A Eliane tem 9 anos e vem à consulta hoje pela mão de sua tia. Problema? Alterações de comportamento. Não para quieta, não se concentra….
– Porque não vem a mãe à consulta? – pergunto.
– A mãe vive em Lisboa. É doente, tem esquizofrenia. A Eliane veio viver comigo há sete meses.
Conta que a Eliane vivia com uma outra irmã da mãe, em Lisboa. As irmãs viviam muito perto uma da outra e, efetivamente, era a tia que criava e educava desde sempre a Eliane. A mãe às vezes estava bem e a Eliane vivia com ela, parcialmente, nesses períodos. Quando tomava a medicação. O problema era quando se recusava a tomá-la. Descompensava e agredia a irmã e a Eliane, com ciúmes. Nos últimos tempos, a mãe da Eliane estava tão doente que teve que ser internada. Aí o tribunal de menores, em Portugal, achou que tinha que arranjar uma alternativa de vida para a Eliane, de forma a ela poder ter uma adolescência estável. Contactou esta tia, a viver na Guiné com a sua família bem estruturada, marido e três filhos.
– Tem sido muito difícil integrar a Eliane na minha família e na Guiné. Ela não gosta de estar cá.
A Eliane está sentada ao seu colo. É muito magrinha, vem toda vestida de rosa, até a máscara é da mesma cor. Tem um ar muito frágil. Os olhos brilham-lhe muito e de repente há lágrimas que extravasam e escorrem lentamente por baixo daquela máscara cor de rosa. Lágrimas envergonhadas e silenciosas.
– E quais são as alterações de comportamento que a Eliane tem? – pergunto
– A Eliane é muito ansiosa e “tosca“ a mexer-se. Agarra-se muito às pessoas, toca-as muito. E os outros não gostam de se sentir assim invadidos.
– Quem é que não gosta? – pergunto.
– Sobretudo a minha filha de quinze anos, que partilha agora o quarto com ela. Compramos uma cama para a Eliane e um roupeiro novo, maior. Mas a minha filha é mais velha e não quer brincar com a Eliane, que ainda gosta de “Nenucos”. A Eliane ainda é muito criança… e fica muito ofendida com a prima. Em Lisboa, tinha uma prima também de 15 anos e de quem gostava muito. A minha filha não gosta de ser tocada e a Eliane está sempre a abraçá-la…
– Tu ainda gostas de brincar aos Nenucos, Eliane? Uma das minhas filhas também adorava brincar com eles. Mas quando fez dez anos decidiu que já era adolescente, meteu-os numa caixa e pediu-me para os colocar no sótão. Eu achei que era muito cedo e tenho a certeza que ela teve muitas saudades dos seus bonecos. Mas tinha tanta pressa de crescer…. Tu não tens, não é Eliane?
– Eu não quero crescer. Quero continuar a ter abraços. Quem cresce deixa de ser abraçado.
Agora as lágrimas escorrem sem parar e a Eliane soluça. A tia, por trás, também chora, com um ar impotente. Há um silêncio pesado na sala. Quase solene. Sinto que estamos a chegar ao cerne da questão que trouxe a Eliane à nossa consulta.
A tia interrompe aquele silêncio, tenta animar Eliane.
– A Eliane gosta de desenhar e escreve poesia.
– Poesia, Eliane? Que bonito! É tão raro uma menina da tua idade escrever poesia! E sobre o que escreves?
– Sobre amor – diz Eliane.
– Estás apaixonada, Eliane?
– Não é esse amor. É “amor de saudade”.
– Tens muitas saudades da tia e da mãe, não é Eliane? Tens saudades de tudo o que deixaste em Lisboa. É normal Eliane, estás cá há muito pouco tempo, demora tempo a gostarmos das pessoas e as pessoas aprenderem a gostar de nós. Mas a tua tia gosta muito de ti. Ela está preocupada contigo. Por isso te trouxe hoje à consulta, para nós falarmos contigo e percebermos o que se passa dentro da tua cabeça e do teu coração.
Eliane começa a soluçar alto e agora o silêncio da sala incomoda.
Conta-nos, com a voz entrecortada, que recebeu a notícia que vinha para a Guiné numa sexta-feira de manhã e abandonou Lisboa no domingo. Foi arrancada de Portugal. Não teve tempo de se despedir. A diretora de turma comunicou a todos os colegas que a Eliane ia deixá-los, ia partir para sempre. Ninguém conseguiu falar. Todos ficaram muito tristes e a evitaram no recreio. Ninguém se despediu dela. Só teve tempo de escolher um dos seus Nenucos e metê-lo a custo num cantinho da mala a abarrotar com toda a roupa. Ela só podia levar um Nenuco. E tinha quatro. Três tiveram que ficar lá sozinhos. Só trouxe a Kayla. Foi tão difícil escolher. Deixou para trás o Edimilson, o Yuri e a Mayara. Foi tão difícil. E a tia, a tia estava tão triste. Aquela tia era a sua “mãe de coração”, a que a tinha criado, educado, tratado das feridas dos joelhos, limpado o ranho do nariz, acudido de noite quando acordava com pesadelos, dado banhos mornos para baixar a febre, lhe tinha feito comidinhas especiais que ela gostava. Aquela tia era a sua mãe. A mãe que dava muitos abraços. A Eliane tinha sido arrancada de Portugal e plantada em Cabo Verde. Mas ainda não conseguira fazer raízes novas, a seiva ainda não subira e algumas folhas tinham mesmo amarelecido e caído, sem que outras novas brotassem. A Eliane era uma acácia sem flor, no tempo em que todas já as têm por aqui.
Estamos todas sem palavras e com os olhos brilhantes. Somos médicas, profissionais, mas somos também humanas. Conseguimos todas imaginar-nos com 11 anos a ser arrancadas duma família e de um país e colocadas num lugar completamente novo. Uma médica mais nova, querendo ajudar, pergunta-me:
– Doutora, não acha que ela necessita de um antidepressivo?
De repente acordo do meu torpor melancólico que me tinha feito viajar com a Eliane de Lisboa para a Guiné. Volto a ser médica e começo a pensar em medicamentos, comprimidos, xaropes, mililitros e miligramas.
– Quanto pesa a Eliane?
– Trinta quilos – diz a tia.
Faço as contas de cabeça e deixo toda aquela gente boquiaberta.
– A receita não se avia na farmácia. O medicamento não vai custar dinheiro. Não é xarope, não é comprimido. Eliane, vem aqui.
Ponho-me de pé e abraço com força aquele corpinho franzino. Imediatamente ela rodeia a minha cintura e encosta a cabeça ao meu corpo.
– É isto que eu receito. Só isto. Um abraço muito apertado de quatro em quatro horas.
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