Quem hoje passa por aqueles rostos gravados nas paredes de Coimbra e arredores, e os vê associados à Fábrica de Lanifícios de Santa Clara dificilmente se recordará dos tempos em que o Convento São Francisco, na margem esquerda do rio Mondego, acolhia esta indústria. Fundada em 1888 pela família Planas, era conhecida pela produção de fazendas de qualidade superior, maioritariamente para exportação. Após o 25 de Abril de 1974, transformou-se na Clarcoop, uma das raras cooperativas de produção têxtil em Portugal, mantendo a atividade até meados dos anos 80. Foi a última ocupante do convento (adquirido pelo município de Coimbra em 1986), que, após extensas e avultadas obras de reabilitação, reabre nesta sexta, 8, como centro de convenções e espaço cultural. A ideia é acolher várias expressões artísticas – entre elas, a arte urbana, com este projeto FIO – Memórias como Matéria-Prima.
Após ter-se estudado a história do convento, escolheu-se “dar protagonismo aos proprietários da fábrica de lanifícios e a todos os que nela trabalharam, homenageando os últimos anos de utilização deste edifício”, conta Lara Seixo Rodrigues, da MISTAKER MAKER, a associação convidada a produzir esta ação. Desta forma, cumpria-se a vontade da Câmara Municipal de Coimbra de ali construir novas narrativas de representação do território, recorrendo à história, património e memórias da cidade. Foram identificadas dez pessoas que se destacavam no funcionamento da fábrica, de vários departamentos, desde Vitorino Planas (filho do fundador) a Ana Cruz, uma das cerzideiras, passando por António França, um dos responsáveis pela manutenção (a única exceção é Pedro Meunier, bisneto do fundador, que nunca pertenceu aos quadros, cuja investigação sobre a empresa foi decisiva para este projeto).
A partir de retratos dos funcionários da época em que a unidade fabril laborava, convidaram o artista urbano SAMINA a criar obras em stencil e a orientar um workshop aberto à comunidade, numa das salas do convento requalificado. “Quis passar para os participantes todas as técnicas envolvidas, desde a conceção à concretização no terreno”, explicou João Samina. No passado dia 3, saíram para as ruas de Coimbra e pintaram reproduções daqueles dez rostos por vários locais de passagem, desde a Praça 8 de Maio à Avenida Emídio Navarro. Uma forma de o projeto anunciar, igualmente, a abertura do Convento São Francisco à cidade.
Outros grafittis foram colocados nas aldeias de Ceira e Almalaguês (ainda hoje, o maior centro de tecelagem manual da Europa), onde vivia grande parte dos operários, percorrendo a pé, diariamente, os quilómetros que os distanciavam da Fábrica de Lanifícios de Santa Clara. “Encontramos algumas destas pessoas e falaram com muito saudosismo daqueles tempos e, ao mesmo, tempo, ficaram muito agradecidos por termos feito esta investigação”, diz Lara.
A intenção da MISTAKER MAKER será gravar o máximo de depoimentos possível, para serem incluídos num documentário sobre o projeto FIO, apresentado no próximo dia 16. Por esta altura, também estarão concluídos dois murais de grande dimensão da autoria de SAMINA. Um no interior do Convento São Francisco, fazendo uma composição com aqueles dez rostos. Outro, numa artéria conhecida da cidade, fazendo mais uma tentativa de conquista e de aproximação da comunidade de Coimbra ao novo centro de convenções e espaço cultural. Uma proposta, mais uma vez, com rosto, mas ainda por revelar.