Por razões “literárias”, tive, este mês, de ir a Coimbra, numa sexta-feira, para participar num debate promovido pela Faculdade de Direito. Explico-me: sou coautor, com Maria João Valente Rosa, de dois livros publicados pela Fundação Francisco Manuel dos Santos sobre a sociedade portuguesa contemporânea (Portugal: os números e Portugal e a Europa: os números). A Faculdade de Direito organizou um seminário no âmbito do projeto Sociedade, Probreza(s) e Exclusão Social e convidou-nos para apresentarmos os dados essenciais que analisamos nos nossos livros. Daí a minha ida a Coimbra.
Como a minha participação estava agendada para as 10 horas da manhã e vivo no concelho de Cascais – e não chego atrasado, ao contrário da maioria dos portugueses – saí de casa às 6 e 45. E decidi ir pela autoestrada, para chegar cedo, tomar o pequeno-almoço e dar uma última vista de olhos à minha apresentação que, contrariado, tive de fazer em powerpoint.
A autoestrada de Cascais, a Circular Regional Exterior de Lisboa e a autoestrada do Norte estavam na minha rota. Assim foi. Para meu espanto, num dia antes do fim de semana, a partir do Carregado fiquei praticamente sozinho no asfalto. Quer dizer: de vez em quando, lá se aproximava de mim um carro ou me cruzava com outro que seguia no sentido de Lisboa. Mas muito longe da minha experiência das autoestradas portuguesas, normalmente a abarrotar de trânsito, sobretudo no eixo Lisboa-Porto.
Lembrei-me, então, dos números: só nas autoestradas da Brisa, em 2013, o tráfego caiu 2,6 por cento. Mas, no ano anterior, 2012, a queda tinha sido de 14 por cento. Quem consultar os muito secos e narcotizantes relatórios do Instituto de Infraestruturas Rodoviárias sobre a Rede Nacional de Autoestradas só fica com uma certeza: a queda da circulação é geral e intensa. Segundo a imprensa, em alguns casos, as quebras superam 50% face ao ano de 2010 (antes da chegada da troika). Estava ali, do outro lado do para-brisas, a evidência: num dos países da União Europeia com mais quilómetros de autoestradas, estas são igrejas vazias, à espera de fiéis que tardam.
Segundo o Orçamento de Estado de 2014, os encargos com as autoestradas em sistema de Parceria Público Privada serão de 1 166 milhões de euros. Sérgio Azevedo, o deputado do PSD autor do livro PPP e o Custo de um Estado Fraco, estima o custo total destas em 12 mil milhões de euros. Ou seja, muito dinheiro. Muito, mesmo.
Mas, então, porque estão vazias? Se custam tanto dinheiro ao Estado – e, portanto, aos contribuintes – por que razão temos de circular em estradas nacionais cheias de buracos e a abarrotar de trânsito?
É o que me acontece todas as semanas, na estrada nacional entre Lisboa e Leiria, viagem que faço com frequência, a meio da semana, por razões profissionais. Como os pesados de mercadorias optam por esta via para evitar as portagens alarves que se praticam em Portugal (a minha deslocação a Coimbra custou 35 euros em portagens, o equivalente a dois dias de ordenado mínimo nacional), a estrada está cada vez pior. Ou seja, o Estado terá, em breve, de fazer obras ou aceitar o ónus de pôr em perigo a vida dos seus cidadãos. Será, portanto, forçado a gastar dinheiro duas vezes: nas PPP, cujo pagamento não pode (ou não quer) evitar, e na reparação da estrada nacional por causa da sua sobreutilização.
Como a inteligência parece não abundar neste Governo, fica aqui a sugestão: porque não “abrir” as autoestradas? Ou fazer descontos? Ou criar um passe para utilizadores frequentes? Por estranho que pareça, sempre lhe ficaria mais barato – já que estão a ser pagas por todos, que os cidadãos as usem, retirando o trânsito das perigosas e infestadas estradas nacionais. Evitar-se-iam, assim, luxuosas catedrais vazias.