No Natal, à mesa, instala-se muitas vezes um sentimento de culpa silenciosa. Fala-se de calorias como se fossem convidados indesejados, fazem-se contas antecipadas aos excessos e promete-se, quase em tom de penitência, que “em janeiro tudo muda”. Mas talvez valha a pena inverter a pergunta: será mesmo o Natal o problema?
A verdade é que um ou dois dias de celebração dificilmente anulam o estilo de vida do ano inteiro. Se existe um desequilíbrio, ele raramente nasce na Consoada. Pelo contrário, tende a ser construído ao longo de meses — e, muitas vezes, intensifica-se nas semanas que antecedem o Natal.
Verificamos isto mesmo se recuarmos mais de 20 anos ao surgimento do conceito de alimento ultraprocessado. Este conceito surge no início dos anos 2000 quando investigadores se apercebem de um aspeto paradoxal associado ao consumo alimentar: as famílias pareciam estar a comprar menos ingredientes como açúcar ou óleo, mas patologias como a obesidade e a diabetes tipo 2 estavam a aumentar. Este aumento, perceberam, estava associado ao aumento do consumo de produtos açucarados ultraprocessados prontos a comer. Isto é, substituímos a travessa de leite-creme ou o bolo de laranja feitos em casa, em momentos especiais e partilhados nesses mesmos momentos com familiares e amigos, pela bolacha e o chocolate diário, que comemos sem grande reflexão ou partilha.
Em Portugal, as tradições alimentares de Natal e, em particular, os pratos principais assentam numa matriz simples e equilibrada: peixe, hortícolas, azeite, ovos, fruta fresca e seca, carnes preparadas de forma tradicional. O bacalhau com couves, o polvo, as carnes estufadas ou assadas falam mais de sazonalidade, de saber-fazer e de respeito pelos alimentos do que de excesso. São pratos que alimentam o corpo e a memória, pensados para reunir pessoas à volta da mesa e não para quebrar equilíbrios.
Também os doces, tantas vezes apontados como os grandes culpados, merecem um olhar mais atento. Filhós, rabanadas, sonhos, arroz-doce ou aletria não nasceram para ser consumidos em solidão, nem em abundância diária. São receitas feitas para partilhar, preparadas com ingredientes simples— ovos, farinha, açúcar, leite, canela, azeite —, os mesmos que habitam as nossas cozinhas e despensas ao longo do ano. O seu valor está tanto no sabor como no gesto de os fazer e de os dividir e na transmissão de receitas entre gerações.
Reduzir esta quadra a uma equação de calorias é empobrecer uma tradição que é, acima de tudo, cultural, social e afetiva. A comida, nesta altura, não serve apenas para nutrir: serve para ligar pessoas, contar histórias, criar memórias.
Talvez o verdadeiro desafio não seja compensar o Natal, mas aprender a viver o resto do ano com mais equilíbrio e com mais consciência nas escolhas diárias. Optar pelo tradicional, feito em casa, com ingredientes frescos é uma mais-valia no Natal e todos os dias.
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