Têm pouco mais de centímetro e meio e vivem em lagos e ambientes húmidos. Quando adultos, são considerados hermafroditas e, sabe-se há muito, têm uma enorme capacidade de regeneração. Agora, as experiências de duas cientistas, separadas por um século, revelam que, face às pressões que ameaçam a sua existência, as planárias estão a encontrar uma forma nova de sobreviver ao stress climático causado pelo aquecimento global.

Foto: Katharine Clayton/University of Plymouth
A variante desta espécie de que se fala agora chama-se Procerodes littoralis. É um verme dito macio e gelatinoso e vive junto à costa um pouco por toda a Europa ocidental e no leste dos Estados Unidos, em particular, nas zonas de maré onde a água doce dos rios se encontra com a água salgada do mar. Graças às suas capacidades de se regenerar – quando partida ao meio, rapidamente dá origem a outros dois seres vivos – está há muito debaixo de olho dos cientistas que trabalham no campo da regeneração celular. Agora, a repetição de uma experiência feita entre 1912 e 1913 sugere que já faz mais do que isso.
Proeza repetida e aumentada
Foi nessa altura que Dorothy Jordan Lloyd, bióloga marinha pioneira na investigação sobre a interação entre as proteínas e a água, se decidiu a compreender melhor a capacidade daquele verme de se regenerar em águas com salinidade diferente. Entre o verão de 1912 e a primavera de 1913, a investigadora colheu várias dúzias. Depois, no laboratório que a Associação de Biologia Marinha tinha em Plymouth, no Reino Unido, fez experiências com eles.

Foto: Marine Biological Association
Começou por cortar os bichos ao meio e colocá-los em pequenos frascos com águas diferentes e ficou a ver o que acontecia. Como o seu habitat natural é muito semelhante, sabia à partida que aquelas planárias têm uma alta tolerância à mudança das condições da água. Seja hipo ou hipersalina, tenha mais ou menos sal. E tudo correu como previsto: os vermes recuperaram rapidamente, multiplicando-se.
Mas cem anos depois, os ecossistemas estão sobre forte pressão, devido às alterações climáticas. Será que os ditos vermes ainda são capazes da mesma proeza? Foi à procura da resposta a essa questão que a bióloga marinha Katharine Clayton, da mesma Universidade de Plymouth, resolveu repetir a experiência.
A teoria do resgate evolutivo
Assim, esta jovem investigadora passou os verões de 2016 e 2017 a capturar dezenas de Procerodes littoralis das rochas do mesmo riacho onde Dorothy Lloyd o tinha feito 100 anos antes. Voltou a dividi-los ao meio e deitou-os em outros frascos com diferentes concentrações de sal, replicando lugares onde as alterações climáticas já tiveram efeitos. Desde a considerada hiposalina, porque só tem 3 gramas por quilo de água – usada, por exemplo, para irrigar tomate, até à chamada hipersalina, com mais de 50 gramas, o que excede a concentração que se encontra em lugares como o Mar Morto.

Foto: University of Plymouth
Os resultados, publicados agora na revista científica Marine Ecology Progress Series, mostram como aquelas planárias aumentaram a sua tolerância aos extremos salinos, particularmente à água com baixo teor de sal. Além disso, e ao contrário do verificado há cem anos, não precisam de um nível ótimo para a sua regeneração. Seja em que ambiente for, mantêm essa sua capacidade – o que sugere aumentaram a tolerância ao sal.
Pelo menos, essa é a opinião de outros especialistas. É o caso de John Spicer, professor de zoologia marinha na mesma instituição universitária e supervisor da investigação de Katharine Clayton. Até agora, mostrara-se um cético perante a recente teoria de resgate evolutivo, que defende que, face às rápidas alterações climáticas, os animais evoluem para sobreviver. “Muitos, incluindo eu, duvidavam desta capacidade, especialmente num tão curto espaço de tempo em termos de evolução das espécies”, confiou já aquele especialista, citado pelo El País. “Mas este estudo mostra bem que é algo a considerar”.