O outro cancro do tabaco

Foto: José Carlos Carvalho

O outro cancro do tabaco

“Pelas minhas contas, fumei mais de 400 mil cigarros durante a minha vida.” É assim que Henrique Barros, 67 anos, resume o histórico de consumo de tabaco desde os 12 anos. Além deste hábito, a obesidade e o facto de ter engordado dez quilos – chegou a pesar 115 –, e o sedentarismo durante a pandemia, transformaram-se na oportunidade “perfeita” para o desenvolvimento do cancro. Em termos técnicos, recebeu a notícia de que tinha um carcinoma pavimento celular da língua, nos primeiros meses de 2022.

No outono do ano anterior, teve a sensação de ter mordido a língua e de ter ficado com um pequeno relevo na parte inferior. Deitou um pouco de sangue, voltou a morder a língua passados uns dias, mas desvalorizou. “Certo dia, apercebi-me de que aquela zona estava rígida e pensei que poderia ser algo mais grave.” Marcou consulta e a médica recomendou a realização de uma ressonância magnética.

O processo foi relativamente rápido. Duas semanas depois, estava a fazer o exame. Na primeira consulta com o otorrinolaringologista Hugo Estibeiro, foi realizada de imediato uma biópsia, cujo resultado chegaria dez dias depois – tinha um tumor maligno e, em menos de um mês, dava entrada no bloco operatório. “Se a cirurgia for passível de ser efetuada, garantindo uma resseção com segurança e não mutilando muito o doente, é a primeira arma que temos”, explica o médico.

Henrique Barros foi submetido a uma hemiglossectomia, uma intervenção em que foi extraída metade da língua, e a um esvaziamento ganglionar, para que os gânglios fossem devidamente analisados e também para confirmar se haveria alguma invasão visível apenas ao nível microscópico e que, eventualmente, poderia ter “escapado” aos exames de imagem.

Processo delicado

A partir do momento em que surge este diagnóstico, é preciso acautelar algumas situações e possíveis consequências. “A língua tem imensas funções e, quando temos um doente com um tumor deste tipo, vamos ter de o retirar com uma margem de segurança, podendo surgir vários problemas, desde a dificuldade em mastigar, em iniciar a deglutição e em articular os sons, sobretudo na fase inicial de cicatrização, que pode demorar algumas semanas”, explica o otorrinolaringologista do Hospital CUF Tejo.

Antes da cirurgia, o doente tem de ser informado sobre todos os pormenores, por exemplo, a necessidade de realizar uma traqueostomia (abertura cirúrgica feita na traqueia, que se localiza na parte inferior do pescoço, em que é colocada uma cânula para permitir a entrada de ar), que, no caso de Henrique, foi temporária e permitiu assegurar a respiração. “Em simultâneo, durante três semanas, não poderia comer pela boca, e o doente teria duas hipóteses para se fazer chegar os alimentos ao estômago: colocar uma sonda no nariz ou uma PEG (gastrostomia percutânea endoscópica) no estômago.”

Henrique Barros optou por colocar a PEG, que consiste, segundo a Sociedade Portuguesa de Endoscopia Digestiva, “na introdução de uma sonda na cavidade gástrica através da parede abdominal, com a ajuda da endoscopia digestiva alta”.

Foi também preciso contar com a participação de Diogo Casal, cirurgião plástico, para reconstruir o volume da metade da língua que iria ser extraída. “Como fazemos isto? Temos de ir buscar tecidos (pele e músculo) na vizinhança ou à distância”, explica Hugo Estibeiro. Henrique foi submetido a um retalho livre, no mesmo momento cirúrgico em que foi preciso “retirar músculo e pele ao braço do doente”. No total, a cirurgia demorou cerca de dez horas.

Perante a proposta desta cirurgia longa e com inúmeras complicações, Henrique Barros não hesitou. “Não tinha outra saída, nem tive muito tempo para pensar no assunto. Assumi a responsabilidade de me encontrar nesta situação e sabia que era a única solução.” Foi diminuindo o número de cigarros que fumava (passou de 20 a três por dia) e deixou de fumar definitivamente dois dias antes da cirurgia. Ficou internado durante 11 dias, ao que se seguiu um exigente período de recuperação em casa.

Tratamentos adjuvantes

Qualquer tratamento ao cancro da língua “tem de ser muito agressivo, para não corrermos risco de recidiva”, defende Gonçalo Fernandez, coordenador da Unidade de Radioterapia do Hospital CUF Descobertas. “A decisão do tratamento depende muito do estádio, se o tumor atinge a mobilidade da língua, das margens cirúrgicas alcançadas, entre outros”, destaca.

Este é um tumor muito desafiante de tratar, não só ao nível cirúrgico mas também no que respeita à radioterapia. Esta tem duas funções: tratar os tumores inoperáveis (definitiva) ou reduzir o risco de recidiva depois de uma cirurgia (adjuvante). “Ao fazermos radiação nesta localização, vamos criar muita inflamação em zonas importantes do nosso corpo, como é o caso da boca, da garganta, da própria língua, e isso vai acarretar inúmeros desafios dependendo do grau de tolerância do doente.”

Quando o doente faz quimiorradioterapia concomitante, “o tratamento principal é a radioterapia”, explica Gonçalo Fernandez. Se não tolerar os tratamentos, a equipa tenta “nunca interromper a radioterapia”. Foi o que aconteceu com Henrique, que só conseguiu completar dois dos três ciclos de quimioterapia, tendo terminado as 30 sessões previstas de radioterapia.

Henrique habituou-se a cuidar de si próprio e a gerir o seu problema durante todo o processo. “Esta doença foi uma grande lição, porque temos a ideia errada de que isto só acontece aos outros”, reforça, sugerindo a fumadores que deixem de fumar e defendendo uma atitude positiva, que não se coaduna com pensamentos destrutivos. “Vou às consultas de vigilância e nunca conto com a possibilidade de a doença voltar.”

Para descontrair, e porque é um apaixonado por motas, faz muitas viagens sozinho – a mais recente levou-o a vários cantos de Portugal, onde conseguiu usufruir da liberdade de que foi privado há ano e meio.

Sinais de alerta

Existem tumores da língua que passam mais despercebidos do que outros, dependendo da localização, mas há sinais. O otorrinolaringologista Hugo Estibeiro define os principais

► Surgimento de tumefação [inchaço], zonas de enduração, uma ferida que até pode ser indolor, mas que não desaparece e se torna progressivamente maior

► Muitas vezes, quando o tumor já está muito avançado, a língua não consegue fazer todos os movimentos, gerando dificuldade na mastigação/ articulação

► Caroço / Massa no pescoço

► Impressão na garganta, que leva a pessoa a pigarrear

Fatores de risco

► Todas as formas de tabaco (cigarros, cachimbo, charuto, tabaco aquecido)

► Álcool: quanto maior a quantidade e a potência do álcool, pior

► Má higiene bucal (dentes fraturados, arestas cortantes, infeções das gengivas)

► HPV (vírus do papiloma humano)

Artigo publicado na VISÃO Saúde nº 33

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