A desgraça alheia, o sofrimento em direto, o desespero das “pessoas simples” são um banquete servido a toda a hora, bar aberto, nos canais televisivos de notícias e comentários – quantas vezes mais comentários do que notícias! –, despertando a nossa empatia, a nossa compaixão, alimentando uma certa raiva de indignação pelo “Interior esquecido” pelos poderes.
É uma prova de vida sazonal, com hora marcada, mas não é o Interior que faz a sua prova de vida interrompendo-nos em lágrimas as férias junto ao mar. É uma prova de vida coletiva de quem assiste, como que desperto na sua identidade nacional, vendo os bravos, os fortes que combatem uma natureza feroz.
O problema desta identidade nacional fictícia é que está cheia do discurso do “nós” e do “eles”. Nós, os da cidade; eles, os do Interior. Esta ideia atravessa o grosso dos comentários televisivos, em que se faz a análise do esquecimento, e às vezes dá vontade de responder para o pequeno ecrã: “Olhem que no Interior também há cidades, há ricos e pobres, há desigualdades, há alcoolismo e sobriedade, crime e retidão, licenciados e analfabetos, violência e compaixão, tal como no Litoral.”
O Interior é tão esquecido como esquecidas são as periferias de Lisboa e do Porto, como esquecidos são os pobres de todo o País. E mesmo assim estamos a generalizar: em que nos baseamos para dizer que as classes privilegiadas do Interior são esquecidas? Esquecidas em relação a quê e a quem? Essa ideia de um Interior homogéneo feito de pobres trabalhadores, isolados e sem escolaridade, já não é bucólica – é ignorante.
Colocar o Interior para fora do grupo, no lugar do “eles”, só aumenta o sentimento de despertencimento… É neste terreno que florescem os populismos radicais ao utilizarem no discurso a ideia de pertença ao grupo, chamando a si os excluídos do sistema. Aqui todos falham: políticos, comentadores de circunstância, telespectadores de verão…
As pessoas que vemos na televisão a combater os incêndios não são “guerreiros”, “bravos”. A bravura ninguém lhes tira, mas essas pessoas são vítimas, sobreviventes. Vítimas da incompetência generalizada dos sucessivos governos e de um laxismo político em grau extremo que deixa chegar agosto com os dois aviões Canadair avariados, os dois que tinha alugado, já que Portugal é o único país do Mediterrâneo sem frota própria destes aviões de combate a incêndios.
Ainda a 29 de julho, vimos a ministra da Administração Interna desvalorizar o número de meios aéreos. “A complexidade das operações e do combate é tal que não ajuda nada estar a saber quantos meios aéreos temos, se faltam muitos, se não faltam muitos. E, de facto, não faltam”, referiu. O tema é complexo, mas ficámos sem saber qual o responsável político com competência, e vontade, para o descomplexificar.
Falamos também de sobreviventes. Porque os sobreviventes das alterações climáticas há muito deixaram de ser as personagens de ficção de filmes como Interstellar, A Estrada ou O Dia Depois de Amanhã. E embora o poder político, da esquerda à direita, goste de meter a cabeça na areia (“incêndios sempre houve”), o facto é que mesmo as ignições de mão humana encontram nas vagas de calor extremas, cada vez mais frequentes, o seu maior rastilho. Lá longe, no Interior…
(A autora deste texto nasceu e cresceu no Interior que está a arder. E que ardeu no ano passado. E no ano anterior. E no ano antes desse. E…)