Quando existe o diagnóstico de uma doença, o passo seguinte deveria ser simples: tratá-la. No entanto, o problema no tratamento de muitas doenças não é a falta de opções terapêuticas, mas sim a falta de adesão às mesmas, ou seja, os doentes não conseguirem seguir o tratamento de forma consistente.
Este é já um problema significativo na medicina moderna, configurando mesmo um desafio para a sustentabilidade e para o valor gerado pelo sistema de saúde. Porquê? Porque a não adesão terapêutica não só compromete as intervenções médicas, pondo em risco a saúde do doente, como impacta ainda a própria eficiência dos sistemas de saúde.
Falar de adesão terapêutica é abordar um tema complexo. Não estamos apenas a falar de “tomar o medicamento”, mas sim de cumprir aquilo que foi acordado entre o profissional de saúde e o doente, fazendo-o de forma correta, contínua e consciente. Isto significa tomar a dose certa, no horário definido, durante o período estabelecido.
Parece simples, mas 41,2% dos portugueses com doenças crónicas não cumprem corretamente a medicação, segundo um estudo realizado em 2025. Falamos de um problema particularmente comum em doenças como hipertensão, dislipidemia, diabetes, onde o benefício do tratamento não é imediatamente percebido. De facto, a maior barreira à adesão não é técnica, mas emocional, passando pelo medo dos efeitos adversos, bem como a negação da doença, sobretudo quando é assintomática.
Mas há outras razões para a não adesão: os regimes complexos, os efeitos adversos — por exemplo, se o doente não sentia nada com a doença, mas sente com o tratamento, pode deixar de o fazer —, e a falta de literacia em saúde. Tudo isto, juntamente com a baixa perceção de risco, torna a adesão um dos maiores desafios clínicos atuais. É que pensamos muito nos riscos associados às doenças, mas o que nem sempre consideramos é que o uso incorreto de medicamentos é um risco silencioso, cumulativo, com impacto direto na segurança do doente.
Tomar doses erradas, tomar de forma irregular ou interromper precocemente o tratamento, sem orientação são práticas que contribuem para o mau controlo das doenças crónicas como a hipertensão a dislipidemia ou a diabetes, por exemplo.
Há um efeito óbvio e imediato da não adesão na saúde do doente, já que esta é uma das principais causas evitáveis de maus resultados em saúde, seja agravamento da doença, mais sintomas, menor qualidade de vida ou complicações evitáveis, mas há também impactos económicos e sociais a considerar. Estamos a falar de um enorme desperdício de recursos: mais consultas, idas ao hospital, episódios de agudização, tudo isto com custos associados. E depois há ainda a acrescentar a estas contas, sobretudo para quem pensa em termos económicos, a perda de produtividade e o absentismo laboral. Razões que tornam o investimento na adesão uma forma clara de gerar valor a todos os níveis.
Em maior risco estão os idosos, os doentes polimedicados e os doentes crónicos, onde a complexidade do tratamento é maior. Mas ainda que a não adesão raramente seja declarada, quase sempre deixa sinais: indícios clínicos, como controlo insuficiente da doença, variabilidade inexplicável de resultados ou exacerbações frequentes; e indícios comportamentais, como faltas a consultas, hesitação nas respostas ou esquecimento recorrente.
Há, contudo, algo essencial sobre a não adesão: é em grande parte, evitável. Ouvir sem julgar é o primeiro passo e é preciso ainda perceber que é preciso dar tempo ao doente para processar o diagnóstico, e ao médico para explicar o que se segue, algo que, tendo em conta os constrangimentos do sistema, nem sempre acontece. É importante investir na adequação do tratamento à vida real do doente.
As novas tecnologias podem ajudar, desde que não substituam a relação humana. Alertas digitais, aplicações, lembretes inteligentes e dispositivos conectados ajudam a criar rotinas, e a gamificação pode aumentar a motivação, sobretudo em doentes mais jovens. O verdadeiro valor está em soluções simples, integradas e adaptadas à realidade do doente, assim como regimes terapêuticos mais simples: menos comprimidos significam menos confusão e maior probabilidade de continuidade. Fundamental é ainda a aposta na literacia em saúde: um doente informado é um doente mais confiante e mais aderente. É preciso reforçar, por isso, iniciativas que o ajudem a compreender não só a sua doença, mas também os objetivos do tratamento e as consequências da sua interrupção, porque a informação clara é uma ferramenta terapêutica.
Acima de tudo, neste Dia Mundial do Doente, importa reforçar que tratar a doença cuidando da pessoa é a melhor estratégia. Por isso, falar de adesão terapêutica é falar de empatia, simplicidade e responsabilidade partilhada. E melhorar a adesão não é apenas um objetivo clínico, mas um compromisso ético com melhores resultados em saúde e com a redução do encargo económico associado à não adesão.
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