Todos os anos, a 17 de novembro, assinala-se o Dia do Não Fumador — um momento para refletirmos sobre os riscos do tabaco, mas também sobre a esperança real de uma vida sem fumo.
Enquanto médica de família, tenho acompanhado muitos fumadores em consulta de cessação tabágica. É comovente ver como, mesmo depois de anos de dependência, é possível deixar de fumar com sucesso. O segredo não está apenas na força de vontade. Esta é importante, mas não é condição necessária para começar. Hoje sabemos, com base em evidência científica robusta, que iniciar tratamento antes de surgir a convicção plena de conseguir parar pode ser o passo decisivo. Ou seja, um fumador que ainda duvida de si, mas aceita começar a medicação, tem muitas vezes mais hipóteses de sucesso do que aquele que espera “estar pronto”.
Existem duas principais modalidades terapêuticas: a substituição de nicotina e a medicação que reduz a vontade de fumar.
A substituição de nicotina — através de pensos aplicados na pele, pastilhas de mascar ou de chupar — é especialmente útil para fumadores intensivos, aqueles que fumam mais de um maço por dia ou que precisam de um cigarro logo ao acordar. A dose de nicotina vai sendo gradualmente reduzida, permitindo ao corpo adaptar-se.
A medicação que tira o prazer de fumar é indicada para a maioria dos fumadores. Existem esquemas curtos de 25 dias, em que o cigarro é substituído por comprimidos e o consumo vai diminuindo progressivamente, e tratamentos de três meses, com um comprimido de manhã e outro à noite, que eliminam a sensação positiva associada ao tabaco. Durante esse período, o fumador aprende a viver sem o cigarro, substituindo, por exemplo, a “pausa do cigarro” por uma caminhada ou um café com colegas.
A maior dificuldade não costuma ser parar, mas manter a abstinência. Basta um cigarro “por brincadeira” para que o cérebro volte a ativar os mesmos circuitos de prazer — e o vício regressa rapidamente. Por isso, o acompanhamento médico e o apoio continuado são fundamentais.
Importa também lembrar que as recaídas fazem parte do processo de cessação. Cada tentativa anterior é valiosa e é cuidadosamente analisada na consulta: o que funcionou, o que falhou, quais os gatilhos, quais as estratégias que resultaram melhor. Esse conhecimento acumulado aumenta significativamente a probabilidade de sucesso na tentativa seguinte. O importante é não desistir — porque cada tentativa aproxima o fumador de uma vida sem dependência.
Importa ainda desfazer um mito: os cigarros eletrónicos e o tabaco aquecido não são alternativas seguras. Estes dispositivos aquecem substâncias químicas a altas temperaturas, alterando-lhes a estrutura molecular. Já foram descritos casos graves de inflamação pulmonar (pneumonite) associados ao seu uso, e os efeitos a longo prazo continuam desconhecidos.
Deixar de fumar é possível — com apoio, acompanhamento e tratamento adequado. Em cada consulta de cessação tabágica, não celebramos apenas o abandono de um vício: celebramos a conquista da liberdade e da saúde.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.