O relatório publicado em 2025 pela OCDE e pela IARC, The Impact of the European Code Against Cancer on Health, the Economy and Society, chegou num momento em que a Europa procura equilibrar saúde, economia e sustentabilidade. A mensagem que traz é desconcertante pela sua simplicidade, que é muitas vezes ignorada: a prevenção salva mais vidas, custa menos e cria mais desenvolvimento do que qualquer avanço terapêutico isolado. Não é uma questão de retórica, mas antes algo comprovado por estatísticas, números e projeções robustas. Como afirmou recentemente Elisabete Weiderpass, diretora da IARC, “a prevenção é a ferramenta mais poderosa de que dispomos contra o cancro”. E, na verdade, contra qualquer doença.
Logo nas primeiras páginas deste estudo, somos confrontados com uma realidade dura. Cerca de quatro pessoas são diagnosticadas com cancro por minuto na União Europeia, com um custo anual de 97 mil milhões de euros para os sistemas de saúde e 50 mil milhões de euros em produtividade perdida. Estes valores representam uma espécie de espelho incómodo para muitos. Não é apenas um problema de saúde, mas uma das maiores ameaças à sustentabilidade económica e social dos países.
A boa notícia, e talvez seja vista como uma grande surpresa, é que o relatório mostra que já sabemos exatamente o deve ser feito para mitigar esta situação. Não é necessária uma descoberta revolucionária nem um salto tecnológico inesperado. O que realmente altera o curso da doença é a prevenção e um olhar mais atento e informado aos fatores de risco que moldam o nosso quotidiano. É por isso que as recomendações partilhadas a propósito da 5.ª edição do European Code Against Cancer se tornam tão relevantes. Pela primeira vez, não se dirigem apenas às pessoas, mas também aos decisores, lembrando que escolhas saudáveis exigem ambientes saudáveis.
Até porque, e vale a pena sublinhar, o impacto da prevenção não é igual para todos. As desigualdades socioeconómicas amplificam o risco de cancro e reduzem a capacidade de adoção de estilos de vida saudáveis. Quem vive em contextos de maior vulnerabilidade enfrenta maior exposição a fatores de risco, menor literacia e mais barreiras aos cuidados preventivos. É por este motivo que a prevenção deve ser vista como uma política de justiça social. Esta mudança representa um claro reposicionamento da prevenção como responsabilidade coletiva e política, e não apenas individual.
E aqui surge a pergunta que serve de teste à nossa capacidade de ambição. O que aconteceria se todos os países da Europa atingissem o melhor nível de prevenção?
O relatório de 2025 não deixa margem para dúvidas. Todos os anos, poderiam evitar-se 300.000 novos casos de cancro, incluindo 33% dos colorretais e 27% dos pulmões. A redução de mortalidade seria igualmente impressionante: 75.000 mortes por cancro evitadas, parte de um total de 300.000 mortes prematuras quando se consideram doenças cardiovasculares, cirrose e diabetes.
A esperança média de vida aumentaria mais de dois anos, e meio milhão de casos de depressão deixariam de se manifestar, aliviando o sofrimento humano e as pressões sobre famílias e serviços.
A economia, tantas vezes vista como esfera separada da saúde, beneficiaria de forma quase imediata. O relatório estima poupanças anuais de 20 mil milhões de euros em tratamentos oncológicos e 41 mil milhões noutras doenças crónicas. A força de trabalho europeia recuperaria o equivalente a 2,6 milhões de trabalhadores a tempo inteiro, gerando 110 mil milhões de euros adicionais por ano – um valor que traduz, por exemplo, praticamente o PIB da Eslováquia. Em termos individuais, cada pessoa em idade ativa ganharia 415 euros por ano em produtividade recuperada.
E há ainda um efeito que quase nenhum cidadão associa à prevenção: o ambiente. Só a mudança para padrões alimentares saudáveis poderia reduzir 69 megatoneladas de CO₂ equivalente, o mesmo que retirar 16 milhões de carros das estradas europeias.
É difícil encontrar uma política pública com benefícios tão abrangentes e tão tangíveis. Mas para conseguirmos tirar proveito destes ganhos será necessária mais ambição. São necessárias medidas concretas, como, por exemplo, uma taxa fiscal diferenciada para produtos ultraprocessados, restrições à publicidade dirigida a menores, a criação de ambientes que favoreçam uma alimentação mais saudável em escolas e locais de trabalho e uma mudança estrutural no planeamento urbano, que incentive a atividade física e a mobilidade ativa.
A prevenção faz-se todos os dias, nas escolhas individuais, mas também nas condições que as possibilitam. E quando promovemos informação acessível, sistemas de saúde mobilizados e políticas públicas voltadas para um estilo de vida mais saudável, esta torna-se a escolha mais fácil. Tratamos do problema na sua raiz. E é importante que o façamos com todos, mas principalmente com os profissionais de saúde. Estes têm de ser as fontes mais confiáveis de aconselhamento.
Isso coloca uma responsabilidade direta sobre o ensino superior. As universidades que formam estes profissionais, médicos, dentistas, nutricionistas, enfermeiros, psicólogos e fisioterapeutas, têm de integrar nos seus currículos a prevenção, os estilos de vida, a saúde pública e a compreensão das políticas populacionais. Porque só reunindo as competências necessárias, conseguiremos tirar proveito desta grande oportunidade que é a prevenção.
A ciência já mostrou o caminho. Agora cabe-nos a nós decidir se o valorizamos ou se continuamos a pagar o preço de o ignorar. Ignorar esta evidência não é uma posição neutra: tem custos humanos, sociais e económicos que já não podemos justificar.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.