“Intervalo para hidratação”… Há algumas novas regras no Mundial de Futebol, mas esta aparenta ser civilizada. Afinal, embora o calendário ainda diga que o verão começa a 21 de junho, parece que chegou há semanas, em sucessivas ondas de calor, que transformaram a estação numa praia com a bandeira sempre vermelha.
Mas no NRG Stadium, em Houston, Texas, onde Portugal disputou o primeiro jogo, a temperatura era muito agradável. Cá fora uma sensação térmica perto dos 40 graus, dadas as temperaturas elevadas e a humidade, mas no estádio o ar condicionado garantia uns agradáveis 22 ºC. A pausa, além de permitir um descanso adicional aos jogadores, constitui mais uma oportunidade para os espectadores (no estádio e fora dele) comprarem bebidas e snacks… uma parte não despicienda do negócio que o Mundial representa.
O conforto no estádio é impressionante se pensarmos na dimensão do edifício, com 72 mil lugares sentados e mais de 11 mil metros quadrados de espaço interior.
O ar condicionado transformou a América e o mundo. Nos Estados Unidos permitiu a migração massiva para os estados do sul, a expansão dos subúrbios, modificou a arquitetura dos edifícios e até criou o fenómeno dos blockbusters de verão, as grandes produções cinematográficas que atraíam (… atraem) legiões de pessoas aos cinemas (os primeiros espaços públicos a adotarem a tecnologia).
Acreditamos no engenho do ser humano para inventar novas tecnologias que tornam o mundo que nos rodeia mais habitável, mas esta expectativa parece tornar-se uma fé cega quando está em causa a Inteligência Artificial e, em especial, os projetos megalómanos de Elon Musk.
A 12 de junho, a SpaceX tornou-se uma empresa cotada no Nasdaq (uma bolsa em Nova Iorque especializada em empresas de tecnologia) e Musk, o homem mais rico do planeta.
Se, até agora, a SpaceX angariava recursos junto de grandes investidores, ora, perante a dimensão dos investimentos projetados, a Space X recorre ao cidadão comum. Mas se, em geral, a cotação de ações aumenta o grau de escrutínio sobre as empresas e sobre os seus administradores, tal não acontece com a SpaceX.
As ações de Musk têm associados direitos especiais, o que, na prática, lhe permite controlar todas as decisões e o torna um “chefe” vitalício… Tal, e o facto de o prospeto (o documento de suporte à oferta) claramente especificar que a SpaceX nunca apresentou lucros, que a sua missão é “(…) construir os sistemas e tecnologias necessários para tornar a vida multiplanetária” e detalhar, de forma extensa, alguns dos riscos que a SpaceX enfrenta (incluindo o desenvolvimento da Starship, projetos de IA, conformidade regulatória, dívida e a própria liderança de Elon Musk), não parece ter afastado os investidores.
E se muitos acreditam no engenho de Musk e da sua equipa, outros compreenderam muito bem a oportunidade de um lucro fácil no curto prazo. Como? Devido a uma muito oportuna alteração da legislação (promovida por Musk…), que permite que a SpaceX seja incluída no Índice Nasdaq em 15 dias (e não após 12 meses). Fundos (mobiliários e de pensões) que seguem o Índice obrigatoriamente terão de investir na SpaceX (não obstante a análise de sustentabilidade de longo prazo que os seus gestores tenham feito), garantindo, no curto prazo, o aumento do preço das ações. Quem comprou logo ou já tinha ações poderá sair, em breve, realizando a mais-valia, sem esperar pelo difícil caminho de chegar às estrelas.
Numa entrevista recente, o escritor inglês Ian McEwan afirmava que a maior ameaça à nossa espécie não é a Inteligência Artificial, mas o pessimismo. Tem razão. Quando não acreditamos em nós e na comunidade em que vivemos, tendemos a priorizar o lucro fácil e não os projetos que visam um planeta mais sustentável. As nossas poupanças também condicionam os acontecimentos, e deveríamos apostar no nosso futuro conjunto e não na fortuna pessoal de Musk.
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