Portugal quer mais empreendedores, mais inovação, mais investimento e empresas capazes de competir internacionalmente. Mas será que queremos verdadeiramente recompensar quem assume os riscos necessários para alcançar esses resultados?
Queremos uma economia ambiciosa, mas não criamos condições para que a ambição compense. Celebramos a inovação, mas receamos o fracasso. Pedimos investimento, mas nem sempre reconhecemos os riscos de quem investe.
E esta contradição tem consequências.
Criar uma empresa é assumir a possibilidade de falhar. Investir num novo produto é arriscar capital sem qualquer garantia de retorno. Expandir uma fábrica, contratar trabalhadores ou entrar num mercado desconhecido implica tomar decisões cujas consequências podem demorar anos a revelar-se.
E, no entanto, quando discutimos o sucesso empresarial, falamos frequentemente dos resultados, mas muito menos dos riscos que alguém teve de assumir para os alcançar.
É fácil olhar para uma empresa lucrativa e discutir quanto deveria pagar em impostos. É mais difícil recordar que, antes de existir lucro, alguém investiu dinheiro, assumiu responsabilidades, enfrentou incerteza e poderia ter perdido tudo aquilo que colocou no projeto.
O problema é que o risco tem uma característica muito particular: quem o assume suporta as perdas quando as coisas correm mal, mas nem sempre encontra um ambiente que lhe permita beneficiar suficientemente quando correm bem.
Se queremos que alguém invista, precisamos de garantir que existe uma perspetiva de retorno proporcional ao risco assumido. Caso contrário, não deveria surpreender-nos que tantas pessoas prefiram não arriscar. Esta lógica não se aplica apenas aos empresários. Um jovem que abandona um emprego estável para criar um negócio está a assumir um risco. Um profissional que muda de carreira para procurar melhores oportunidades também. Uma empresa que decide investir em tecnologia, em vez de distribuir imediatamente os seus resultados, está a apostar num futuro que pode não se concretizar.
Uma sociedade que recompensa apenas a segurança acaba por incentivar comportamentos defensivos.
E quando todos procuram sobretudo evitar perder, torna-se muito mais difícil construir algo verdadeiramente novo.
Precisamos, por isso, de repensar a forma como encaramos o fracasso.
Em Portugal, falhar num projeto empresarial pode continuar a representar um peso financeiro, profissional e até social significativo. Naturalmente, quem assume compromissos deve responder pelas suas decisões. Mas existe uma diferença entre responsabilizar alguém por comportamentos negligentes e tratar qualquer insucesso como prova de incompetência.
Uma empresa pode falhar mesmo quando foi criada com uma boa ideia, gerida com seriedade e desenvolvida por pessoas competentes.
Se o fracasso representar uma marca permanente, o incentivo para experimentar diminui. E, com ele, diminui também a probabilidade de surgirem projetos capazes de transformar setores inteiros.
É precisamente por isso que precisamos de distinguir o risco produtivo da irresponsabilidade. Não se trata de defender que o Estado deve proteger todos os investimentos ou socializar as perdas de quem decide arriscar. Pelo contrário. O risco implica a possibilidade real de perder.
Trata-se de garantir que o enquadramento económico, fiscal e administrativo não torna desnecessariamente difícil tentar novamente.
Também precisamos de questionar a relação que mantemos com a ambição.
Porque é que querer criar uma empresa internacional, ganhar muito dinheiro ou construir um grande grupo empresarial é, por vezes, recebido com maior desconfiança do que querer manter uma carreira estável?
Não há nada de errado em procurar estabilidade. É uma escolha perfeitamente legítima. Mas também não deveria existir nada de errado em querer construir algo maior, assumir responsabilidades e procurar retornos elevados.
O sucesso de alguém não representa necessariamente o fracasso de outra pessoa.
Quando resulta de inovação, produtividade e criação de valor, pode gerar oportunidades que antes não existiam.
Portugal precisa de empresas que cresçam, de profissionais que procurem desenvolver novas competências e de investidores dispostos a financiar projetos cujo sucesso está longe de ser garantido.
Para isso, não basta pedir mais empreendedorismo nos discursos políticos ou celebrar startups em conferências.
É necessário criar condições para que investir seja atrativo, para que o sucesso seja recompensado e para que um fracasso honesto não represente o fim da possibilidade de tentar novamente.
Precisamos de uma economia onde seja possível assumir riscos sem enfrentar obstáculos desnecessários e onde criar valor seja uma ambição reconhecida, não uma atividade permanentemente colocada sob suspeita.
Porque não podemos desejar uma economia extraordinária enquanto continuamos a incentivar decisões exclusivamente conservadoras.
A ambição exige a possibilidade de ganhar. Mas exige também a coragem de poder perder.
E um país que não aprende a recompensar quem arrisca dificilmente conseguirá construir uma sociedade verdadeiramente ambiciosa.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.