Quando uma criança volta à escola, a casa inteira reaprende a viver ao minuto. Retomam-se os horários e as atividades extracurriculares. Os despertadores tocam cedo. À porta das escolas voltam as filas de carros, os beijos rápidos e os abraços difíceis de largar. Pais e filhos desdobram-se numa nova rotina, e a alimentação entra, claro, neste ciclo. Entre a família e a escola, preparam-se também as refeições que acompanham as crianças ao longo do dia. É entre casa e escola que muitas aprendizagens se fazem – algumas delas dentro de uma lancheira. Lembro-me de ir para a escola com uma pasta a tiracolo, fechada por uma aba grande. Lá dentro iam livros, cadernos, o estojo de madeira com tampa deslizante. Na outra mão, levava a lancheira. Era a minha avó materna quem tratava dos pequenos-almoços e lanches. Eu era “uma pestinha a comer”, como ela dizia. Esquisita e com alguma preguiça de mastigar. De manhã, havia papas de milho, de aveia ou sopas de leite. Quando a escolha era um papo-seco com manteiga e leite açucarado, desfazia o pão na caneca e transformava aquilo numa espécie de sopa. Para a escola, os pedidos ficavam ainda mais particulares: pão com banana, pão com manteiga e chocolate em pó, bolachas Maria com o doce de tomate que a minha avó fazia e um triângulo de queijo, porque, apesar de esquisita, sempre gostei de queijo. Visto à distância, era tudo uma autêntica “mixórdia”. A minha avó aceitava aquelas combinações para garantir que eu comia, mas acrescentava sempre fruta da estação e um pacote de sumo. A fruta vinha das nossas idas ao mercado. Eu acompanhava a minha avó, que gostava de comprar tudo fresco e não era dada a guardar alimentos durante muito tempo. No mercado, a etiqueta resumia-se ao que o vendedor lhe dizia: de onde vinha o produto, quando tinha sido colhido ou pescado, como escolher o melhor. Muito antes de perceber que a origem de um alimento também conta uma história, já a minha avó me ensinava a perguntar por ela.
Ensinava-me a conhecer os alimentos, a exprimir preferências e a aceitar que, ao lado daquilo de que mais gostamos, tem de haver espaço para o que nos faz bem. Na geração dos meus filhos, a lancheira já não acompanha necessariamente a rotina diária. Grande parte da educação alimentar acaba entregue às instituições. Quando os meus filhos começaram a comer no refeitório, mesmo com várias opções à escolha, preferiam muitas vezes a lancheira de casa, pequena extensão da mesa da família. Preparar uma refeição para uma criança é desafiante. Procurei respostas junto do pediatra e em livros de nutrição infantil que me ajudassem a fugir ao óbvio. Hoje, a inspiração multiplica-se nas redes sociais. Fruta cortada com imaginação, pequenas sanduíches, combinações coloridas, práticas e nutritivas. Há dias, o meu neto viu a mãe comer de uma marmita organizada e cheia de cor. Em vez da tigela de sempre, pediu que lhe servissem os cereais na marmita da mãe. Os cereais eram exatamente os mesmos, mas a vontade de os comer nascera do desejo de a imitar. A relação com os alimentos cresce assim. Com o exemplo, a repetição, a curiosidade e a memória. Comer começa muitas vezes pelos olhos, sim, mas também pelo desejo de fazer como aqueles que amamos. Ainda hoje penso na minha lancheira e nas minhas combinações improváveis. Naquele tempo, eu via apenas o lanche. Hoje reconheço, entre as “mixórdias” e a fruta da estação, o cuidado, a paciência e a sabedoria com que a minha avó me alimentava. Sem que nenhuma de nós soubesse, cada ida ao mercado, cada escolha consentida e cada alimento acrescentado àquela caixa fazia parte da mesma aprendizagem. Dizem por aí, e bem, que há lições dentro de uma lancheira. A minha lição começava no mercado, passava pelas escolhas que a minha avó me deixava fazer e seguia comigo para a escola. Só mais tarde percebi que aprender a comer bem começa na liberdade de escolher, na curiosidade de provar e no exemplo de todos os que acompanham uma criança à mesa.