.
O Dia de Portugal é uma data muito curiosa. A maioria dos países celebra o seu dia nacional comemorando revoluções, independências, vitórias militares, quedas de bastilhas, derrotas de tiranos, coroações, bandeiras içadas, tratados assinados, generais a cavalo ou presidentes com a mão no peito e lágrimas no canto do olho. Nós celebramos a morte de um poeta. Que maravilha. O que, visto bem, diz quase tudo sobre nós. Portugal não escolheu para se representar um rei vencedor, um navegador triunfante ou um revolucionário da independência. Escolheu Camões: um homem que andou pelo mundo, perdeu um olho, perdeu amores, perdeu dinheiro, perdeu quase tudo, salvou o manuscrito de Os Lusíadas de um naufrágio e morreu pobre, enquanto o País também se preparava para morrer politicamente em 1580.
É difícil imaginar metáfora mais portuguesa. Um homem afunda-se, mas segura o livro. A pátria vai ao fundo, mas a obra fica para sempre imortalizada. O império desfaz-se, mas a rima aguenta. Aguenta, aguenta, como dizia o outro. Camões é, no fundo, o nosso primeiro grande argumentista nacional: deu-nos épica, melodrama, tragédia, erotismo, aventura marítima, monstros, deuses, ninfas, discursos inflamados, velhos pessimistas à beira-mar e aquela certeza amarga de que a seguir à glória, em Portugal, chega sempre depois uma conta para pagar.
Por isso, quando hoje se celebra o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, convém não esquecer que esta data também teve a sua própria montagem ideológica. Foi Camões, foi Portugal, foi “Raça” no Estado Novo, deixou de o ser depois do 25 de Abril e passou a incluir as comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo. Também aqui a vida imitou Camões: o poeta que viveu fora, escreveu sobre partidas e regressos, e acabou transformado no mestre de uma língua que continua a ser a nossa verdadeira embaixada. Portugal cabe talvez cada vez menos no mapa e cada vez mais na língua. E, nisso, Camões continua a ganhar toda e qualquer eleição sem precisar de ir a debates televisivos nem de fazer campanha eleitoral.
O Camões de espada, peito e propaganda
O cinema português, naturalmente, não resistiu ao mito. Em 1946, José Leitão de Barros realizou Camões, a grande superprodução histórica do Estado Novo, com António Vilar no papel do poeta. Era, para a época, cinema de Estado, cinema de prestígio, cinema de peito feito, bigode moral e bandeira ao vento. Salazar declarou o filme de “interesse nacional”, o que, em linguagem menos administrativa, queria dizer: isto não é apenas um filme, é uma operação de engenharia patriótica.
A produção foi uma das mais caras e ambiciosas do cinema português até então. Tinha o selo da política cultural de António Ferro, a mão produtora de António Lopes Ribeiro e a capacidade visual de Leitão de Barros, homem habituado a pensar Portugal como cenário monumental. O resultado é uma biografia romântica e solene, baseada num texto de Afonso Lopes Vieira, que acompanha Camões da juventude boémia em Coimbra aos amores cortesãos, da guerra em Ceuta ao Oriente, do naufrágio à leitura de Os Lusíadas perante D. Sebastião, terminando na miséria final do poeta, em paralelo com a perda da independência nacional.
António Vilar, então galã máximo do cinema português, dá corpo a um Camões quase de mármore. Forte, altivo, declamatório, magnético, por vezes tão humano como uma estátua a quem deram voz e capa. Hoje, a interpretação pode parecer rígida, teatral, até pomposa. Mas era esse o objetivo: não se queria filmar um homem cheio de contradições, dívidas, desejo, mau feitio, medo e fome. Queria-se filmar um monumento vivo. Vilar não interpretava apenas Camões; carregava às costas a ideia oficial de Portugal. Um país pequeno, pobre e censurado que, no ecrã, se vestia de império para parecer eterno.
A cena do naufrágio é quase uma catequese patriótica: Camões emerge das águas segurando o manuscrito como quem salva a alma do País. O poeta não salva apenas um livro; salva Portugal de desaparecer completamente na água turva da História. A cena da leitura a D. Sebastião, interpretado por Armando Martins, acrescenta a ironia involuntária: o velho poeta oferece ao jovem rei o poema da glória no momento em que o rei se prepara, simbolicamente, para conduzir o País ao desastre. Portugal sempre teve esta tendência maravilhosa para ouvir poemas épicos como se fossem planos estratégicos e depois seguir direitinho para a tragédia.
O filme foi enviado ao primeiro Festival de Cannes, em 1946, como cartão de visita cultural do regime. Conta-se até que foi projetado sem legendas, com alguém a explicar a ação ao microfone. Nada mais português: mesmo quando queremos ser internacionais, arranjamos maneira de parecer uma sessão de cineclube improvisada, com problemas técnicos e tradução ao vivo.
Oliveira, ou Camões depois da bebedeira imperial
Décadas mais tarde, Manoel de Oliveira pegou em Camões não para o embalsamar, mas para o desarrumar. Em Non ou a Vã Glória de Mandar, de 1990, Oliveira fez o anti-Camões de Leitão de Barros. Em vez de celebrar vitórias, filmou derrotas. Em vez de glorificar o império, interrogou a sua vertigem. O episódio da Ilha dos Amores, retirado de Os Lusíadas, surge não como apoteose nacionalista, mas como sonho melancólico, suspenso, quase fúnebre. Os versos cantados por Teresa Salgueiro transformam a epopeia numa elegia. A glória portuguesa, em Oliveira, já não marcha: suspira.
Depois, em O Velho do Restelo, de 2014, uma das suas últimas obras, Oliveira coloca Camões num banco de jardim contemporâneo, ao lado de Dom Quixote, Camilo Castelo Branco e Vasco da Gama. O Camões de Luís Miguel Cintra é o oposto absoluto do de António Vilar. Já não há galã, espada, peito aberto, naufrágio glorioso ou pose de estátua. Há um homem velho, cansado, lúcido, quase espectral. Um Camões que já viu o filme todo e sabe que a segunda parte vai correr mal.
Cintra não declama Camões como quem fala à Pátria. Diz Camões como quem pensa em voz alta depois de uma longa derrota. É talvez a versão mais profunda do poeta no nosso cinema: não o herói imperial, mas o homem do desengano. O poeta que percebeu que o Velho do Restelo talvez tivesse razão. Que a ambição traz glória, mas também ruína. Que os mares dão especiarias, mas devolvem cadáveres. Que o destino português é muitas vezes este vício de transformar desastre em destino e destino em literatura.
Camões sem pedestal
O cinema português mais recente já não faz vénias ao busto nem se ajoelha diante do túmulo que está na igreja do Mosteiro dos Jerónimos. Camões deixou de ser apenas figura histórica e passou a ser matéria poética, fantasma, citação, eco, ironia. Erros Meus, Má Fortuna, Amor Ardente, de Tiago Durão, não é uma biografia do poeta, mas parte do seu universo lírico para construir um melodrama rural, trágico e intemporal, atravessado por desejo, ciúme, repressão e morte. O famoso verso deixa de ser legenda escolar e torna-se clima emocional. Camões sai da estátua e entra numa aldeia de Portugal.
Também em obras mais experimentais como Pathos Ethos Logos, de Joaquim Pinto e Nuno Leonel — um filme singular com mais de dez horas, dividido em três épocas distintas, 2017, 2028 e 2037 —, a herança camoniana surge como matéria de pensamento, sobrevivência, espiritualidade e fim do mundo. Situado sobretudo, num ambiente futurista e distópico, especialmente nos segmentos que avançam até 2037, o filme afasta-se deliberadamente dos clichés da ficção científica tradicional de Hollywood para criar uma atmosfera poética, melancólica e profundamente espiritual. Aqui, Camões já não é apenas Portugal a olhar para trás; é a língua a tentar continuar a respirar num futuro incerto. E talvez seja aí que ele se torna mais moderno. Não quando é usado para exaltar a pátria, mas quando ajuda a interrogar o que resta dela.
Na verdade, o cinema português é bastante camoniano mesmo quando não fala de Camões. Manoel de Oliveira filmou o amor impossível como se estivesse sempre a adaptar um soneto. Amor de Perdição, de 1979 — a adaptação do romance de Camilo Castelo Branco —, e Francisca, de 1981 — baseado em “Fanny Owen” de de Agustina Bessa-Luís — ambos pertencentes à chamada “Tetralogia dos Amores Frustrados” — ou outros são O Passado e o Presente (1972), baseado na peça de Vicente Sanches e Benilde ou A Virgem Mãe (1975), a partir da peça de José Régio — são puro desengano camoniano: gente que ama demais, fala demais, sofre com método e morre quase sempre tarde demais para aprender alguma coisa.
João Canijo filmou a má fortuna em versão familiar e contemporânea, com mães, filhas, hotéis, cozinhas, quartos fechados e afetos que estrangulam, como em Sangue do Meu Sangue, de 2011, ou no díptico Mal Viver/Viver Mal, de 2023. Miguel Gomes, nas suas Mil e Uma Noites (2015), transforma a crise da austeridade numa epopeia picaresca de um povo cansado, humilhado, absurdo e, ainda assim, capaz de contar histórias. Até quando não há império, há narração. Até quando não há dinheiro, há voz-off.
Camões marcou, de facto, a identidade nacional porque nos deu uma gramática da contradição. Somos o povo da aventura e da saudade, da partida e do regresso, da glória e da queixa, da coragem e da lamúria, do “demos novos mundos ao mundo” e do “isto está tudo perdido”. Em Os Lusíadas, Portugal é o herói coletivo. Nos sonetos, Portugal é alma ferida. O cinema português herdou os dois lados: a vontade de cantar e a certeza de que cantar talvez não chegue para salvar ninguém.
Por isso, neste Dia de Portugal, talvez o melhor tributo a Camões não seja pôr uma coroa de flores no busto, nem repetir meia dúzia de versos com voz de cerimónia oficial. Talvez seja por exemplo olhar para o cinema português e perceber que continuamos presos — felizmente presos — à sua grande descoberta: a de que a grandeza não está apenas em vencer, mas em dar forma à derrota. Camões ensinou-nos que se pode naufragar com estilo. O cinema português, quando é bom, tem feito exatamente isso: filma um país pequeno, amores falhados, famílias em ruína, fantasmas históricos, comunidades perdidas, corpos cansados e personagens que resistem sem saber muito bem porquê.
No fundo, Camões é menos o autor morto que celebramos a 10 de Junho do que o nosso contemporâneo mais antigo. Continua a aparecer nos filmes, nos discursos, nas crises, nos regressos dos emigrantes, nos aeroportos, nas salas vazias, nos planos longos, nas mães que esperam, nos homens que falham, nas mulheres que sobrevivem, nos velhos que avisam e nos jovens que ainda acham que Alcácer-Quibir pode ser uma boa ideia, desde que haja cobertura televisiva e também infelizmente naqueles que acreditam que virá por aí um D. Sebastião qualquer para pôr isto em ordem.
Em suma, e ainda bem, o cinema português filma aquilo que Camões escreveu: a beleza que reside no ato de resistir e criar, mesmo quando tudo à nossa volta está condenado ao fracasso.