1. Triângulo da Tristeza, de Ruben Östlund
No seu primeiro filme em inglês, o sueco Ruben Östlund desenvolve um estilo conceptual e ensaístico, já demonstrado em O Quadrado, numa comédia mais ambiciosa e abrangente. Triângulo da Tristeza está cheio de bons momentos, de humorada pertinência, mas o seu todo fica aquém do sítio onde pretende chegar, sobretudo porque as costuras conceptuais estão demasiado à vista prejudicando, por vezes, a fluidez narrativa. Em vários momentos, Triângulo da Tristeza parece-se com um Lars von Trier light, suficientemente inteligente mas sem aquela propensão do dinamarquês para agredir o espectador.
Em todos os casos, Triângulo da Tristeza é um filme de acutilância sociológica, feito à medida de sessões seguidas de debate (senão na própria sala, no café), pelo que merece ser visto nesse prisma, mesmo que alguns elementos estejam expostos ao nível do caricatural, como é próprio das comédias.
A primeira parte é, sobretudo, uma sarcástica crítica ao mundo da moda, com humor fino, mas que fica inevitavelmente aquém de Robert Altman e o seu Prêt-à-Porter (1994). A segunda parte, toda passada num cruzeiro de luxo, mistura O Barco do Amor com um surrealismo à la Wes Anderson (mais concretamente, lembra Um Peixe Fora de Água, 2004) com algumas cenas de humor bem conseguidas e uma farpa espetada não no mundo da moda mas na alta sociedade. Diga-se que é uma farpa fácil de espetar.
A terceira parte torna-se um jogo sociológico pobre e simplista, ao estilo de um daqueles programas de televisão em que os concorrentes tentam sobreviver numa ilha deserta, reinventando a pirâmide social. Um Rousseau invertido ou uma tentativa algo primária e ingénua de explicar sociologicamente o homem.
No meio disto tudo, a tragédia real de Triângulo da Tristeza é a inesperada morte precoce, no final de agosto, da atriz sul-africana Charlbi Dean, a verdadeira revelação do filme. Uma atriz que ainda tinha muito para dar.
2. No País de Alice, de Rui Simões
Em jeito de testamento ou de testemunho, Rui Simões, veterano do documentário em Portugal, percorre o País com a sua filha, ainda criança, em busca de locais raros e de personagens exemplares. É um terno filme de viagem, com pormenores de retrato sociocultural, mas que acima de tudo procura mostrar um Portugal profundo e diversificado, que integra uma sociedade rural que ainda existe entre os escombros da urbanidade.
No País de Alice é guiado pela voz doce e ingénua de uma criança. Um artefacto que peca por, muitas vezes, não conseguir disfarçar a sua própria artificialidade – na verdade, é um olhar adulto, o olhar do próprio Rui Simões, e os seus interlocutores raramente adaptam o discurso ao contexto infantil. Não passa qualquer ideia de intercâmbio geracional (o que é pena, mas o filme seria outro).
Retrato do seu tempo, o filme acabou por ser apanhado pela pandemia, deixando de fora do itinerário o Sul do País e a Madeira. O próprio documentário assume essa fatalidade, incorporando o contratempo de forma ágil e até natural. Uma viagem que vale pelas personagens que encontra e as histórias por si contadas.