Henrique Cymerman, correspondente da SIC em Israel, é a figura fundamental por trás da visita do Papa àquele País e aos territórios palestinianos, este fim de semana, entre os dias 24 e 26. E tudo começou com uma pergunta de Francisco, ao português, em junho do ano passado. Agora, como diz o chefe da Igreja Católica, «o Henrique resolve»…
O que posso eu fazer pela paz na Terra Santa?»
A pergunta é do Papa Francisco e o seu interlocutor é um jornalista português, de origem judaica, correspondente da SIC em Israel. O cenário, uma salinha impessoal, mobilada com modéstia. Uns sofás, uma mesinha de trabalho, uma alcatifa. O local, a Residência de Santa Marta, onde vive o Papa, depois de ter dispensado o fausto do Palácio do Vaticano e de optar por uma suite, forrada de livros, com papéis pelo chão, nos quais ninguém nem quem lhe faz a cama e limpa o modesto aposento se atreve a mexer.
A data, junho de 2013. O jornalista acabara de ser conduzido ao Vaticano pelo melhor amigo do Papa, o rabino judeu de Jerusalém, Abraham Skorka. A história remete para o imaginário da banda desenhada: Henrique Cymerman, 55 anos , o repórter de que falamos, bem podia ser a mais conhecida personagem de Hergé, num álbum intitulado «Tintim, aventura no Vaticano». Cymerman gosta da analogia: «Nos meus tempos de estudante, nos maristas do Porto, já me chamavam Tintim. Até tinha um cão parecido com o Milu…» Acabavam de se conhecer. Cymerman foi mesmo pessoalmente guiado pelo Papa ao refeitório de Santa Marta, onde o Sumo Pontífice deu ordens para que lhe servissem almoço, e à equipa de reportagem que o acompanhava.
Mas Henrique Cymerman não teve tempo para a sobremesa: pouco depois, era chamado à salinha de visitas, onde fora recebido.
O Papa queria conversar. E a abordagem foi a matar: «Ouvi dizer que dominas o Médio Oriente…»
‘Henrique resolve’
E a pergunta, senhores? O que pode o Papa fazer pela paz entre israelitas e palestinianos, perguntou ele e perguntamos nós? Tal como nós esperamos uma resposta, também o Papa, olhando nos olhos o jornalista português, a esperou, num pesado silêncio de alguns segundos. Cymerman teve uma inspiração: «Para começar, é ir lá.» Ir lá! Sim, poucos dias depois, Francisco haveria de receber o Presidente de Israel e prémio Nobel da Paz, Shimon Perez. «Sei que ele vai convidar-me a visitar Israel, mas eu precisava de ter, também, um convite do ‘outro lado’.» Leia-se, da Autoridade Palestiniana.
Henrique Cymerman não pestanejou: «Isso arranja-se já. Sua santidade dá-me licença?» E agarrou no telemóvel. Do outro lado, atendia um assessor do Presidente palestiniano, Mahmud Abbas. «Boa tarde, fala o Cymerman! Estou aqui no Vaticano, com o Papa Francisco, e passa-se isto assim, assim…» Foi na hora: «Encantados! O convite vai seguir oportunamente!» Nesse momento, o Papa desabafou com Cymerman: «Vou pensar muito a sério na tua ajuda!» E, se Cymerman fosse o Liedson e o Papa um adepto do Sporting, decerto que Francisco seguraria, a esta hora, um cartaz com uma frase que não se cansa de repetir, nas reuniões preparatórias da viagem, que têm decorrido no Vaticano: «O Henrique resolve!» Poucos dias depois, com efeito, vinha o convite e depois de Perez, a visita do próprio Presidente Abbas ao Vaticano. Henrique Cymerman ficava informalmente nomeado para «organizar» a visita do Papa. Estabelecendo contactos, desbloqueando dificuldades, falando com todos os lados envolvidos o que inclui telefonemas regulares semanais para o Vaticano. «Sou jornalista, mas estou nisto por convicção ideológica. Foi o destino que me colocou aqui. O que eu puder fazer pela paz, faço», justifica-nos Cymerman, durante uma longa conversa telefónica de 1 hora e dez minutos, desde Israel.
Ele tem muito para contar. Afinal, o português é já considerado o melhor amigo dos melhores amigos do Papa: são eles Abraham Skorka e a argentina Alicia Barrios, uma espécie de biógrafa, porta-voz informal e confidente de Jorge Bergoglio. Ou do «padre Jorge», como lhe chama, e como o tratam os argentinos que o visitam. «Falo umas quatro vezes por semana com Alicia, a quem o Papa chama ‘a minha rainha’», conta o jornalista.
No Vaticano, no próprio dia em que conheceu o Papa, e em que a viagem a Israel foi decidida, Cymerman tornou-se logo um improvável conselheiro de Francisco: «Esta visita devia ser a primeira do seu pontificado, decidida por si [a viagem ao Brasil, em julho de 2013, estava agendada desde o consulado de Bento XVI]. Seria simbólico e importante para os dois lados em conflito.»
Papa quer fazer barulho
Nesse mesmo já longínquo dia de junho de 2013, Francisco confessaria ao jornalista português: «O meu maior sonho é abraçar aqui o amigo Skorka junto ao Muro das Lamentações, em Jerusalém!» Ou: «Admiro muito o Shimon Perez e gostaria de lá ir enquanto ele é presidente [o mandato acaba em julho deste ano]. É, dos políticos veteranos em exercício, o mais destacado.» Ora, toda esta proximidade ao lado judaico, a admiração por Perez, as declarações a favor do diálogo entre católicos e judeus, a intimidade com Skorka que se tornou visita assídua do Vaticano e, com Alicia Barrios, faz parte do inner circle do Papa provocou desconfianças e bloqueios, quer junto da linha dura da Santa Sé, quer junto dos palestinianos, a começar pela presidente da Câmara de Belém, Vera Baloum, junto da qual Henrique Cymerman teve de gastar o seu «latim» para que se convencesse a receber o Papa. Aliás, Francisco fará a sua grande missa, precisamente, em Belém, dando assim a mão aos cristãos locais e importância à cidade controlada pela Autoridade Palestiniana.
Isto, apesar da pressão israelita para que a principal cerimónia religiosa decorresse em Jerusalém…
Preocupado com a situação na Palestina e com a emigração forçada de cristãos acossados, Francisco pediu para ver os vídeos de várias reportagens assinadas por Henrique Cymerman. Pediu, também, para visionar a que o correspondente da SIC elaborou, no Vaticano, em 2013, para a estação portuguesa.
Apertado pela Cúria Romana e pelos setores conservadores que continuam a ver os judeus como o «inimigo» principal da Igreja de Roma, Francisco cedeu na duração da viagem apenas três dias, o que já inclui seis horas em Amã, na Jordânia e apenas 28 horas na cidade santa de Jerusalém. Mas o «padre Jorge» já piscou o olho aos amigos, com ar de miúdo prestes a fazer uma traquinice: «Vinte e oito horas em Jerusalém dá para fazer muito barulho», disse ele aos mais íntimos.
Minas & armadilhas
Ainda em 2013, Henrique Cymerman voltou ao Vaticano, acompanhando a visita do primeiro-ministro israelita, Benjamim Netanyahu. No avião, o estadista seguia sob grande tensão, tendo interrogado, toda a viagem, o jornalista português: como era o Papa, quais as suas reais intenções… O embaixador (não residente) da Autoridade Palestiniana para o Vaticano, Issa Kaffiffieh, um cristão, que é conselheiro de Abbas e mora em Ramalah, esteve sempre em contacto com Cymerman e foi, também, decisivo para desbloquear as resistências de alguns setores radicais palestinianos, à visita do Papa. Francisco desloca-se a Israel num momento em que há uma crise profunda no diálogo entre as duas partes, que se encontra num impasse.
Em Roma, as coisas não têm sido mais fáceis. Alicia Barrios, a «rainha» do Papa, anunciou, na Argentina, há meses, que Francisco iria a Israel em maio deste ano, o que motivou um desmentido formal dos serviços da Santa Sé que, assim, se sobrepunham ao Papa. E decorreu outro mês até que os mesmos serviços reconhecessem a vontade e a intenção de Francisco de deslocar-se à Terra Santa. Há poucas semanas, um dos mais influentes jornais de Israel preparava um editorial hostil com o título Papa diz não ao Museu do Holocausto e ao Muro das Lamentações.
Um rumor posto a correr, desconfia-se, por setores críticos do Vaticano, que, assim, procuravam comprometer Francisco. É que o protocolo exige que todos os chefes de Estado que visitam Jerusalém se desloquem a um e a outro local e o Papa é o Chefe de Estado do Vaticano. Sabendo o que o jornal Yediot Ahronot se preparava para escrever, Henrique Cymerman telefonou ao seu amigo Skorka que, do outro lado da linha, pegava num segundo telemóvel e ligava diretamente para o Papa. Francisco caiu das nuvens: «O quê? Estás maluco?!» O desmentido, por antecipação, chegou a tempo de evitar a publicação da notícia e do respetivo editorial.
Por essas e outras é que o Papa deixou de confiar a terceiros o envio de emails e aprendeu a mexer em computadores…
E esta não foi a única armadilha que o jornalista português desativou: quando se colocou o problema da curta viagem entre Israel e o território controlado pela Autoridade Palestiniana, com dificuldades de toda a ordem para atravessar a fronteira, Cymerman fez os seus contactos e desbloqueou a situação. Em Roma, o «padre Jorge» comentava, mais uma vez: «O Henrique resolve»…
O judeu ‘infiltrado’
O ecumenismo religioso praticado no Vaticano já deu origem a episódios curiosos, momentos históricos e falatórios subterrâneos.
Em setembro do ano passado, mais uma vez, o rabino argentino Abraham Skorka visitou o Papa. Quando está em Roma, ele faz parte das sete ou oito pessoas que almoçam ou jantam com o «padre Jorge», em refeições que não ultrapassam a meia hora Francisco ufana-se de ser um homem ocupado e não tem muito tempo para almoçaradas… Por essa altura, decorria a festa religiosa judaica do Fukot, que inclui a bênção do vinho (o Kidush) e do pão (o Hamotsi).
Quando chegou a altura, o rabino levantou-se (de uma mesa onde só havia cardeais) e retirou-se para um canto, onde iniciou as suas orações. Mas o facto não escapou ao «padre Jorge», que o chamou: «Vem cá! Faz aqui as tuas bênçãos, que nós queremos participar…» E foi assim que, pela primeira vez na História, um ritual judaico foi realizado, em hebraico, no coração do Vaticano. E no final, um Papa disse «Ámen». É verdade que nem todos os comensais gostaram e que o episódio contribuiu para acumular mais um ponto na lista de «descréditos» de Francisco junto da Cúria. Se tudo fosse um vídeo jogo, o Papa havia perdido uma vida…
Mas Henrique Cymerman é testemunha direta do novo ar que se respira em Roma: «Contei ao Papa que, quando andava nos maristas, fui impedido, uma vez, por um padre, de jogar futebol com os meus colegas, todos católicos, porque eu era judeu. O Papa ficou de lágrimas nos olhos. E disse-me: ‘É para evitar que histórias como essa se repitam que eu aqui estou. O antissemitismo é um pecado’.»
