Durante décadas, ouvimos falar do American Dream como o grande ideal aspiracional. No entanto, hoje, com o feedback de muitos americanos e com esta tendência crescente de virem para Portugal e para a Europa, a pergunta surge de forma quase inevitável: podemos falar de um European Dream? E o American Dream ainda existe? Acredito que sim, o American Dream continua a existir. Mas são sonhos diferentes.
O American Dream continua a ser real para muitos fundadores e empresas portuguesas e europeias. Ir para os Estados Unidos mantém-se como um objetivo claro para quem quer crescer rapidamente, entrar num ecossistema de enorme dimensão e operar num mercado com uma capacidade de captação de investimento muito difícil de igualar. É um sonho de hustle, de trabalhar de forma intensa, num ecossistema com uma velocidade muito elevada. Para muitos fundadores, o que os atrai não é apenas a dimensão do mercado ou o acesso a capital, mas também tudo aquilo que é intangível: estar inserido num ambiente altamente empreendedor, rodeado de pessoas e organizações que estimulam constantemente a ambição, a exigência e o crescimento. Estar nesse ecossistema faz, por si só, crescer.
Ao mesmo tempo, acredito que podemos, sim, falar de um European Dream — ou até de um Portuguese Dream — quando olhamos para a tendência, já com vários anos, de americanos a quererem vir para Portugal. Na verdade, mais de 1,5 milhões de americanos vivem atualmente na Europa, segundo a Association of Americans Resident Overseas, e este número está a crescer em praticamente todos os estados-membros da União Europeia. De acordo com uma análise recente do Wall Street Journal, em Portugal, o total de residentes americanos disparou mais de 500% desde a pandemia e cresceu 36% apenas em 2024. Aqui, o sonho é claramente diferente. Trata-se de uma opção muito mais ligada ao estilo de vida. E não tem apenas a ver com as restrições na emissão de vistos nos EUA; há um conjunto de motivações e incentivos para os cidadãos americanos emigrarem, especialmente para a Europa, ligados a incentivos económicos mas sobretudo a uma mudança de lifestyle, o que é ajudado pelo crescimento do trabalho remoto. Estas pessoas tomam uma decisão consciente de escolher um maior equilíbrio entre a vida pessoal, familiar e o trabalho. Procuram segurança para as suas famílias, uma comunidade acolhedora e um contexto onde possam viver de forma mais alinhada com o seu desenvolvimento pessoal, sem deixarem de trabalhar, investir ou empreender a um nível global. Portugal oferece exatamente essa combinação. E este movimento cria também uma oportunidade única para os portugueses: aprender, partilhar experiências e aproveitar a força de internacionalização que este ecossistema proporciona.
Hoje, já temos vários fundadores muito bem-sucedidos, investidores de ecossistemas americanos — e de outros ecossistemas — que querem estar em Portugal e colaborar. Têm sido criados meios para que isso aconteça e continuam a ser desenvolvidos novos mecanismos que facilitam o investimento, a colaboração e a partilha de know-how. É neste contexto que nasceram iniciativas como a RedBridge Lisbon, mas também novos fundos de investimento com capital americano focados em startups portuguesas, uma nova vitalidade no crescimento de venture studios e uma colaboração transatlântica cada vez mais forte.
Esta maior colaboração é, em grande parte, consequência de uma estratégia que começou há vários anos, com políticas de atração de investimento estrangeiro e de talento qualificado. Só estamos nesta fase porque essas bases foram lançadas no passado. E para que possamos tirar o melhor proveito deste momento único, há algo que deve ser sempre mantido muito presente: a confiança e a estabilidade. A confiança no ecossistema e a estabilidade são absolutamente essenciais para que Portugal continue a ser visto como esse refúgio seguro e essa comunidade acolhedora.
As mudanças legislativas são naturais e necessárias — sobretudo em matérias fiscais, migratórias ou económicas — porque acompanham o evoluir da realidade social e económica. Mas, quando essas mudanças acontecem, é fundamental ter em conta a importância de não frustrar as legítimas expectativas de quem já investiu, de quem já escolheu Portugal, e de não quebrar essa confiança construída ao longo do tempo. A estabilidade legislativa continua a ser um fator absolutamente crítico.
No fundo, talvez o verdadeiro valor deste momento esteja precisamente aqui: na capacidade de Portugal acolher sonhos diferentes. O sonho de quem parte para os Estados Unidos para escalar e crescer rapidamente, e o sonho de quem chega a Portugal à procura de qualidade de vida, segurança e comunidade — sem abdicar de ambição, investimento e impacto.