Há ideias que persistem no debate educativo quase como verdades absolutas. Uma delas é a de que um bom professor nasce preparado para ensinar: basta dominar a matéria, ter vocação, saber comunicar e ganhar experiência com o tempo. O resto aprende-se pelo caminho.
O mais recente relatório da OCDE, Results from the TeacherKnowledge Survey: What Teachers Know About General Pedagogy, vem contrariar essa visão. Pela primeira vez, a organização avaliou diretamente o conhecimento pedagógico decerca de 20 mil professores em mais de 2 mil escolas em oito países, nomeadamente Portugal, Chile, Croácia, Marrocos, Polónia, Arábia Saudita, África do Sul e Estados Unidos. Este estudo não procurou medir apenas domínio científico ou conhecimento das disciplinas. Procurou avaliar algo mais profundo: a capacidade profissional de ensinar.
E a conclusão principal é clara. Ensinar bem não depende só de talento, vocação ou experiência. Depende também de conhecimento especializado sobre como os alunos aprendem, como se organizam estratégias de ensino eficazes, como se gere uma sala de aula ou como se adaptam metodologias a diferentes dificuldades. É isso que a OCDE designa por General Pedagogical Knowledge (GPK). A diferença está no que separa uma aula que apenas transmite informação de uma aula que realmente promove aprendizagem.
Durante muito tempo prevaleceu a ideia de que quem domina profundamente uma área consegue automaticamente ensiná-la bem. Mas a realidade é mais complexa. Naturalmente, valorizar o conhecimento pedagógico não significa desvalorizar o domínio científico das disciplinas. Um professor pedagogicamente competente, mas cientificamente fragilizado, poderá igualmente comprometer a qualidade da aprendizagem. A exigência do ensino implica, por isso, uma articulação sólida entre conhecimento científico e capacidade pedagógica.
O relatório mostra-nos, desta forma, que os professores com maior preparação tendem a criar ambientes de aprendizagem mais eficazes, passam mais tempo em ensino efetivo e menos tempo a lidar com conflitos ou indisciplina, adaptam melhor as explicações às dificuldades dos alunos e apresentam menores níveis de desgaste profissional.
Neste sentido, Portugal surge aqui em destaque. Entre os países participantes, obteve a melhor classificação média no conhecimento pedagógico dos professores, com 274 pontos numa escala internacional centrada nos 250 pontos. Mais relevante ainda: apresentou simultaneamente uma das menores percentagens de docentes nos níveis mais baixos de preparação pedagógica e uma das maiores concentrações de docentes nos níveis avançados.
A verdade é que este dado não me parece um acaso. Durante décadas houve investimento na profissionalização da profissão e na formação pedagógica, mesmo quando esse modelo foi frequentemente criticado como excessivamente teórico ou burocrático. Hoje, os dados da OCDE sugerem que essa aposta pode ter tido efeitos mais importantes do que muitos admitiam.
Mas talvez o desafio mais relevante em 2026 seja outro. Afinal, nunca foi tão exigente ensinar como nos dias de hoje.
Os alunos cresceram num ambiente marcado pela hiperestimulação digital, pela velocidade da informação, pela fragmentação da atenção e pelo consumo permanente de conteúdos curtos e imediatos. Ao mesmo tempo, escolas e universidades lidam hoje com turmas mais heterogéneas, maiores desafios emocionais e uma pressão crescente sobre os professores para responder simultaneamente a exigências pedagógicas, tecnológicas, sociais e administrativas.
Neste contexto, a ideia de que ensinar depende apenas de domínio científico torna-se claramente insuficiente. Um excelente especialista pode dominar a sua área e, ainda assim, falhar na capacidade de captar atenção dos seus estudantes.
É precisamente aqui que o relatório da OCDE ganha importância estratégica para o ensino superior. Durante décadas, universidades e politécnicos valorizaram quase exclusivamente o currículo científico e a produção académica dos docentes, partindo do princípio de que investigar bem significava automaticamente ensinar bem. A realidade mostra que isso já não chega.
Atualmente, os estudantes universitários exigem maior interação, metodologias mais adaptadas, feedback mais frequente e maior acompanhamento pedagógico. Isso não significa diminuir a exigência académica. Significa reconhecer que ensinar públicos mais diversos exige competências mais sofisticadas.
O relatório deixa também um aviso importante numa altura em que vários países discutem formas mais rápidas e simplificadas de acesso à profissão docente para responder à escassez de professores. A lógica é compreensível, mas os dados sugerem que reduzir a preparação pedagógica pode comprometer a qualidade do ensino, a gestão das salas de aula e até o bem-estar dos próprios docentes.
Talvez esteja, por isso, na altura de recentrar o debate educativo no essencial. A qualidade do ensino depende profundamente da qualidade profissional dos nossos professores. E isso obriga-nos a abandonar a ideia demasiado simplista que saber muito sobre uma matéria não significa, por si só, saber ensiná-la.
É essa diferença que transforma verdadeiro conhecimento em aprendizagem.
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