A 15 de maio de 2026, no Vaticano, Leão XIV assina a primeira encíclica do seu pontificado. A data não é coincidência. Cento e trinta e cinco anos antes, no mesmo dia, Leão XIII publicou a Rerum Novarum e nasceu, com ela, a Doutrina Social moderna da Igreja Católica. Robert Francis Prevost, cardeal agostiniano, ex-bispo de Chiclayo, no Peru, primeiro Papa norte-americano, vinculou explicitamente o nome papal ao predecessor que respondeu à Revolução Industrial. O documento chama-se Magnifica Humanitas. O subtítulo é simples: Sobre a Salvaguarda da Pessoa Humana na Era da Inteligência Artificial.
Dez dias depois, a 25 de maio, o texto é apresentado na Aula do Sínodo, no Vaticano. Leão XIV, contrariando o protocolo habitual, comparece em pessoa. Entre os convidados está Christopher Olah, cofundador da Anthropic. Não são, contudo, os rostos habituais de Silicon Valley que ocupam o centro da sala. Sam Altman, Sundar Pichai, Mark Zuckerberg, Satya Nadella e Jensen Huang permanecem nos códigos postais norte-americanos de onde se decide há três anos quase tudo o que conta. Não estão na sala. Mas estão em quase cada parágrafo do texto que Leão XIV acaba de promulgar.
Em 245 parágrafos, a Magnifica Humanitas faz pela IA aquilo que a Rerum Novarum fez pela Revolução Industrial: converte uma máquina em questão de civilização. Em 1891, Leão XIII chegou tarde à fábrica. Em 2026, Leão XIV chegou cedo ao algoritmo. Entre as duas datas está a velocidade a que a Igreja aprendeu a ler a sua época. E a velocidade a que a Europa desaprendeu.
LEÃO XIII CHEGOU TARDE
A Rerum Novarum chegou 131 anos depois do início convencional da Revolução Industrial inglesa, situado pela Britannica em 1760. Entre essa data e a encíclica, os teares chegaram à Bélgica, França equipou-se e a Alemanha completou a sua Revolução Industrial entre 1850 e 1871. Em todo esse período, a Igreja Católica permaneceu silenciosa sobre a condição operária como categoria distinta. Pio IX, em dezembro de 1864, anexou o Syllabus Errorum à encíclica Quanta Cura: oitenta proposições erradas que iam do liberalismo ao racionalismo. Foi preciso esperar 13 anos após a eleição de Leão XIII em 1878 para que a Igreja falasse. Quando falou, falou bem. Mas falou tarde.

A Magnifica Humanitas surge num outro tempo. O ChatGPT foi lançado pela OpenAI a 30 de novembro de 2022. Atingiu 100 milhões de utilizadores em dois meses, mais depressa do que qualquer produto digital antes dele. Em poucos anos, a Inteligência Artificial generativa saiu dos laboratórios e entrou nas escolas, nos escritórios, nos tribunais, nos hospitais, nas campanhas eleitorais e nos ministérios da Defesa. Em outubro de 2025, aproximava-se dos 800 milhões de utilizadores semanais. Três anos e meio depois, Leão XIV assina a encíclica que situa esta tecnologia na sequência direta da Revolução Industrial. A Igreja que se atrasara mais de um século face às fábricas inglesas antecipa-se agora à própria tradição comemorativa da Rerum Novarum, que apontaria para 2041. Leão XIV decidiu não esperar.
A Igreja levou um século a aprender a chegar a tempo. A Europa parece estar a fazer o caminho inverso.
BABEL EM MOUNTAIN VIEW
A imagem com que a encíclica abre é a Torre de Babel. Leão XIV escreve, no parágrafo nove: “A primeira escolha não é entre um ‘sim’ e um ‘não’ à tecnologia, mas entre edificar Babel ou reconstruir Jerusalém.” Não é metáfora teológica nem ilustração catequética. É descrição operacional. No parágrafo cinco, escreve: “Os principais motores do desenvolvimento são sujeitos privados, frequentemente transnacionais, dotados de recursos e capacidades de intervenção superiores aos de muitos governos.” A frase descreve cinco empresas norte-americanas. Amazon, Alphabet, Microsoft, Meta e Oracle deverão gastar em 2026, segundo projeções da CreditSights, um capital agregado superior a meio bilião de euros, próximo do produto interno bruto da Bélgica e mais do dobro da riqueza anual produzida em Portugal. Cerca de três quartos desse capital são afetos a infraestrutura de Inteligência Artificial. A Torre de Babel já não se ergue numa planície antiga. Ergue-se em centros de dados, cabos submarinos, chips e modelos fundacionais.
Pela primeira vez em 135 anos, é Roma a fornecer ao Ocidente a gramática moral para nomear a sua transformação industrial mais decisiva
A concentração não é apenas de capital. É de modelos, infraestrutura e capacidade de cálculo. Em 2024, foram produzidos 40 modelos de Inteligência Artificial de fronteira em instituições norte-americanas, 15 na China e apenas três na Europa. Treze para um contra o continente que inventou a impressora e o motor a vapor. Não são estatísticas de inovação. São sinais de poder.
A mesma assimetria aparece na infraestrutura. 70% do mercado europeu de cloud é controlado por três fornecedores americanos. Os processadores gráficos que treinam quase tudo o que conta saem da Nvidia. A torre tem cinco códigos postais. Quem não calcula obedece.
Aqui, Leão XIV introduz a categoria que faltava ao léxico ocidental. No parágrafo 110, escreve: “Desarmar a IA significa subtraí-la à lógica da competição armada, que hoje não é apenas militar, mas também económica e cognitiva.” E acrescenta: “Desarmar significa quebrar esta equivalência entre poder técnico e direito de governar.” Não regular. Não conter. Não alinhar. Desarmar. O verbo é ativo, e a sua escolha não é teológica. É política. No parágrafo 107, sintetiza: “Não precisamos de uma IA mais moral, se esta moral for decidida por poucos.”
CRIANÇAS DO CONGO E GALÉS DIGITAIS
Nos parágrafos 173 a 176, a Magnifica Humanitas faz aquilo que nenhum Papa antes tinha feito: pede formalmente perdão, em nome da Igreja, pela cumplicidade histórica com a escravatura, cita bulas do século XV que a regularam e legitimaram, e diz, na mesma página, que ela não acabou. “No mundo da IA, nada é imaterial ou mágico”, escreve Leão XIV. E acrescenta a imagem mais dura do documento: “Corpos marcados, mutilados, consumidos para que o fluxo do cálculo não se interrompa.”
A frase parece literária. Não é. No subsolo da República Democrática do Congo, com cerca de dois terços da produção mundial de cobalto, mantém-se uma mineração artesanal onde Amnistia Internacional, UNICEF e Departamento de Trabalho dos EUA têm documentado, há anos, trabalho infantil em condições perigosas, por remunerações que descem a valores entre um e dois euros por dia. Cada chip que treina Inteligência Artificial bebe, em parte, daquela cadeia. Não começa no ecrã. Começa no subsolo.

A cadeia humana é igualmente exposta. Em janeiro de 2023, a Time documentou que a OpenAI subcontratou a Sama para treinar o ChatGPT na deteção de conteúdo tóxico. Cerca de 200 trabalhadores quenianos, em Nairobi, leram durante meses descrições gráficas de abuso sexual de menores, tortura e bestialidade, por entre cerca de 1,20 e 1,80 euros por hora. A OpenAI pagava à Sama perto de 12 euros por hora por cada trabalhador. A diferença ficava pelo caminho. A imprensa francesa chamou-lhes forçats du numérique. Galés do digital.
Daniel Motaung, despedido em 2019 por tentar sindicalizar colegas, processou a Meta e a Sama em 2022. Em setembro de 2024, o Tribunal de Recurso queniano admitiu o caso coletivo de 185 ex-moderadores. Quando Leão XIV assina a encíclica, o processo continua aberto.
A cadeia genética completa o quadro. No parágrafo 178, a encíclica nomeia uma categoria nova: as “novas terras raras do poder”. Em março de 2025, a 23andMe entrou em insolvência e os dados genéticos de mais de 15 milhões de pessoas passaram a fazer parte de uma disputa judicial, política e ética sobre quem pode controlar, transferir e explorar informação biológica pessoal. É o precedente ocidental do que pode acontecer, em maior escala, no Sul Global. Pela primeira vez, um Papa une três cadeias num único pedido moral: crianças que extraem minerais no subsolo congolês, moderadores que absorvem horror em Nairobi para treinar a máquina, pessoas cujo ADN se transforma em ativo transferível. Respondem à mesma pergunta: que humanidade está a ser consumida para que a máquina pareça inteligente? Leão XIV coloca-as na mesma continuidade moral daquilo por que pede perdão.
O QUE BRUXELAS NÃO SOUBE DIZER
A oito dias da assinatura de Leão XIV, a 7 de maio de 2026, Conselho e Parlamento Europeu chegaram a acordo provisório sobre o Digital Omnibus on AI. O texto adia o coração do AI Act, o regime aplicável aos sistemas de alto risco, de 2 de agosto de 2026 para 2 de dezembro de 2027. Dezasseis meses de adiamento. Bruxelas, que demorou quase três anos a aprovar o regulamento, decidiu na semana anterior à encíclica que precisaria de mais um ano e meio. A Comissão justificou-o com a preparação de normas técnicas. A leitura política é mais direta: Bruxelas recuou perante a pressão combinada da indústria, dos Estados-membros e da própria complexidade técnica que criou.
Entre o adiamento do AI Act e a assinatura da Magnifica Humanitas passaram oito dias. Uma Bruxelas que decidiu esperar mais 16 meses e uma Roma que decidiu não esperar 15 anos.
O Regulamento (UE) 2024/1689 tem 113 artigos. A Magnifica Humanitas tem 245 parágrafos. A diferença não está no comprimento. Está no género. O AI Act classifica, documenta e sanciona. Faz o que a regulação deve fazer: administra. A encíclica não administra. Nomeia. Diz “desarmar”, diz “pedido de perdão”, diz “novas terras raras do poder”, diz “corpos consumidos para que o fluxo do cálculo não se interrompa”, diz “arquitetura da visibilidade”.
Há quem diga que Bruxelas fez o que podia, dentro das competências regulamentares que tem, e que a ética cabe noutra esfera. O reparo é justo, mas insuficiente. O AI Act não foi proposto, em 2021, como instrumento técnico modesto. Foi proposto com a ambição declarada de uma “liderança global em Inteligência Artificial confiável”. Liderança global pede mais do que normas técnicas. Pede uma palavra civilizacional. Foi essa palavra que Roma escreveu primeiro.
A EUROPA REGULOU. FALTA-LHE PRONUNCIAR
Apenas 13,5% das empresas europeias com dez ou mais empregados usavam tecnologias de Inteligência Artificial em 2024, segundo o Eurostat. A Irlanda, em 2024, consumiu 21% da eletricidade nacional em centros de dados. O conjunto dos centros de dados da União Europeia pode chegar aos 115 terawatts-hora em 2030, segundo estimativas da Agência Internacional de Energia, próximo do consumo elétrico anual combinado de Portugal e Grécia. A Europa não regulou em cima de uma infraestrutura própria. Regulou em cima de torres alheias, alimentadas por eletricidade que cumpre cálculo decidido em Mountain View, Redmond e Seattle.
A Europa quer ser árbitro do jogo. Aluga aos americanos o campo, o relvado, os holofotes, as câmaras e, cada vez mais, a própria interpretação das regras. Regula como legislador uma infraestrutura onde ainda vive como inquilina. A lei chega muitas vezes depois da arquitetura. Quando chega depois, já não regula apenas o futuro. Negoceia com o poder que entretanto se instalou.
Leão XIV pede formalmenteperdão, em nome da Igreja, pela cumplicidade histórica com a escravatura, cita bulas do século XV que a regularam e legitimaram, e diz, na mesma página, que ela não acabou
A Magnifica Humanitas oferece à Europa a palavra que lhe falta. Não a palavra técnica, que Bruxelas tem. A palavra civilizacional, que Roma escreveu primeiro. Pela primeira vez em 135 anos, é Roma a fornecer ao Ocidente a gramática moral para nomear a sua transformação industrial mais decisiva. No parágrafo 106, Leão XIV escreve: “Não basta invocar genericamente a ética: são necessários quadros jurídicos adequados, vigilância independente, educação dos utilizadores, uma política que não renuncie à sua missão.” É um caderno de obrigações que Bruxelas tem em rascunho, mas que ainda não articulou sob um arco. O arco está agora dado.
Se o século XIX perguntou quem possuía as fábricas, o século XXI pergunta quem possui os datasets, os centros de dados e as narrativas que treinam as máquinas. Essa é a nova questão social: não apenas quem trabalha, mas quem calcula; não apenas quem produz, mas quem define a realidade dentro da qual todos passamos a viver.
Roma já respondeu. Resta saber se Bruxelas tem o vocabulário para a ouvir.