Já ouviram falar na “bolha”? Claro que ouviram. Hoje, qualquer ideia, qualquer opinião, ou até o mais anódino desabafo, acaba por ir lá parar. E é natural que assim seja. Quando alguém usa a palavra, quase nunca pretende referir-se a um glóbulo gasoso ou a um inchaço passageiro: fala antes dessa redoma invisível onde nos fecham — ou onde nos fechamos — por medo, ou hábito, ou mera estupidez doméstica. “Vives numa bolha”, dizem-nos, como quem lança um “J’accuse!”. E nós, criaturas impressionáveis, ficamos logo a achar que sim, que somos culpados de qualquer coisa séria.
Muitas vezes, num misto de condescendência e superioridade moral mandam-nos sair dela: — “Sai da bolha!”, já alguém deverá ter ouvido. No entanto, há uma coisa pior: quando se metem com os nossos. Quando alguém se atreve a insinuar: — “Os teus filhos vivem numa bolha.” Como se fosse um crime as crianças viverem num ambiente resguardado, organizado por quem as ama, submetidas às regras, às dietas televisivas e às peculiaridades religiosas dos pais. E nós, almas simples e crédulas, começamos logo a suspeitar de nós próprios, a imaginar que somos pequenos ditadores de sala-de-estar, esmagando assim a livre-determinação infanto-juvenil.
Pois eu digo que não. E digo com convicção: é bom viver na bolha. O mais sólida e apertada possível. À prova de intrusos. Toda a borboleta já foi lagarta. E toda a lagarta teve de passar por um casulo. Não há uma Primavera sem essa clausura prévia.
Para perceber isto, convém recordar uma coisa simples. Antigamente vivia-se em aldeias. Pequenas, íntimas, eram as bolhas de outros tempos. Feitas de pedras e de feno, de capelas, cafés e fontanários. Nesses tempos, não se dizia: “Vives numa aldeia”. Isto era assim porque ainda não se tinha alojado nos nossos espíritos essa pulsão contemporânea de “ter de ver o mundo”, essa mania turística de, através daquilo que a vista é capaz de vislumbrar, acumular impressões como se fossem sabedoria. Para isso existiam as histórias. Para que, permanecendo na aldeia, pudéssemos viver cem vidas através da vida dos outros.
Não se pense que é viajando e vendo muito, que se sabe mais da vida. Para se viver são precisas as histórias, esse grande projecto de desconhecido do outro. Sei de quem tenha dado três voltas ao mundo sem sair de dentro de si próprio. Viajaram em cápsulas e às cápsulas regressaram. E digo mais: a grande obsessão contemporânea com viagens é outra bolha. Uma bolha móvel. Uma bolha que flutua.
Poder-se-ia pensar, segundo este princípio, que quanto mais tempo na bolha, melhor. Mas não é assim. Isso é a síndrome de casulo.
O seu exemplo mais acabado é o do rapaz-larva: o Peter Pan contemporâneo, o adulto-bebé. Por não ter sido devidamente protegido mas, pelo contrário, ter sido lançado demasiado cedo à superstição moderna do “ele que escolha”, criou uma dependência tardia. Não se metamorfoseou em borboleta. Ficou larva para sempre. É um caso em tudo inverso ao exposto até aqui: o do miúdo “livre” que se tornou adulto vulnerável, sentado no sofá, incapaz de atravessar uma porta pelo próprio pé, comendo da mesma inesgotável malga de Corn Flakes de sempre, deslizando com melancolia — e, na melhor das hipóteses — o dedo indicador pela superfície de um pequeno vidro rectangular. É um cidadão dócil que aceita o que lhe dão em troca de sossego e colo.
Uma maneira eficaz de gerar rapazes-larva e raparigas-larva é através da exposição prematura ao grotesco. E, se “sair da bolha” significar ligar a televisão às sete da tarde para, no canal do Estado, pago por nós, dar de caras com desenhos animados obscenos disfarçados de “educação sexual”, então a opção aldeã de viver numa bolha é a opção da virtude. (Poupar-vos-ei à sordidez dos detalhes e nem menciono o título do programa que algum iluminado do segundo canal mandou vir de Espanha para fazer as vezes da Rua Sésamo, como se existisse nisso algum tipo de arrojo intelectual). É que bonecada despida a horas de gente decente não é arrojo, é uma capitulação estética e moral, é pornografia pedagógica com selo oficial da República, e pior: é uma macumba conjurada especificamente para dinamitar a fronteira íntima que permite a uma criança continuar a sê-lo. Produzindo, precisamente, o tipo de alma quebradiça do rapaz-larva.
Fora da bolha, está o risco real e, entre tantos, na vanguarda, o Estado como agressor moral activo.
Chegará um tempo em que bolha acabará por ceder: afinal, toda a aldeia tem a sua saída. Mas é preciso que ceda para dentro, por ocasião de maturidade e não de invasão. Porque o que vem de fora e se acomoda do lado de lá do muro não passa de uma distorção de mundo, uma tropa macaca que quer arrombar os portões da privacidade à força de estrondo e imundície.
Quando esse tempo chegar, sair-se-á; eventualmente. Para a outra aldeia, ou para a cidade. Assim que se apanham a jeito, lá vão elas a esvoaçar. Borboletas esplêndidas, a caminho da Primavera. Até lá deixem-nas estar em paz, que a paz, esse bem de primeira necessidade, passou a derradeiro luxo neste Inverno sombrio do mundo.
Manuel Fúria é músico e vive em Lisboa
Manuel Barbosa de Matos é o seu verdadeiro nome.
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