No momento em que começo a escrever esta crónica, o último feito de Trump foi ter bombardeado um país soberano e raptado o seu líder. Daqui a uns minutos já pode ter mandado invadir a Venezuela ou dado ordens para matar a agora presidenta. Ele é todo-poderoso.
Parece razoavelmente evidente que as ações levadas a cabo não passam de um “estão a ver o que eu fiz? Agora toca a fazer o que eu quero”. Um dos problemas é que dá toda a ideia de que o próprio Trump e a corja de alucinados sanguinários que o segue não sabem bem o que fazer a seguir.
Deve ter sido muito excitante ter participado naquela espécie de missão de jogo de consola com tiros, explosões e uns bonecos, que por acaso eram pessoas de carne e osso, a irem pelos ares. Mas nem sequer se pensou no cenário seguinte. Ou seja, como ia proceder-se ao estabelecimento do colonato e quem seria o vice-rei. Sabia-se, claro, o que não se queria e não se deixou espaço para dúvidas: alguém legitimado pelo povo ou que quisesse fazer alguma coisa pelos venezuelanos.
Como não estou aqui para insultar a inteligência dos meus leitores, evitarei considerações sobre o que é a ditadura chavista, os propósitos trumpistas de levar a democracia e o bem-estar aos povos – os dirigentes da Arábia Saudita suspiraram – ou a luta contra o narcotráfico – o ex-Presidente hondurenho condenado a 45 anos de cadeia por ter inundado os Estados Unidos da América de cocaína e que Trump indultou deve estar transido de riso – ou as verdadeiras intenções da operação militar.
Agora, passados uns minutos, é capaz de haver suspeitas de que o rei Frederico X está envolvido no tráfico de crianças para redes de pedofilia. Pode já ter sido enviada a Força Delta para o prender. Se Mette Frederiksen não entregar a Gronelândia, será a próxima a ser detida. Pelo sim, pelo não, Katie Miller, mulher do chefe de gabinete de Trump, já publicou uma foto com a bandeira dos Estados Unidos da América a cobrir o próximo território americano.
Talvez tenha sido o Canadá a ser invadido porque, já se sabe, aquele país não faz sentido e estava muito melhor como outro estado dos EUA.
E a Colômbia também já está avisadinha.
Devem seguir-se outros. Olha, por que não os Açores? A verdade é que os Estados Unidos andam a ser roubados por Portugal há muitos anos com a renda da base das Lajes.
Portugal, na pessoa de Luís Montenegro, já tem parte da reação a esses futuros desenvolvimentos pronta: “Tomamos nota das declarações e garantias de Donald Trump e constatamos o papel dos EUA na promoção de uma transição estável, pacífica, democrática e inclusiva na _________ (colocar nome de país) com a maior brevidade possível.” Para quem não sabe, foi exatamente isto que o primeiro-ministro escreveu sobre o que se passou na Venezuela.
O tempo vai correndo e já passaram umas horas. É muito provável que já tenha dado ordem a Paulo Rangel para redefinir a posição portuguesa face à invasão russa da Ucrânia. Claro está que ninguém no Governo tem dúvidas de que a reação da Europa ao que se passou na Venezuela é uma ajuda preciosa à invasão russa? Que com esta atitude muitos mais ucranianos serão assassinados pelos russos? Logo, não vale a pena estarmos com conversas e temos de dar o benefício da dúvida a Putin. No fundo, o conceito de democracia de Putin é muito próximo do de Trump.
Prepare-se também um pequeno texto para quando acontecer a invasão de Taiwan pela China. Qualquer coisa que não incomode os chineses.
No fundo, o que Montenegro e a esmagadora maioria dos cobardes europeus estão a fazer é aceitar a velha nova ordem mundial. Aquela que dividia o mundo em zonas de influência. Nesta divide-se o mundo entre a Rússia, a China e os Estados Unidos da América.
Havia uma réstia de moral, de superioridade ética, de defesa de valores na Europa. Acabou. Já não há nada. A Europa nem deu luta, ajoelhou-se miseravelmente face a um fanfarrão de filme de série B.
Não foram os problemas internos, a dificuldade de lidar com as histórias dos vários países, as questões económicas. O mais extraordinário projeto de paz e prosperidade da História está a morrer às mãos de um bando de cobardes, de vendedores da honra e da dignidade dos povos que deviam representar. Chamberlain está bem vivo. Os Chamberlains de hoje também serão aplaudidos como ele foi. Também nos dirão que mais vale sermos escravos do que mortos. Aliás, é o que já nos dizem. E nós estamos a acreditar.
Amanhã ou depois, mais um país será invadido ou cederá a uma qualquer chantagem da Rússia, da China ou dos Estados Unidos da América. A uma escala mais pequena, o mesmo acontecerá com países pequenos que estejam próximos de grandes por esse mundo fora. O que conta é o tamanho do exército.
Havia um país que cometia muitos erros, que cuspiu demasiadas vezes no direito internacional, que teve muitos comportamentos imperiais. Fomos talvez demasiado tolerantes com ele. Mas, que diabo, ajudou tanto na defesa e na promoção de valores fundamentais, na construção de um mundo melhor para gente que tinha sido discriminada toda a vida. Mais do que tudo, era uma democracia. E sim, uma democracia merece sempre o benefício da dúvida, até no que faz fora de portas. Porque tem mecanismos de controle, porque há a capacidade de denunciar, porque vimos serem os cidadãos dessa democracia os primeiros a denunciar o que ela estava a fazer a outros povos e a travar os seus desmandos.
Essa América já não existe. As invasões e as ameaças vão sendo feitas ao mesmo tempo que se vão destruindo os checks and balances e se deixou de obedecer aos tribunais; quando um Presidente vende os seus serviços a quem lhe paga mais; quando prossegue a limitação à liberdade de imprensa; quando se ocupam cidades que não votam no partido certo e se trata pessoas como gado. A América não quer só mandar na parte do mundo que lhe toca, quer destruir a democracia liberal como está a fazer dentro das suas portas.
Acabo de ler The Summer Before the Dark. Um livro que conta um verão, o de 1936, que dois dos meus escritores favoritos, Stefan Zweig e Joseph Roth, passaram juntos. Terminei-o na praia dum país quente no dia 3 de janeiro. Não foi no de 1936, foi em 2026.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.