio ou ao doce, ou percebe que os dentes parecem mais curtos ou translúcidos nas bordas, o processo já está significativamente avançado. O esmalte perdido não regenera, e as opções de tratamento, embora eficazes, são intervencionistas e dispendiosas.
A prevenção passa pela consciencialização
Não advogo o abandono de hábitos saudáveis, mas sim a sua adaptação. Recomendo aos meus pacientes que consumam bebidas ácidas de uma só vez, preferencialmente às refeições, em vez de as ingerirem ao longo do dia. Utilizar uma palhinha reduz o contacto direto com os dentes. Bochechar com água após o consumo ajuda a neutralizar o pH oral. Crucialmente, não se devem escovar os dentes imediatamente após a exposição ácida, pois o esmalte temporariamente amolecido pode ser removido pela escovagem. Aguardar trinta minutos é fundamental.
A reflexão que partilho é simples mas essencial: a saúde é um equilíbrio delicado entre múltiplos sistemas. Otimizar um aspeto não pode significar sacrificar outro. A boca é a porta de entrada do nosso corpo, e merece a mesma atenção consciente que dedicamos aos restantes aspetos do nosso bem-estar.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.