O Serviço Nacional de Saúde tem vivido, nos últimos meses, uma sucessão de episódios que expuseram, de forma cruel, as suas fragilidades. Falhas graves na assistência médica, tempos de espera inaceitáveis e casos trágicos que resultaram na morte de utentes — cada um deles um lembrete doloroso de que o sistema está a falhar onde devia proteger. Mas tão preocupante quanto os erros operacionais do SNS tem sido a forma como o Governo, e em particular a ministra da Saúde, Ana Paula Martins, têm lidado com a comunicação dessas crises.
A ministra revelou uma incapacidade preocupante para comunicar com empatia, clareza e responsabilidade. Em vez de um discurso que acolha a dor das famílias e reconheça as falhas do sistema, o País tem assistido a declarações frias, tecnocráticas, muitas vezes lidas de folhas escritas por assessores. Um exercício de distanciamento que apenas aprofundou a perceção de indiferença. E, pior ainda, a insistência num tom de isenção de responsabilidade — como se os erros fossem sempre de outros, como se o ministério que dirige fosse apenas um observador do caos que se instala.
Num momento em que o SNS enfrenta a mais grave crise de confiança da última década, um líder não se pode esconder atrás da máquina burocrática. Um líder é, antes de tudo, o rosto da responsabilidade. E quando as falhas do sistema se medem em vidas perdidas, a responsabilidade política deixa de ser uma abstração: é um dever moral.
A falta de preparação discursiva, a ausência de estratégia e a completa desconexão emocional com o público tornaram-se fatais. Ana Paula Martins perdeu o País na comunicação antes de o perder na governação. O julgamento coletivo do setor foi ditado não apenas pelas falhas na Saúde, mas pelo vazio político e humano das suas palavras. A indignação que se espalhou — da esquerda à direita, dentro e fora do Governo —, a revolta gerada na opinião pública, foi o reflexo direto dessa falta de liderança comunicacional.
Agora, tudo indica que a ministra se manterá apenas até dezembro, para a apresentação da nova Lei de Bases da Saúde. Mas a sua saída, por muito que o gabinete tente maquilhar já com argumentos de “cansaço” ou “fragilidade”, era inevitável. Mas não é o desgaste pessoal que está em causa — é a falência de uma estratégia política e comunicacional que falhou no essencial: prestar contas a um país que exige explicações e humanidade.
Não se pode maquilhar uma responsabilidade pública perante quem nos elegeu. Quando há mortes em consequência de falhas do sistema, a empatia não é uma opção; é uma obrigação. E quando uma ministra se refugia na leitura de fracos discursos redigidos por um gabinete sem estratégia, o país deixa de ver um governante — e passa a ver apenas um rosto vazio.
E dezembro pode ser tarde demais…
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