Baixos níveis de serotonina – o neurotransmissor responsável, entre outras coisas, pela memória de curto prazo – podem ser a explicação para as falhas cognitivas da ‘Covid longa’.
A sugestão é de uma equipa de investigadores da Universidade da Pensilvânia, nos EUA, que publicou o estudo na revista científica Cell. Os cientistas avançam que a redução de serotonina é desencadeada por restos do vírus que permanecem no intestino, sendo que esta falta poderia explicar, nomeadamente, problemas de memória e alguns sintomas neurológicos e cognitivos da ‘Covid longa’, disseram.
Este é um dos estudos dedicados à ‘Covid longa’ que sugerem alterações biológicas no corpo. Os autores referem que o eixo biológico da investigação poderá unir algumas das principais teorias sobre o que causa a ‘covid longa’: restos persistentes do vírus, inflamação, aumento da coagulação sanguínea e disfunção do sistema nervoso autónomo.
“Todas estas diferentes hipóteses podem estar ligadas pela serotonina”, diz Christoph Thaiss, principal autor do estudo, citado pelo The New York Times. De acordo com Thaiss, mesmo que “nem todas” as pessoas tenham problemas ao nível da serotonina, “pelo menos algumas” poderão receber tratamento para ativar este neurotransmissor.
Os restos de vírus no intestino
Os cientistas analisaram o sangue de 58 pacientes com sintomas persistentes de ‘Covid longa’ entre três meses e 22 meses depois da infeção inicial. Os resultados foram, depois, comparados com análises sanguíneas de 30 pessoas sem sintomas pós-Covid-19 e outros 60 pacientes no estado agudo da infeção. Os investigadores referem que os níveis de serotonina foram imediatamente alterados após a infeção, o que também acontece com outras infeções virais, mas, neste caso, a serotonina foi a única molécula biológica que não recuperou para os níveis pré-infeção.
A equipa também analisou amostras de fezes dos pacientes com ‘covid longa’ e verificou que continham ainda partículas virais remanescentes.
Depois compararam, também, esta descoberta com as investigações feitas com ratos de laboratório e modelos miniatura de intestinos humanos, onde se produz a maior parte da serotonina, e identificaram o meio que poderá estar subjacente a alguns casos de ‘Covid longa’.
A explicação é a seguinte: os restos virais estimulam o sistema imunológico a produzir proteínas que combatem infeções, os chamados interferões. Estes interferões causam uma inflamação que reduz a capacidade do corpo de absorver o triptofano, um aminoácido que ajuda a produzir serotonina no intestino. Os coágulos sanguíneos que se podem formar após a infeção por coronavírus podem diminuir a capacidade do corpo de fazer circular a serotonina.
Níveis baixos de serotonina, dizem os autores, perturbam o nervo vago, que transmite mensagens entre o cérebro e outras parte do corpo. Dado que a serotonina tem um papel fundamental na memória de curto prazo, os autores sugerem que, em baixos níveis, poderá ser a causa dos problemas de memória e de outras dificuldades cognitivas que muitas pessoas tiveram durante a ‘Covid longa’.
Desta forma, o estudo identifica três biomarcadores (alterações biológicas que podem ser medidas para ajudar a diagnosticar a doença): presença de restos virais nas fezes, níveis baixos de serotonina e níveis altos de interferões.
O próximo passo são os ensaios clínicos para testar a fluoxetina, um inibidor seletivo da recaptação da serotonina (comercializado com o nome de Prozac), como forma de suplementar ou prevenir os baixos níveis desta molécula.