Às vezes, menos é mais. Mesmo na Medicina. Nos últimos anos, a questão do excesso de exames médicos e de tratamentos tem vindo a ganhar cada vez mais destaque, havendo já uma robusta comunidade a nível mundial, e que envolve médicos, enfermeiros, pacientes, associações, a alertar para os problemas do sobrediagnóstico/sobretratamento.
“O sobrediagnóstico consiste no diagnóstico desnecessário de doenças que nunca iriam manifestar-se ao longo da vida das pessoas. Ou seja, no sobrediagnóstico diagnostica-se uma doença que nunca iria provocar sofrimento ou morte”, explica o médico de família e investigador da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, Carlos Martins, que tem estudado o tema, desde Sydney, na Austrália, onde participa na conferência Preventing Overdiagnosis.
Uma das áreas mais discutidas no evento, que tem o patrocínio da Organização Mundial de Saúde, é a Oncologia. ” Há cancros que não evoluem, e hoje sabe-se, pela evidência científica, que esses cancros ocorrem em grande número”, sublinha Carlos Martins. “O problema é que a medicina actual não consegue determinar quais são esses cancros.” Uma das questões é que o sobrediagnóstico conduz sempre ao sobretratamento. Ou seja, há sempre pessoas que vão ser tratadas – submetidas a cirurgias, quimioterapia – desnecessariamente. “Nas últimas décadas milhares de pessoas no mundo ocidental terão sido sobrediagnosticadas e sobretratadas. Este é um problema que resulta, entre outros fatores, do uso excessivo dos exames de rastreio”, concretiza Carlos Martins.
Algumas das soluções propostas durante a conferência passam pelo recurso mais criterioso dos exames complementares de diagnósticos como as análises, os raios X, as ecografias ou as TAC. Contrariamente ao que se possa pensar, este uso criterioso visa “proteger as pessoas deste dano relevante que é o sobrediagnóstico”. Um dos exemplos para os quais há mais fundamentação é o teste de PSA, a que se recorre para rastreio de cancro da próstata. “É um exame que não recomendo como rastreio, pela elevada probabilidade de dano.”