
Apesar de utilizar técnicas de documentário e não atores, que usam os mesmos nomes das personagens, José Luis Guerín faz questão de frisar que A Academia das Musas é uma obra puramente ficcional
A sombra da Nouvelle Vague cobre vários jardins, de forma indubitavelmente rica e com nuances que distinguem as abordagens. Um dos mais notáveis é, sem dúvida, o catalão José Luis Guerín, que se destacou com o filme Na Cidade de Sílvia (2007), e agora reaparece com grande visibilidade em A Academia das Musas. Um cinema cru, realista na forma como capta o mundo em redor, que usa técnicas na fronteira entre a ficção e o documentário (embora no caso se trate mesmo de ficção), como, por exemplo, o uso de atores não profissionais ou a propositada precariedade de meios: o filme foi rodado por uma equipa de apenas dois elementos, estando o próprio realizador a operar a câmara. De resto, o professor, personagem central de A Academia das Musas, é mesmo um professor de “poesia” aposentado. E a sua mulher faz mesmo de sua mulher. Bem como as musas são suas ex-alunas, que ele trata pelo próprio nome.
A realidade é assim um pano de fundo seguro através do qual o catalão se propõe a criar algo de novo. Esse algo começa por ser uma discussão filosófica em torno da própria poesia, transmitida através do ambiente do debate numa sala de aula da universidade, mas que transpõe, de forma bastante crua, para o exterior, com filmagens em planos ousados, que revelam sempre uma grande liberdade criativa da parte dos (não) atores. Guerín valoriza a espontaneidade e a captura de pedaços do real, encarando o ator como um compromisso entre ele próprio e a sua personagem. Na trama evolui para um confronto entre a teoria poética e a realidade, enquanto tenta formar a dita Academia de Musas.
A Academia das Musas > De José Luis Guerín, com Raffaele Pinto, Rosa Delor, Emanuela Forgetta, Patricia Gil > 92 min