Em muitas circunstâncias há silêncios que são prudentes. Durante toda a minha vida eleitoral, achei que o meu era um desses silêncios. Como representante da Associação Portuguesa de Apoio a Mulheres com Endometriose, que se senta à mesa com partidos políticos de diferentes cores, escolhi nunca tornar público o meu sentido de voto. Sempre senti que essa reserva protegia a causa maior: as mulheres que vivem com uma doença invisível, dolorosa e ainda tantas vezes desvalorizada.
Mas o tempo ensina-nos que nem todo o silêncio é neutro. Há momentos em que ele começa a pesar. E há momentos — como este — em que se transforma em cumplicidade involuntária.
Depois de 13 anos de luta por direitos, por dignidade e por acesso à saúde, agora não posso ficar calada. Porque quando a democracia vacila, a primeira perda nunca é abstrata. Tem rosto. Tem corpo. E, quase sempre, é feminina.
Sem democracia, os primeiros direitos a serem postos em causa são os das mulheres. E, entre elas, as mais vulneráveis são as que vivem com condições de saúde crónicas — como a endometriose — que, além da dor constante, carregam o peso da incerteza sobre a fertilidade e sobre o futuro. São mulheres que dependem de um Serviço Nacional de Saúde funcional, humano e universal. São mulheres para quem a política não pode ser um debate distante, mas uma variável que determina se há consulta, cirurgia, medicação e leis que protejam os seus direitos laborais.
Na segunda volta, o meu voto será em António José Seguro. Não por simpatia pessoal ou partidária, mas por convicção democrática. Porque acredito que o Presidente da República deve ser um garante da Constituição, dos direitos humanos e do Estado Social — nunca um fator de fragilização desses pilares.
Nesta segunda volta, a alternativa que nos resta teria consequências muito concretas. Falamos de direitos laborais e reprodutivos que deixam de estar assegurados, de um SNS ainda mais enfraquecido, de um acesso à saúde tratado como privilégio e não como direito. Falamos de um discurso público que normaliza a culpabilização das mulheres pela sua condição física, social ou económica. Um discurso que ignora que há corpos que doem todos os dias e vidas que não cabem em slogans.
Para quem vive com endometriose — e para tantas outras mulheres com doenças crónicas — este caminho não é teórico. É um retrocesso real, com impacto direto na qualidade de vida e, muitas vezes, na própria sobrevivência. Os direitos das mulheres não são uma concessão ideológica. São uma obrigação constitucional. E defender as mulheres com endometriose é, inevitavelmente, defender a democracia, a ciência, a empatia e a igualdade.
É por isso que, pela primeira vez, assumo publicamente uma posição política. Não apenas por mim. Mas pelas mulheres que represento. Pelas que ainda não têm voz. E pelas que sabem, no corpo, que quando a democracia falha, somos sempre as primeiras a pagar o preço.
Na segunda volta, temos de ir votar. E temos de votar na democracia, na igualdade e na liberdade. Na segunda volta, só há uma escolha que protege estes valores !
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.