Passamos uma vida a treinar a melhor maneira de terminar uma frase com um ponto de interrogação e, mesmo assim, falhamos as perguntas todas. “Há quantos anos abriram esta loja?” “Montaram este negócio há muito tempo? ” Embora simples, uma após outra, as perguntas naquele dia batiam sempre ao lado, recebidas com olhares de admiração ou de estranheza. Em Cheshire Street, Buxton Street, Brick Lane e todas as outras ruas na zona de Spitafields o tempo raramente é contado em anos. “Estamos aqui há seis meses”, respondem uns. “Acabamos de abrir”, dizem outros. De facto, antes de fazer perguntas é melhor olhar primeiro para o mapa: isto é o East End, a zona onde tudo de novo acontece em Londres. Estamos no lado que não se vê nos habituais bilhetes-postais da capital britânica. Ou antes, o lado que apenas se adivinha por detrás de algumas das imagens icónicas da grande cidade global da Europa, a única onde se contabilizam “200 línguas e 300 comunidades” diferentes. Estamos nas traseiras dos arranha-céus de Canary Wharf, uns quilómetros (milhas, por aqui.) à direita da silhueta inconfundível da catedral de St. Paul, na margem norte do Tamisa.
Estamos para lá daquilo que muitos julgam ser o limite de Londres, onde tantos pensam que nada se passa nem nada acontece de interessante. Estamos numa zona quase ignorada, durante anos, pelos guias turísticos mais massificados e percebe-se porquê: aqui não existem museus famosos nem palácios relevantes, apenas uma imensidade de antigos bairros industriais, com edifícios de paredes de tijolo e habitados por uma população que demonstra, com toda a visibilidade, a imensa multiculturalidade de Londres.
A zona que foi, há dois séculos, um dos berços da revolução industrial, com a instalação de inúmeras fábricas de têxteis e que viu nascer os primeiros sindicatos operários, é hoje um dos centros mais ativos e criativos de Inglaterra. Nos espaços vagos de antigos complexos industriais, que inspiraram e deram fama a Charles Dickens mas também aos crimes de Jack, o Estripador., muitos artistas plásticos encontraram as condições ideais para montarem os seus ateliês, lado a lado com as residências de famílias recém-chegadas da Índia, Paquistão, Bangladesh e Vietname, conforme as sucessivas vagas de imigração. Depois, surgiram as galerias de arte, impulsionadas com a abertura, em 2000, da White Cube, na Hoxton Square, a primeira a expor e a aproveitar as obras de muitos artistas locais, entre os quais se encontravam nomes agora consagrados como os de Damien Hirst e Tracey Emin. Logo a seguir, foram abrindo as muitas lojas de “segundamão ” roupa e tudo o mais que se possa imaginar. E, aos poucos, a palavra vintage foi-se colando ao East End, quase como uma espécie de sinónimo, mas também como adjetivo, neste caso superlativo.
O enorme edifício industrial de tijolo vermelho que ocupa um quarteirão da Cheshire Street, quase colado à linha férrea, é o local ideal para uma espécie de prólogo a uma viagem de descoberta ao renovado East End. De fora, são uns armazéns iguais a tantos outros, como se costuma ver perto das estações de comboios, com as paredes graffitadas. Mas aquilo que parece um edifício abandonado esconde, na realidade, um autêntico local de peregrinação: Beyond Retro, uma das maiores lojas vintage a que se pode aceder em Londres (no mundo?), e cuja fachada até serviu de cenário a um videoclip de Amy Winehouse a cantora que foi, para o bem e para o mal, uma espécie de símbolo de todos os excessos do East End.
Lá dentro é preciso, acima de tudo, reunir uma condição essencial: ter tempo, muito tempo. e, de preferência, algum dinheiro. O armazém parece uma caverna de Ali-Baba vintage: sapatos e mais sapatos, vestidos, chapéus, casacos, óculos. Tudo já usado, mas com etiquetas conhecidas à mistura. E os clientes, quais formiguinhas, vão-se perdendo por entre filas de cabides, prateleiras e cabines de prova.
À primeira impressão, parece tudo amontoado, uma espécie de gigantesco quarto desarrumado de uma adolescente. Mas, aos poucos, vai-se percebendo que existe uma lógica, uma ordenação por cores, por estilos, por peças. E grande parte da graça de quem lá compra reside na sensação de descobrir algo. que parecia invisível aos olhos dos outros.
Cá fora, na rua, caminhando em direção a Brick Lane, esta Cheshire Street começa a revelar-nos o ambiente que iremos encontrar nos próximos quarteirões e que dão fama, hoje, ao East End: bares, lojas vintage, galerias de arte, design, antiguidades, mais lojas vintage. É um mundo de descobertas, em menos de 100 metros. Mas apetece entrar em todas as portas abertas, desde a loja de ukeleles (os cavaquinhos do Haway) até à livraria-galeria-café com o sugestivo nome de Beach, passando por galerias de arte, ateliês de estilistas e clubes noturnos, a esta hora, ainda em limpezas após mais uma noite animada.
Em Brick Lane o cenário mantém-se. Mas reforça-se a multiculturalidade dos transeuntes, tão diversa quanto a dos poucos turistas que por ali circulam numa rua calcetada que, aos poucos, está a ser substituída por um piso alcatroado mais uniforme e adequado, dizem, aos passos dos visitantes que vão ali chegar, em julho, por causa dos Jogos Olímpicos. Fala-se inglês, mas apenas porque essa é a língua franca e universal. À nossa frente o que desfilam são orientais e europeus de leste, muçulmanos e budistas, africanos e sul-americanos, gente de todas as cores, credos e costumes. até chegarmos, naturalmente, à zona dos imigrantes bengalis, oriundos do Bangladesh, conforme é ilustrado, profusamente, nos letreiros das lojas e restaurantes. Entramos, então, naquilo a que chamam a “capital do caril”, onde parece existir uma curiosa regra democrática de ir a jogo: quase todos os restaurantes ostentam um letreiro de masterchef, publicitando-se como autores do melhor curry do mundo. A única coisa que os distingue é o ano em que foram distinguidos. já que nenhum repete o prémio. Resultado: todos são (ou já foram.) o masterchef!
O centro de Brick Lane é a Old Truman Brewery, uma antiga fábrica de cerveja (era a maior de Londres) que se transformou num centro de criatividade e encontro de jovens artistas, com lojas, bares, restaurantes, ateliês e as sedes de mais de 200 micro-empresas emergentes. Os seus mercados são um verdadeiro magneto para atrair multidões. O principal e mais famoso é o Sunday Upmarket, que atrai, todos os domingos, milhares de visitantes, bem como muitos comerciantes em busca de novos designers e artistas. Mas, aos poucos, outros mercados foram ganhando importância, como o Vintage Market (sextas, sábados e domingos) e o Backyard Market, ambos mais vocacionados para jovens, com menos peças originais, e onde o vintage se mistura com o kitsch, num ambiente animado e despretensioso.
Mas todos os dias, a qualquer hora, as paredes de tijolo da Old Truman Brewery são um cenário especial. E com um movimento muito próprio, em que se misturam pessoas de todos os tipos, tribos e paladares, já que tudo isto ocorre em espaços e ruas onde a variedade da oferta gastronómica dava para construir uma espécie de atlas do antigo império britânico.
O caráter especial de Brick Lane manifesta-se também na própria natureza dos negócios que ali assentam raízes. Quando, em todo o mundo, as vendas de música gravada caem a pique, a Rough Trade abriu, numa das alas da antiga fábrica, a sua maior loja de Inglaterra um enorme armazém repleto de CD e LP (sim, muitos discos de vinil!) anarquicamente arrumados, junto de um auditório onde cada vez mais músicos (consagrados ou em busca de fama) apresentam os seus trabalhos. Segundo dizem, as vendas têm andado sistematicamente acima das expectativas.
A poucos quarteirões de distância, ergue-se outro edifício emblemático do East End e cuja história se confunde com a de Brick Lane e a forma como esta área foi evoluindo ao longo dos séculos. Construído em 1743 para servir de capela protestante, pelos huguenotes fugidos da perseguição dos católicos em França, o edifício foi depois adaptado para Igreja metodista, durante a época vitoriana. No final do século XIX, mudou outra vez de religião e tornou-se na Grande Sinagoga de Spitafields, respondendo aos apelos dos muitos imigrantes judeus oriundos da Rússia e da Europa Central. Atualmente, e desde 1976, o número 59 de Brick Lane é a Grande Mesquita de Londres, local de culto obrigatório especialmente às sextas–feiras, para os muitos imigrantes do Bangladesh.
Este caldo multicultural estende-se também ao Spitalfields Market, uma enorme estrutura vitoriana a que o arquiteto Norman Foster acrescentou uma polémica cobertura de aço e vidro, a meio caminho entre as estações de metro de Liverpool St. e Shoreditch. Aqui, as bancas de antiguidades e as lojas de art deco misturam-se com os expositores de roupa vintage e os balcões de comida regional, por entre bares e esplanadas, restaurantes e salas de conferências. E as longas mesas de refeições são partilhadas entre executivos de fatos escuros e jovens de ar “alternativo”, muçulmanas de cabeça coberta e senhoras que podiam andar às compras na seleta Bond Street duas áreas de Londres a apenas uns cinco quilómetros de distância uma da outra, mas com um mundo a separá-las.
“O East End tem uma dinâmica especial”, diz-me, a sorrir, um dos homens que, nos últimos tempos, mais tem contribuído para pôr esta zona em destaque no mapa global da capital britânica. Como grande parte das pessoas responsáveis pela nova energia destes bairros, ele reside aqui por opção e escolha coerente. “Não viveria em mais nenhuma parte de Londres. Aqui encontro a mesma energia e liberdade que captei em certos locais dos Estados Unidos, onde vivi e que me marcaram, como São Francisco, algumas zonas de Brooklyn, o Lower East Side de Nova Iorque, e até a Miami Beach de outros tempos.”
Viajado, livre e com um exuberante espírito criativo, o português Nuno Mendes é hoje, aos 39 anos, uma espécie de embaixador do East London, já que é por causa da sua cozinha que, todos os dias, muitos forasteiros se dirigem a Bethnal Green, em busca do único restaurante na zona a exibir uma estrela Michelin.
Nuno Mendes e o seu Viajante (assim mesmo, em português!) estão na boca de todo o mundo, quando se trata de referir oslocais onde se deve comer hoje em Londres. Os elogios surgem impressos tanto no londrino The Guardian como no além-Atlântico The New York Times, que lhe gabam a criatividade e o arrojo, numa cozinha baseada em produtos naturais onde estão sempre presentes ingredientes portugueses. Todos os dias, as mesas do restaurante enchem-se de clientes, disponíveis para pagar mais de 100 libras por um menu-cego, cujos pratos são confecionados por Nuno Mendes e os seus muito ajudantes numa cozinha aberta para a sala.
“Um restaurante com este conceito só faz sentido em East London”, sublinha Nuno Mendes. “Encontramos aqui uma mistura de culturas, de classes e de tradições como em mais nenhuma parte de Londres. Claro que eu podia ter um restaurante no Soho ou até em Mayfair, mas não seria a mesma coisa. Aqui é que esta liberdade criativa faz sentido. E é isso que as pessoas vêm à procura, cada vez mais, na zona leste de Londres.”
As palavras de Nuno Mendes ganham maior dimensão no cenário onde são proferidas: o novo Town Hall Hotel, onde está instalado o Viajante e onde o chef português comanda mais de 120 pessoas nas várias cozinhas do hotel, um antigo edifício municipal transformado para receber hóspedes em apartamentos de 5 estrelas. A recuperação deste prédio que ocupa um quarteirão da Patriot Square, onde as pessoas costumavam ir registar os filhos ou pedir certidões de casamento, revela também muito sobre o que faz mover hoje o East End: o estabelecimento é uma ideia arrojada de Peng Loh, um hoteleiro de Singapura, que entregou o projeto de arquitetura a um ateliê de Paris (Rare, de Nathalie Rozencwajg e Michel da Costa Gonçalves) que nunca tinha desenhado antes um hotel, e chamou para diretor de cozinha um português, que gosta de cozinha experimental e de misturar ideias asiáticas com produtos portugueses. Ah, e tudo isto pensado e executado em plena crise económica mundial, contra a corrente do que poderia ser considerado normal e sensato. Palavras aparentemente desconhecidas por estas bandas.
O normal e sensato, por aqui, é pegar, por exemplo, numa série de contentores, empilhá-los todos uns em cima dos outros, pintá-los de preto por fora e transformá-los em lojas e restaurantes por dentro. Foi exatamente isso que fizeram na Shoreditch High Street, a cerca de 15 minutos a pé do Town Hall Hotel. Chamam-lhe Boxpark, abriu em dezembro passado e é, de momento, um dos “talk of the town”.
Mas a localização também ajuda, claro, já que aquele a que chamam o primeiro “pop-up shopping ” fica mesmo a dois passos da Redchurch Street, a rua onde tudo parece estar a mudar mais rapidamente, especialmente depois de Terence Conran (o designer da Habitat e que tem, atualmente, uma exposição retrospetiva no Design Museum) ter decidido ali instalar o seu Boundary, um projeto também só possível nesta área de Londres: uma espécie de hotel, com 12 quartos de decoração diferentes, cinco suites, três restaurantes, uma loja de produtos alimentares orgânicos e uma padaria.
Numa chuvosa noite de quarta-feira de inverno todos os restaurantes do Boundary estão cheios. Como tantos outros nas redondezas: o Drunken Monkey, um chinês onde se serve dim-sun ao som de um dj está reservado para uma festa de executivos da City; o The Light, instalado num antigo armazém quase ao lado, já não aceita mais encomendas para a cozinha; e o Les Trois Garçons (1, Clube Row), mais seleto e caro, está como costuma estar, desde que se soube que, há pouco tempo, Madonna celebrou lá o seu aniversário: “Desculpem, só com reserva.”
Seguimos, então, pela Redchurch Street, tentando perceber de onde vem o barulho das gargalhadas e dos copos a bater. O letreiro na fachada do número 34 indica The Owl & Pussycat e, à entrada, temos duas hipóteses: ficar no barulhento, animado e superlotado pub do rés-do-chão ou subir umas escadas iluminadas a vermelho e tentar jantar no andar de cima. Temos sorte! Apesar do relógio bater quase as 10 horas da noite, a cozinha ainda está aberta (o que nem sempre é habitual em Londres.) e encaminham-nos para uma mesa de madeira, numa sala que parece saída de uma ilustração das antigas revistas de atualidades da época vitoriana. O serviço é assegurado por duas empregadas que se devem vestir todos os dias na Beyond Retro. A comida passa no exame. E, à saída, avisam-nos: “O bar lá em baixo está sempre cheio, se calhar porque a cerveja continua a ser barata, mas poucas pessoas sobem cá acima. Continuamos a ser um dos segredos melhor guardados de Shoreditch.”
Mas não deve ser por muito tempo. Dizem que “olheiros” da Prada, Ralph Lauren, Christian Loubountin e Paul Smith têm andado pela rua a inspecionar todas as fachadas de tijolo, em busca de espaços para abrir novas lojas. Há quem garanta que o hoteleiro norte-americano Ian Schrager já tem lá um edifício em vista, e que o famoso restaurante japonês Nobu pode abrir ali mais uma das suas “sucursais”. E há também quem diga que a Redchurch Street é hoje o equivalente à agora “domesticada” Carnaby Street há 50 anos.
O que a distingue, atualmente, é a grande quantidade de lojas independentes e os estabelecimentos únicos, em prédios onde se vislumbram escritórios de agências de publicidade e de empresas de novas tecnologias. A mistura perfeita complementa-se na rua, onde se pode entrar na Labour and Wait, uma loja só com artigos para a casa (em que a portuguesa pasta medicinal Couto é um dos artigos em destaque). E enquanto não chegam os Starbucks, o café é fornecido pela Alpress Espresso (58, Redchurch St), oriunda da Nova Zelândia, que torra também os grãos que são servidos em quase todos os bons restaurantes de Shoreditch, como o Viajante e o Bisttrotheque.
A mudança mais radical na paisagem do East End foi efetuada nos últimos anos um pouco mais a leste, a duas estações de metro de distância de Bethnal Green. É nas carruagens da Central Line que chegamos a Stratford, uma área que, segundo o mayor de Londres, Boris Johnson, acaba de “conhecer a maior transformação desde a Idade Média.” Apesar do ar arrogante e desleixado da personagem não há, neste caso, qualquer exagero na afirmação. Durante anos, esta foi uma área industrial que ostentava o título das mais degradadas de Londres. Não podem existir dúvidas a esse respeito: a cidade modernizou-se para Oeste (na direção do aeroporto de Heathrow.) e o seu East End foi ficando esquecido.
Sebastian Coe, o mítico duplo campeão olímpico dos 1500 metros (em Moscovo 1980 e Los Angeles 1984) e presidente do comité organizador dos Jogos de Londres, ainda hoje diz corar de embaraço quando, há oito anos, mostrou ao mundo o local onde queriam organizar o acontecimento mais mediático do planeta: uma zona degradada, repleta de lixos industriais e, aparentemente, quase desconhecida dos londrinos.
Agora, graças à renovação da rede do metro, Stratford está a cerca de 15 a 20 minutos do centro de Londres e ostenta, logo à saída das carruagens, o Westfield City, “apenas” o centro comercial a ocupar a maior área da Europa, com mais de 300 lojas, 17 cinemas, 70 restaurantes, dois hotéis e uma infinidade de infraestruturas.
Mais do que os números, neste caso é a própria experiência de o visitar (e de se perder lá dentro) que surpreende e dá a verdadeira ideia da sua dimensão. O Westfield está completamente colado a uma das portas de entrada do Parque Olímpico, a poucos metros da piscina desenhada por Zaha Hadid, da enorme escultura vermelha de Anish Kapoor e Cecil Balmond, e a uma centena de metros do estádio olímpico.
Os organizadores esperam que, de 27 de julho a 12 de agosto, cerca de 70% dos espectadores das competições que decorrem no parque olímpico vão, de alguma forma, passar pelo centro comercial. Nalguns dias, calculam, serão quase 400 mil visitantes a entrar nas lojas e restaurantes do Westfield Stratford. Nesses dias, perante as atenções de todo o mundo, o East End deixará de ser o lado esquecido da cidade e transformar-se, efetivamente, no centro de Londres. E nem valerá a pena fazer mais perguntas: a mudança continuará depois. Sem pontos de interrogação.