A intempérie que se abateu sobre o País destruiu tudo à sua passagem. Sabia-se que ia ser grave. Ninguém se atreveu a anunciar a sua dimensão. A tempestade Kristin mostrou-se com tal violência, intensidade e de tal forma que será invocada por muito tempo.
A noite de 27 para 28 de janeiro tem sido o marco para uma discussão onde se procura encontrar culpados. Mas como o vento não pode ser criticado busca-se quem está à mão, o Governo.
Porque o Governo não avisou. Apenas a Proteção Civil, que andou por serviços noticiosos durante quase uma semana. Porque o aviso emitido não era suficientemente agressivo e adequado à agressividade da tormenta. Porque o estado de prontidão de dia 27 não era assaz poderoso para o poder demonstrado pela ventania desenfreada e a chuva que a acompanhava. Porque apenas se esperavam ventos que podiam ser dos 140 a 160 km/h e não os 200 km a que se chegou. A tal “ciclogénese explosiva” que, afinal, ainda ninguém sabe o significado de tal palavrão. Exceto as pessoas que a sofreram.
Milhares sem eletricidade e água. Habitações destruídas, telhados que voaram de casas, fábricas e armazéns. Vidas levadas, feridos em consequência de todos os momentos dramáticos vividos, animais em risco. Infraestruturas de comunicação e de eletricidade enroladas em ferro, ramos, troncos de arvore. Cenário não recriável.
No depois, porque não se foi dramático bastante no famigerado dia 28. É verdade que houve membros do Governo no terreno. Mas eram apenas secretários de Estado. O vento podia ficar ofendido. O primeiro-ministro, que falou de imediato sobre o tema na manhã da tempestade, não foi enfático na desgraça que houve e na identificação do medo que deveria ter havido.
Contudo, neste tempo, a Proteção Civil estava, onde devia estar, junto das populações. Agentes da Proteção Civil, bombeiros, forças de segurança. Autarcas na sua missão de estar junto das suas gentes, sempre. Alguns agitando, outros preocupados em agir.
As pessoas atingidas viveram e vivem momentos agitados. A natural ansiedade do desconhecido, da luta contra um inimigo que dizimou sonhos e partiu apressado. Esperam agora respostas do Governo. É o Estado que está em julgamento. A forma como ir ao encontro das necessidades das pessoas é a chave para manter a própria democracia dentro dos seus parâmetros.
Conscientemente dizemos que é a democracia que está em equação. Na estrita medida que são situações desta estirpe um palco para crescerem populismos, demagogias, promessas e ilusões. Perante a ansiedade das pessoas, num retorno rápido à normalidade possível. Escolas que reabrem, comunicações que se restabelecem, fornecimento de água e luz a todos, habitações que se reerguem na medida do possível. O tempo levará a uma situação onde os efeitos mais dolorosos se ultrapassam.
Mas a ansiedade dos primeiros dias vai permanecer se o Estado não providenciar as respostas sem burocracia injustificada, com pressa em resolver, atender e proporcionar esse regresso a uma normalidade desejada.
As medidas estão anunciadas de socorro imediato, de apoio económico e social, num envolvimento de setores múltiplos. Segurança Social, proteção do emprego e do rendimento no desanuviamento de preocupações diretas com bancos e seguradoras, na reconstrução. Apoios que precisam chegar a todos os que foram vítimas dos infelizes acontecimentos.
As ansiedades não se mostram apenas nas pessoas que sofrem. Há ansiedades de aproveitamento político, de demonstração de oportunismo, de demagogia. O tempo é de ação e de demonstração efetiva de ajuda. Ninguém compreenderá que o que foi anunciado não sirva esse propósito.
O exemplo dado por voluntários no terreno, ofertas de bens – comida, mas também de produtos para a primeira intervenção – ilustra bem a humanidade e a solidariedade que o povo português sempre se caracterizou.
Mas a melhor solidariedade é a que resultará da presença do Estado, próximo, efetivo e eficaz. Não é tempo da análise. É tempo da intervenção. O Estado não pode falhar. Pelas fissuras da falha entrará o veneno da fatalidade. As ansiedades apenas serão vencidas, se o tempo as contrariar do modo como as pessoas esperam. Com resultados concretos e sem desculpas. A falha é injustificável.
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