Há uma nova frequência a sintonizar na música portuguesa. Chama-se Mundo Antena e apresenta-se como um disco sob a forma de estação de rádio, no qual nem faltam as vozes de alguns radialistas portugueses. É o álbum que marca o regresso de Ana Bacalhau aos trabalhos de originais, com um conjunto de canções que vagueiam por diversos ambientes e estilos musicais. Um imaginário radiofónico que a artista pretende transpor para o palco, replicando em concerto o ambiente de uma transmissão ao vivo.
Como surgiu esta ideia de ligar o disco a uma emissão de rádio fictícia?
Veio da música que deu o título ao álbum, que fala de duas crianças amigas, que, ao fazerem um trabalho de casa, percebem que pensam de forma diferente dos colegas e da professora, uma delas construindo um mundo alternativo que apenas é captado pela antena da rádio que a outra construiu. Pensei que é uma ideia bonita esta de que a rádio, como forma de comunicação que estimula a audição e a imaginação, nos ajudou a navegar este mundo e nos fez sentir conectados uns aos outros de uma forma que as redes sociais, que apelam mais à visão, não conseguem. É um tributo a um mundo radiofónico que tende a deixar de existir para os mais jovens…
Daí a participação de nomes como Nuno Markl, Fernando Alvim, Joana Marques ou o histórico António Macedo?
Exatamente, são pessoas que marcam e marcaram a rádio em Portugal, cujo trabalho admiro.
Que importância teve a rádio para si?
Toda. A rádio deu-me as melhores e as piores notícias. Lembro-me como se fosse ontem: acordei, estava eu no Secundário, liguei o rádio, como de costume, e ouvi o locutor a dar a notícia da morte de Kurt Cobain. Conheci alguns músicos e músicas seminais para mim através de programas de autor, e lembro-me de ficar à espera das minhas músicas preferidas para as gravar em cassetes. E a ida dos Deolinda à Antena 3, para tocarmos alguns temas, em 2008, tornou-se viral e ajudou à explosão da banda junto do público. Posso dizer que a rádio teve um papel resgatador na minha vida.
Na digressão do disco, a ideia é fazer o concerto como se fosse uma transmissão ao vivo na rádio
ana Bacalhau

Uma das características deste disco é uma grande variedade de temas, ritmos e sonoridades, que tanto passa pelo imaginário pimba, como pela pop mais melosa, o rock ou até blues… Esta “Rádio Bacalhau” acaba por funcionar como imagem da sua carreira?
Não sendo uma coisa planeada, penso que sim. Ouço e gosto de muita música diferente, sem julgamentos, nem tentativas de me colocar em determinada caixa estilística. Assim, quando passo de ouvinte a música, naturalmente encontro em canções muito diferentes pedaços de mim que quero cantar.
Este imaginário radiofónico será transposto para o palco nos concertos de apresentação do disco?
Sim, o palco será feito à imagem do que será um palco num estúdio de rádio, daqueles onde vamos tocar algumas músicas ao vivo nos programas da manhã. Na digressão do disco, a ideia é fazer o concerto como se fosse uma transmissão ao vivo na rádio.
Antes dessa digressão, terá um concerto especial, dedicado ao 25 de Abril [A Liberdade Está a Passar por Aqui, nas Caldas da Rainha, no dia 24]. Como surgiu este espetáculo e qual será o repertório?
Esse concerto foi desenhado para celebrar Abril. Tem temas meus, claro, mas canto, sobretudo, canções que fizeram a história da Revolução e da liberdade em Portugal. Canto Sérgio Godinho, Zeca Afonso, José Mário Branco, Paulo de Carvalho e lanço os áudios das senhas da Revolução, bem como alguns poemas de Sophia de Mello Breyner e Natália Correia. Foi criado para pensarmos em conjunto estes 51 anos em liberdade e celebrarmos um cancioneiro rico em esperança e sonhos, alguns concretizados, outros por concretizar.