Vai ser estreado – já foi em Inglaterra – um filme acerca da vida do matemático e estatístico inglês Alan Turing, entre outras coisas percursor da informática. Este homem inventou, na Segunda Guerra Mundial, um procedimento incrível (ou uma máquina – já não me lembro, mas é irrelevante), através do qual se conseguiram descobrir as mensagens encriptadas dos nazis (que, por sua vez, as faziam através das “Enigma”, as suas encriptadoras). Esta sua descoberta terá permitido aos aliados apressar o fim da guerra a seu favor, facto que Churchill considerou da maior importância.
Retenho esta notícia por várias razões.
Primeiro, por o sobre-humano trabalho deste homem ser quase todo baseado em cálculo de probabilidades – uma área do saber que me é próxima -, no sentido de excluir, de entre as quase infinitas hipóteses de encriptação, as mais improváveis de atingir um resultado discursivo coerente e ir seleccionando as mais prováveis até chegar a uma que fizesse sentido qualquer que fosse o conteúdo da mensagem (a solução verdadeira).
Segundo, por já ter resposta para quem me pergunta “a Matemática serve para quê?” (pergunta mais frequente desde que a minha filha mais nova tirou o curso de Matemática). Posso responder: serve para ganhar guerras mundiais, libertar os homens da opressão e salvar a “civilização ocidental”.
Terceiro, e já falei disso aqui um dia, para explicar que as pessoas se devem envergonhar tanto de não “perceber nada de números” como de falar mal a sua língua. E que, por isso, se devem esforçar por ter mais conhecimentos de matemática – em vez de, por vezes, parecerem ter quase orgulho na ignorância de tal “mesquinhez” – e, sobretudo, devem convencer os mais novos da necessidade imperiosa de tal aprendizagem.
Por último, e principalmente, pelo resto da história.
Depois de ter realizado estes feitos heroicos para a Humanidade e de ter, em grande medida, salvado os seus concidadãos, descobriram que o homem era gay. Foi condenado pelo tribunal por ter tido experiências homossexuais e foi obrigado a um tratamento hormonal para lhe “diminuir o apetite sexual”. O que resultou em alterações corporais (corpo mais “redondo”, crescimento de “maminhas”, etc.) e, consequentemente, numa enorme humilhação pública. Passado pouco tempo, suicidou-se.
Dir-se-á: mentalidade dos tempos. Como se diz da Inquisição. Mas, anote-se, isto aconteceu em Inglaterra há 60 anos (ele matou-se em 1954). De qualquer forma, o conservador David Cameron (para que servem os conservadores, se não for para estas coisas?) disse, há um ano ou dois, não poder pedir desculpa (ou “reabilitar o nome”, já não sei, a ideia é a mesma) porque o homem foi condenado por uma lei da altura, e não se pode perdoar uma pessoa que comete crimes contra as leis vigentes. Extraordinário, não é?
Não sei o que posso dizer mais, mas já tenho resposta para quem me perguntar: “a tradição serve para quê?”. Responderei: serve para levar ao suicídio os seres mais humanos que salvam a vida aos seres menos humanos que respeitam acima de tudo a tradição.
Posso ainda dizer que fico contente, pela parte que me toca também a mim, que dirigentes de dimensão, como o Churchill, não se tenham lembrado de pedir aos responsáveis pela elaboração e pela manutenção das leis britânicas da altura, ou aos juízes, para serem eles a tentar descobrir a solução da encriptação nazi.
Para terminar, e já que estou zangado, registo o quão impressionante é o ódio que os pequenos homens têm aos grandes homens. Se calhar nem é bem ódio, mas o natural alheamento de uma formiga perante o voo de uma ave. Ou, adaptando uma frase humorada que li um dia, diria que o entendimento que os pequenos homens têm dos grandes homens é semelhante ao que os pássaros têm da ornitologia.
Não vi o filme. Espero que seja digno da dimensão que este caso exige.