Aquilo que pretendíamos que fossem umas férias bem passadas e longas no Adriático, tornaram-se etapas a correr, quase sem descansar, já que o sistema de couchsurfing na Croácia não funciona e todo o país está transformado num autêntico bazar, onde tudo se vende, tudo se oferece e nada se consegue a baixo custo. O que custa, como já referimos atrás, é que um país com tanta beleza natural, e que só esteja a pensar num turismo maioritariamente para a classe alta, esteja tão sujo e descuidado.
De Zadar, fomos descendo a costa, parando aqui e ali onde uma ou outra cidade ou monumento nos obrigavam a uma escapadela. Passamos por cidades tão conhecidas e turísticas como Sibenik, Split, Primosten, Makarska ou Dubrovnik mas também por outras pequenas povoações não tão bonitas, mas não menos turísticas.
Em Sibenik, visitamos a Catedral que é Património Mundial da Humanidade e fugimos para uma povoação uns quilómetros ao lado, perto de Trogir – também reconhecida pela Unesco. No dia seguinte, com as bicicletas na mão, visitámos o seu centro histórico mas sem nunca perder muito tempo em algum lado, pois o tamanho das nossas companheiras e a quantidade de coisas com que viajamos, não permite que as deixemos “à solta” num qualquer lugar. As visitas têm quase sempre de ser repartidas. Enquanto um visita, o outro tem sempre que ficar a guardar a “casa”! Assim aconteceu também em Split, cidade onde não ficámos mais do que 30 minutos, mas que exige muito mais. No entanto não tínhamos sítio onde ficar, a cidade estava com milhares de turistas, estava imenso calor e confessamos, não estávamos virados para a visitar. Depois de algumas voltas pelo centro, trincamos uma sande muito má à saída da cidade e virámos costas com a cabeça no sul. Quilómetros à frente e já sem forças, o nosso desejo era encontrar um espaço só para nós, onde pudéssemos estar sem ninguém nos chatear e, se possível, gratuito! Depois de subida mais uma montanha – são tantas… – vemos do lado direito um pequeno estacionamento e, depois de estudado o terreno, reparamos que fora da visão da estrada, se escondia uma casa por terminar – são tantas… – com praia privativa e sem que, depois de acomodados, alguém nos pudesse ver, excepto um ou outro pescador que passasse com o seu pequeno barquito lá em baixo e que, com toda a certeza, nunca se chatearia! Depois de algumas manobras mais ou menos complicadas com vista a levar as bicicletas uns metros para baixo, instalamos a nossa cozinha e preparamos o nosso lanche pós-viagem! Entre uma e outra refeição, tiramos algumas fotos, uma sesta e estarrecemos a olhar o sol a pôr-se! Pela primeira vez fazíamos tudo isto em pleno descanso e conscientes de que, aquele sítio era o perfeito! Assim foi! Uma noite espectacular, protegidos do vento, dormindo por cima dumas placas de esferovite e olhando as estrelas! Ao acordar e tomado o pequeno-almoço, tivemos ainda tempo para um mergulho na “nossa” praia privativa e abandonamos a casa, até um dia! Hoje questionamo-nos porque não ficámos ali…muito mais tempo.
Dali, as cidades sem qualquer interesse histórico repetem-se, as casas encavalitadas umas nas outras, a maior parte de um gosto duvidoso e por acabar, repetem-se, as placas de alugueres repetem-se e a paisagem repete-se também, mas na sua beleza extrema! A costa da Croácia é, sem dúvida alguma, lindíssima! O nosso dia maior fez-nos pedalar 96km até uma pequena população onde já desesperados, sem luzes nas bicicletas e com a noite caída, nos vimos obrigados a pedir para montar a tenda na segunda casa com jardim que encontramos. Entre Ploce e a fronteira com a Bósnia e Herzegovina, encontra-se uma zona de rios e centenas de canais, completamente diferente daquilo que até então tínhamos visto no país. Se por um lado se torna num espectáculo a visão de centenas de campos rectangulares cultivados entre canais, onde as pessoas se movimentam com pequenos barcos, por outro este cenário não nos permite tão facilmente arranjar um espaço para dormir. Damos graças por termos parado naquela rua que, de tão pequena e de tão escuro que estava, não sabemos como a vimos. Uma família com um grande jardim, repartido com o vizinho, acolheu-nos na sua relva, com direito a uns bolinhos de coco e chocolate e a duas dezenas de figos! Assim sabe bem acabar um dia tão cansativo! A Tanya prometeu a si própria que, no dia seguinte, não passaria os 50km!
Assim foi, 50km certos até uma pequena praia, 4km de Ston, encaixada numa montanha com uma descida de 10%, até ela! Nesse dia, sabíamos, sabia bem descê-la, mas no dia seguinte, teríamos de a fazer toda para cima! Parámos de pedalar às 13h e depois de um mergulho, deitamo-nos ao lado da tenda para não mais nos mexermos até ao jantar. Sabíamos que, mais cedo ou mais tarde, iríamos ter de parar algures, pois atravessar o país desta maneira era completamente descabido e sem qualquer sentido. Desde que tínhamos entrado na Croácia, somente em Zagreb e Razanac havíamos parado 2 dias. Depois, tinha sido sempre a andar e se fazer 70 ou 80km por dia em Espanha ou na Holanda não cansa muito, encontrar esta costa montanhosa e fazê-los todos os dias sem descanso, não é para nós que, antes desta viagem, mal andávamos de bicicleta. Ter nesse dia tomado a decisão de parar àquela hora foi…a decisão certa! No dia seguinte, tivemos a notícia de que os dias fáceis tinham acabado. Na próxima semana, ventos fortíssimos vindos do mar, primeiro e da montanha, depois, atacariam o país. Confessamos que saímos dali com um certo receio. Pedalar bicicletas tão pesadas, numa estrada não preparada para elas, com a montanha sempre do lado esquerdo e o mar, por vezes, ali ao lado, mas a 300 ou 400 metros de altura e com vento forte, não é o cenário ideal.
A viagem até Dubrovnik, no entanto, correu maravilhosamente bem. Algumas rajadas, mas nada que nos fizesse tremer e a visão da cidade à chegada, não nos parece nada bonita até vermos ao longe o seu centro histórico, considerada a Pérola do Adriático! A tenda foi montada num parque a uns minutos do centro e optámos por ficar 2 dias. À noite choveu torrencialmente, assim como no dia seguinte e só às 16h conseguimos sair para visitar a cidade. Os ventos fortes tinham chegado sim, na sua força extrema. Por momentos duvidamos que a tenda aguentasse, mas ficamos surpreendidos com a sua resistência! Quanto à cidade, não há muito e ao mesmo tempo há tanto para dizer! Dubrovnik é, apesar de ser a cidade mais turística da Croácia, um sítio que não se pode deixar de visitar. Isolada do resto da Croácia pela Bósnia e Herzegovina dum lado e Sérvia e Montenegro do outro, sofreu diversos ataques que danificaram o seu património entre 1991 e 1995, pelos exércitos dos dois países. Resistindo e reconstruindo tudo o que é hoje, tornou-se numa cidade postal, com uma beleza que é rara a cidade que tenha. A si chegam, todos os dias, cruzeiros vindos de todo o lado e tem a maior oferta de hotéis de 5 estrelas do país. No entanto, caminhar entre as suas ruas labirínticas, subir as escadas que rodeiam a cidade, observar o Adriático de um qualquer ponto e sentarmo-nos a observar o seu ritmo, é um prazer difícil de explicar! Ao sair, um longo sorriso na cara acompanha-nos até adormecermos!
O dia seguinte, levar-nos-ia a Montenegro!