Celebra-se esta semana o 25.º aniversário da película “Pretty Woman”, com Julia Roberts e Richard Gere. Muitas vezes descrito como uma comédia romântica, o filme é, em muitos aspectos, uma obra de ficção científica. “Pretty Woman” é protagonizado por duas pessoas: uma exerce uma actividade profissional moralmente duvidosa; a outra é uma prostituta. No entanto, a prostituta sofre maior discriminação social do que o empresário que ganha a vida a fechar empresas e a despedir pessoas.
O primeiro facto fantasioso não é esse. O filme começa com um homem a parar o carro para pedir indicações a uma mulher. Comparada com isto, a Guerra das Estrelas é mais realista que Flaubert. Poucos homens param para pedir indicações, e os que o fazem não pedem indicações a mulheres, como é evidente. É um facto cientificamente comprovado que as mulheres não sabem orientar-se na estrada.
O segundo facto incrível é este: a prostituta, que tem a aparência da maior estrela de Hollywood e cobra 100 euros à hora, não tem dinheiro para pagar a renda do pardieiro em que vive. Percebemos imediatamente que se trata da prostituta mais casta da história da prostituição. Fica claro que o príncipe encantado (o psicopata social que destrói postos de trabalho) vai acabar por casar com ela, na medida em que só poderia apaixonar-se por uma prostituta se ela não fosse demasiado prostituta. Esta prostituta é apenas um bocadinho prostituta, pelo que ainda pode aspirar viver um conto de fadas. Em certo ponto do filme, a prostituta dirige-se para a casa de banho com qualquer coisa escondida na mão. O exterminador da classe operária intercepta-a e diz-lhe que não admite que ela consuma drogas. Ela abre a mão e dá–se um milagre. Não é droga. É fio dental, senhor. As outras prostitutas não são muito lindas, nem cuidam tanto da saúde das gengivas, pelo que merecem andar na vida.
Terceiro facto extraordinário: a prostituta é escorraçada de uma loja cara, em Beverly Hills, por estar vestida de galdéria. Ora, se as lojas caras de Beverly Hills escorraçassem as clientes que se vestem de galdéria, as irmãs Kardashian não compravam roupa desde 1985. Quase todas as artistas que integram o mundo do espectáculo norte-americano andavam nuas. Há que ter cuidado com estes filmes: uma coisa é ficção científica, outra é o absurdo infrene.