“De nenhum fruto queiras só metade”
Sísifo, Miguel Torga
Depois de dois encontros intensos naquele mesmo hotel, onde podiam esquecer o mundo exterior, ela esperou que se instalasse entre ambos uma espécie de regularidade inevitável. Não apenas do desejo físico, mas da urgência de descobrir dois corpos e duas geografias emocionais que já não tinham tempo para jogos adiados. Imaginava mensagens impacientes, convites súbitos, o impulso quase irracional de voltar a tocar lentamente aquilo que os tinha desorganizado tão repentinamente.
Passaram-se dias a mais. Ela sabia que ele acabaria por telefonar. Não por uma qualquer ciência, nem por qualquer uma dessas intuições femininas que as revistas costumam exagerar com deplorável insistência. Simplesmente, porque certas memórias têm uma persistência quase administrativa. Ficavam arquivadas em sítios recônditos do corpo e reapareciam, quando menos se esperava.
A timidez dele (que inicialmente lhe parecera quase comovente) desfizera-se ao primeiro contacto como verniz mal seco. O homem que surgira por baixo dessa hesitação tinha, na verdade, pouco de tímido. Havia nele uma sofreguidão meticulosa, uma aplicação quase devota no modo como lhe percorria o corpo, como se executasse uma tarefa há muito estudada e finalmente autorizada. Ela, que não era ingénua nem estreante nas artes do desejo, surpreendera-se ao descobrir que ainda existiam lugares do corpo suscetíveis de espanto. Ele atiçava-lhe a curiosidade. Vislumbrava no seu olhar profundo, movendo-se em ziguezagues discretos entre a sua boca e o decote acentuado pelo soutien push-up (pequeno artifício para iludir a gravidade inevitável do corpo de meia-idade, uma tensão quase adolescente). Ainda assim, ela revelava-se com naturalidade, a maturidade do corpo misturava-se ao humor cínico, por vezes, quase arrogante, que a sua voluptuosidade alimentava diante dos homens. Havia nela uma segurança inquietante, um magnetismo que se tornava ainda mais inesperado, quando, no meio da leve provocação do flirt, desviava inconscientemente a conversa para assuntos improváveis.
Todavia, os dias passaram. Um. Dois. Três. E mais alguns. A ausência de contacto começou a operar o seu lento trabalho de corrosão. Não sentia mágoa. Era mais um recuo da expectativa. O corpo, que primeiro conservara a memória dele com uma nitidez quase ofensiva, começou a ceder terreno à razão, que acabava por impor ordem às extravagâncias da carne. Quando ele finalmente telefonou a propor um novo encontro, respondeu-lhe incomplacente que não. Disse-lho sem cenas e subtilezas teatrais. Explicou apenas que estava habituada a homens capazes de investir tempo e algum risco no desejo. Tinha-lhe, no início, facilitado o caminho, coisa que raramente fazia, e percebeu que não desejava continuar a desempenhar o papel de guia turístico das hesitações masculinas. Não lhe interessava conduzir ninguém pela mão até à intimidade. Queria colher um fruto amadurecido. Queria sentir que ele era capaz de avançar por vontade própria, mesmo através daqueles terrenos pantanosos de indefinição, onde tantos homens da sua idade acabavam atolados entre o medo do presente e a nostalgia do passado. Talvez ele acabasse por compreender isso. Talvez. Talvez, com tempo, aprendesse a procurá-la de outra maneira.
Algumas aprendizagens, supunha, poderiam ter mais valor quando descobertas sem explicador, sem aquelas explicações excessivas que estragam o mistério e domesticam o desejo. Para se perder nele, teria primeiro de sentir que ele era capaz de a encontrar. Estar com alguém (aprendera-o devagar, mas aprendera) não poderia ser apenas regressar ao mesmo quarto de hotel, repetir gestos competentes ou reconhecer atalhos do corpo. Conhecer alguém exigia outra espécie de coragem.
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