Ainda antes do Natal, mas já no final do ano, retive ao longo de uma semana que a linha que separa o escrutínio relevante e de salutar do doentio é cada vez mais ténue. Ora, se é verdade que o tema da carreira do influente Luís Marques Mendes na agenda mediática era uma questão de tempo, também não deixa de o ser que o mínimo exigível seria não vir ao de cima no registo em que veio, através de tamanha baixeza e de algum desespero por parte de praticamente todos os outros candidatos.
Até porque Marques Mendes é alguém que teve semanalmente, de há alguns anos para cá, um programa na televisão e onde todo esse escrutínio à sua vida profissional estava mais ou menos presente.
Mas vamos por partes.
Marques Mendes esteve afastado da política durante 18 anos (!), encerrou a sua empresa familiar antes de se candidatar e agiu de forma bastante distinta do primeiro-ministro no caso da Spinumviva. Diametralmente distinta. Nada disto impediu que logo após uma denúncia anónima que o Ministério Público desconsiderou, a campanha negra fosse desencadeada nos termos em que foi pelo ex-líder da Iniciativa Liberal e aspirante ao cargo de Presidente da República, João Cotrim de Figueiredo.
Pela segunda vez e no espaço de menos de um ano, fiquei a saber que aquele que supostamente é o candidato do partido mais liberal do País tem um olhar muito particular e seletivo sobre a própria doutrina. Não deixa de ser extraordinário. Cotrim não pediu transparência, insinuou coisas, tal como Gouveia e Melo depois, e todas estas sem que consigam provar porque parece que não é de hoje que se sabe que Marques Mendes não cometeu qualquer ilegalidade. No entanto, foi mais importante para Cotrim de Figueiredo a degradação do debate público, forma e modo, bem como a mensagem que passa para o eleitorado “jovem”, onde parece que cativa mais do que qualquer outro ao momento: se querem uma carreira no privado onde também ganham dinheiro, esqueçam a política depois.
Não é só a contaminação da hipócrita venturização da política em todo o seu esplendor. É o liberalismo contra si próprio.
Estes fundamentalismo e justicialismo da transparência acabam por afastar muita gente com ideias e espírito de serviço, mas que não estão naturalmente dispostas a enlamear-se sempre que se candidatam a um cargo político. Perde-se qualidade e ganha-se em oportunismo. O mesmo que deveria obrigar um eurodeputado a dizer com clareza, aí sim, que não suspendeu e mal o seu mandato durante os poucos meses da sua candidatura presidencial porque não quis. Contrariamente ao que sugeriu, bastar-lhe ia ter feito as diligências necessárias com o ministério e os serviços correspondentes em Portugal.
O que mais preocupa é que este acentuar do justicialismo e das amarras que muitos insistem em confundir com escrutínio, sempre que lhes dá jeito, se vá adensando em 2026. Enquanto assistia aos primeiros minutos do debate entre António Filipe e António José Seguro, pensei isso mesmo. A folha em branco dos clientes do primeiro, segurada com orgulho, estava em linha com a visão anticapitalista que é a do comunismo. Já o segundo, carregando o mesmo sentimento porque os clientes se restringiam a empresas de “vinho e azeite”, era exemplificativo de algo diferente.
Um certo ar dos tempos.
O retrocesso para um Portugalinho em que tudo se confunde intencionalmente e em que o silêncio ou a quietude vale mais do que a “palavra” ou do que o “fazer”. Em que a “ambição” serve essencialmente como chavão ou slogan. Ou, ainda, em que as mulheres e os homens são tratados como crianças que não conseguem desempenhar um novo papel porque ficariam reféns de uma vida profissional passada, mesmo que tenham demonstrado e demonstrem um enorme sentido de Estado. Imaginem Mário Soares ou Jorge Sampaio – que foi sócio de um dos escritórios de advogados mais influentes de Lisboa antes de ser Presidente da República – e façam o paralelismo com os 22 clientes de Marques Mendes. Pois. Este discurso tem origem numa parte do País que julga que todas as pessoas ou a maioria não têm compasso moral e que, lá está, todo e qualquer indivíduo é estanque, pouco inteligente, menos adaptável ainda e sem a capacidade de distinguir tudo a partir do momento em que está no cargo mais alto do País.
Tudo isto é sinónimo de um certo fado que corrói e afasta ou afastará muitos daqueles que dizemos que gostaríamos de ter na política. Oxalá esta descida vertiginosa não se acentue em 2026. Contrariamente ao que penso.
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