Quando os chefes de Estado e de governo da NATO se reunirem em Ancara, na Turquia, nos dias 7 e 8 de julho, dificilmente estaremos perante mais uma cimeira da Aliança Atlântica. Em muitos aspetos, poderá representar aquilo que o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, já apelidou de “a cimeira mais importante da história” da NATO.
A grandiosidade do epíteto poderia ser descartada como retórica washingtoniana se não fosse o contexto que lhe confere uma gravidade incontornável. O que está em causa não é uma nova declaração política, mas o início formal de uma terceira fase histórica da Aliança. E com ela, uma revisão profunda das responsabilidades, dos riscos e das ilusões que durante décadas sustentaram a segurança e a defesa coletiva europeia.
Arqueologia necessária
Durante mais de quatro décadas, a NATO 1.0 teve uma missão inequívoca: conter a União Soviética e garantir a defesa coletiva da Europa Ocidental sob a liderança incontestada dos Estados Unidos. Nascida em 1949 com o Tratado de Washington para dissuadir a expansão comunista, combinou a força convencional europeia com o guarda-chuva nuclear norte-americano. Durante esse período, a Aliança não travou nenhum confronto direto com a URSS.
A dissuasão nuclear norte-americana e a significativa presença militar convencional dos EUA em território europeu, que, no auge da Guerra Fria, ultrapassava os 300 mil militares, constituíram os dois pilares da arquitetura de segurança euro-atlântica.
Com o fim da Guerra Fria, emergiu a NATO 2.0. A ameaça existencial desapareceu e a Aliança reinventou-se através do alargamento, da gestão de crises e das operações “fora de área”, dos Balcãs ao Afeganistão, passando pela Líbia. Isto é, uma NATO expedicionária: a maioria dos aliados europeus aproveitava o “dividendo de paz” para desmantelar capacidades militares convencionais. Neste período, a defesa coletiva deixou de ser a prioridade absoluta e a estabilidade internacional passou a ocupar o centro da agenda estratégica. A grande ilusão pós-histórica.
Esse ciclo terminou.
A invasão russa da Ucrânia, em 2022, marcou o regresso da guerra convencional à Europa. Mas a transformação mais profunda resulta hoje de um segundo fenómeno: a redefinição das prioridades estratégicas dos EUA. Independentemente de quem ocupe a Casa Branca, Washington considera que o principal desafio do século XXI se encontra no Indo-Pacífico. A competição estratégica com a China tornou-se a prioridade da política externa norte-americana.
É neste contexto que emerge aquilo que poderemos designar por NATO 3.0.
A expressão “NATO 3.0”, recuperada pelo secretário da Defesa norte-americano (ou da Guerra, dirão alguns), Pete Hegseth, na reunião ministerial de junho, já tinha sido em fevereiro deste ano redefinida por Elbridge Colby, subsecretário da Defesa para Assuntos Políticos dos EUA. Na prática, designa uma Aliança em que os europeus assumem a responsabilidade principal pela defesa convencional do continente, libertando Washington para concentrar os seus recursos estratégicos no Indo-Pacífico.
Ao contrário do que alguns poderão interpretar, a NATO 3.0 não significa o afastamento dos EUA da Europa, nem o fim da Aliança Atlântica. Significa, antes, uma nova divisão estratégica de responsabilidades.
Washington tende a reduzir gradualmente a sua presença convencional permanente na Europa, esperando que os aliados europeus assumam a responsabilidade principal pela defesa convencional do continente. Esse reajustamento traduz-se na redução gradual da presença militar norte-americana e de várias capacidades de apoio ao teatro europeu.
Em contrapartida, os EUA continuarão, pelo menos no futuro previsível, a assegurar o elemento verdadeiramente insubstituível da arquitetura euro-atlântica: a dissuasão nuclear. Esta evolução, descrita no geral, na Estratégia de Defesa Nacional da segunda Administração Trump, publicada no início deste ano, é acompanhada por uma revisão da postura militar norte-americana na Europa. E por uma pressão crescente para que os aliados europeus reforcem capacidades e investimento em defesa.
O paradoxo do guarda-chuva nuclear
A NATO 3.0 obriga igualmente a corrigir um equívoco persistente no debate europeu: autonomia não significa independência. Os aliados europeus terão de assumir uma responsabilidade muito maior pela defesa convencional do continente, mas continuarão, durante muitos anos, a depender da dissuasão nuclear norte-americana. O verdadeiro desafio consiste em assegurar que o inevitável reajustamento da presença militar convencional dos EUA não comprometa a credibilidade dessa garantia.
É precisamente aqui que reside o maior paradoxo da NATO 3.0. A Administração Trump pretende separar responsabilidades, confiando aos europeus a defesa convencional e reservando para Washington a garantia nuclear. Não obstante, a credibilidade da dissuasão depende da integração entre capacidades convencionais e nucleares. Durante décadas, a presença de forças norte-americanas na Europa funcionou como tripwire, tornando qualquer agressão russa automaticamente um confronto com os EUA. Uma redução significativa dessa presença poderá fragilizar esse mecanismo e aumentar o risco de Moscovo concluir que a Europa enfrenta uma escolha impossível entre a capitulação e uma escalada nuclear estratégica.
A Europa começa a adaptar-se. A iniciativa francesa de dissuasion avancée, o reforço da cooperação franco-britânica na Declaração de Northwood e a decisão da Finlândia de eliminar a proibição de acolher armas nucleares no seu território ilustram a mudança de paradigma em curso.
No entanto, estes desenvolvimentos revelam também uma crescente adaptação estratégica europeia, mas estão longe de constituir, pelo menos no futuro previsível, um substituto credível para o guarda-chuva nuclear norte-americano. Construir essa capacidade exigirá tempo, recursos e, sobretudo, uma vontade política que a Europa nem sempre demonstrou possuir.
Fraturas internas
A transição para uma NATO 3.0 não está, naturalmente, isenta de tensões políticas. A recente intervenção militar norte-americana contra o Irão evidenciou diferenças significativas entre os aliados quanto à forma de interpretar a solidariedade transatlântica e o papel da Aliança fora do espaço euro-atlântico. Enquanto alguns governos procuraram apoiar ou legitimar a atuação de Washington, outros manifestaram reservas quanto à oportunidade, à legalidade e às implicações estratégicas da operação.
Espanha constituiu o caso mais marcante. Pedro Sánchez recusou autorizar a utilização do espaço aéreo e das bases conjuntas espanholas para apoiar as operações militares norte-americanas contra o Irão, mantendo igualmente a oposição ao objetivo de investir 5% do PIB em defesa, acordado na Cimeira da Haia de 2025. Por seu turno, apesar das divergências públicas entre Donald Trump e Giorgia Meloni no rescaldo da última reunião do G7, Itália adotou uma posição intermédia. Meloni recusou apoiar operações de combate, mas continuou a autorizar voos de natureza técnica e logística ao abrigo dos acordos bilaterais com os EUA. A diferença entre Madrid e Roma não residiu tanto no grau de solidariedade para com Washington, mas antes na disponibilidade de cada país para acomodar as necessidades operacionais norte-americanas, sem se envolver diretamente no conflito.
Desafio existencial?
Contudo, seria um erro interpretar estas divergências como sinal de uma crise existencial da Aliança. A história da NATO demonstra precisamente o contrário. Da crise do Suez à Guerra do Iraque, passando pela retirada francesa da estrutura militar integrada ou pelas divisões em torno das intervenções nos Balcãs, a unanimidade política nunca foi um requisito para a coesão da organização. O que sempre garantiu a sua sobrevivência foi a existência de um interesse estratégico comum suficientemente forte para superar divergências conjunturais.
É precisamente esse interesse que hoje se reforça. Perante uma Rússia cada vez mais bélica e revisionista, uma China em ascensão e a crescente instabilidade no Médio Oriente, os aliados compreendem que os custos da divisão seriam incomparavelmente superiores aos das suas diferenças políticas.
A questão que Donald Trump levará para Cimeira da NATO não será, por isso, a de saber se existem desacordos, eles sempre existiram, mas sim até que ponto os aliados europeus estão dispostos a assumir uma parcela maior da responsabilidade pela segurança coletiva. Assim, em Ancara não estará apenas em causa o futuro da NATO. O verdadeiro teste será saber se a Europa está finalmente preparada para assumir a responsabilidade estratégica que durante décadas delegou em Washington.