Tenho 18 anos. Sou rapaz. Sou branco. A minha família é de classe média baixa. Estas são, em larga medida, as características médias dos rapazes que aderem ao discurso red pill, nome dado à crença de que a sociedade moderna é tendencialmente contra os homens e que, por isso, estes devem impor-se e recuperar o seu lugar dominante. Conteúdos deste tipo viralizam entre jovens rapazes, sobretudo entre a geração Z. Para perceber este fenómeno é preciso olhar para o mundo em que a minha geração cresceu.
Comecemos por reconhecer um facto incontornável. As últimas décadas trouxeram avanços sociais profundos. As lutas feministas conquistaram direitos historicamente negados às mulheres e os movimentos LGBTQ+ conquistaram visibilidade e proteção legal. Aquilo que durante muito tempo foi silenciado passou a fazer parte do debate público. Estes avanços são uma conquista civilizacional.
Mas também produziram uma reação. Muitos jovens rapazes cresceram num mundo em rápida transformação sem que lhes fosse oferecido um novo lugar claro nesse mesmo mundo. Durante séculos, o patriarcado ofereceu aos homens um guião simples. Autoridade, centralidade e domínio social. Esse guião está hoje em crise, e ainda bem. Mas quando um modelo desaparece sem ser substituído por outro, abre-se um vazio. É nesse vazio que a manosfera prospera.
O discurso red pill apresenta-se como uma resposta fácil para jovens que sentem frustração, solidão ou perda de estatuto. Promete devolver-lhes um lugar no topo de uma hierarquia imaginada. Não lhes diz que o mundo mudou. Diz-lhes que o mundo lhes foi roubado.
Para perceber porque esta mensagem encontra terreno fértil é preciso olhar para o contexto em que a geração Z cresceu. Somos a geração da hiperconexão e, paradoxalmente, da solidão. Crescemos entre redes sociais, algoritmos e uma comunicação permanente que muitas vezes substitui, em vez de reforçar, as relações humanas.
A pandemia acelerou este processo. Durante meses, milhões de jovens viveram isolados dos seus pares, confinados a ecrãs que se tornaram simultaneamente janela para o mundo e companhia constante. Nesse ambiente, os algoritmos tornaram-se professores silenciosos, amplificando conteúdos que alimentam ressentimento e polarização.
A internet não deixa vazios.
A ficção recente captou bem esta realidade. Na série Adolescência, acompanhamos jovens que crescem entre ausência emocional, pressão social e uma profunda dificuldade em encontrar pertença. Não há vilões claros. Há sobretudo um mundo que deixou de oferecer tempo, atenção e presença às novas gerações.
Essa ausência não é apenas cultural. É também económica. O avanço do neoliberalismo transformou profundamente o tempo das famílias. Jornadas longas, precariedade e pressão constante fazem com que muitos pais tenham cada vez menos tempo para acompanhar os filhos. Não é apenas uma falha individual. É o resultado de um modelo económico que valoriza produtividade acima de cuidado.
Quando a família e a escola deixam de ser espaços de diálogo e orientação, o vazio é rapidamente ocupado por outros agentes. Influencers, fóruns anónimos e comunidades digitais radicalizadas passam a desempenhar o papel de referência.
Neste contexto, muitos jovens homens sentem que estão a perder direitos. Mas o que está realmente a desaparecer não são direitos. São privilégios. A igualdade de género não retira liberdade aos homens. Retira-lhes a posição automática de superioridade. Para quem cresceu habituado a esse privilégio estrutural, a igualdade pode parecer uma ameaça. É aqui que o discurso antifeminista encontra combustível.
Os dados sobre violência mostram que este não é apenas um fenómeno cultural abstrato. Em vários países assistimos a um aumento preocupante de femicídios, violência sexual e ataques motivados por misoginia. Em muitos destes casos, investigações revelam a influência de comunidades digitais onde mulheres são tratadas como inimigas.
Ao mesmo tempo, estudos apontam para um fenómeno curioso. O chamado gender gap político entre jovens parece estar a acentuar-se. Em muitos países, mulheres jovens da geração Z posicionam-se cada vez mais à esquerda e identificam-se com causas feministas, enquanto uma parte significativa dos rapazes se desloca para posições mais conservadoras. O afastamento político entre jovens homens e mulheres é hoje mais visível do que entre gerações mais velhas.
Seria fácil responder a este fenómeno apenas com condenação moral. Mas isso seria insuficiente. O educador brasileiro Paulo Freire defendia uma pedagogia baseada na escuta e na solidariedade. Isso não significa relativizar a misoginia. Significa reconhecer que muitos dos jovens que entram nestes movimentos são também produto de um sistema social que lhes falhou.
Combater esta radicalização exige respostas que vão além da internet. Implica regular plataformas digitais que lucram com a amplificação de discursos de ódio. Implica reforçar a educação sexual e afetiva nas escolas, ensinando relações baseadas em respeito e igualdade. Implica também políticas públicas que combatam o isolamento e criem espaços de sociabilidade para os jovens.
Mas há uma dimensão ainda mais profunda. A crise de masculinidade contemporânea está ligada à crise mais geral de futuro que atravessa a juventude. Precariedade laboral, dificuldade em aceder à habitação e ansiedade climática criam um sentimento difuso de insegurança. Jovens que não conseguem imaginar o seu próprio futuro são mais vulneráveis a narrativas que prometem recuperar um passado idealizado.
Vivemos num tempo perigoso. O lastro de sangue deixado pela violência misógina lembra-nos que o patriarcado não é uma relíquia do passado. Apenas mudou de forma e adaptou-se às frustrações do presente.
A esperança existe. Mas está, de facto, por um fio. E cabe-nos decidir se o deixamos partir ou se teremos a coragem coletiva de o reforçar.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.