O resultado da cimeira Xi Jinping-Donald Trump, anunciada para estes dias 14 e 15, poderá não ser tão “incrível” nem tão “histórico” como o Presidente americano já antecipou. A preparação, no meio de uma guerra no Médio Oriente que parece interminável, também não terá sido muito tranquila. (As datas, avançadas há dois meses pela Casa Branca, só foram confirmadas pelo governo chinês esta segunda-feira). Mas o que um jornal de Hong Kong descreveu como “um encontro entre o líder mais previsível do mundo e o mais imprevisível” terá sempre impacto global. É a mais importante relação bilateral da atualidade, marcada por uma acesa rivalidade económica e tecnológica.
Há duas semanas, numa conversa telefónica com o homólogo norte-americano, Marco Rubio, o ministro chinês dos Negócios Estrangeiros, Wang Yi, sintetizou assim a visão de Pequim: “Ambas as partes devem salvaguardar a estabilidade conquistada com tanto esforço, preparar-se adequadamente para as principais agendas de interação de alto nível, alargar as áreas de cooperação, gerir as divergências, explorar a construção de uma relação sino-americana que seja estratégica, construtiva e estável.” Segundo o relato da agência noticiosa Xinhua, Rubio manifestou idêntica posição: Estados Unidos e China “devem manter a comunicação e a coordenação, respeitar-se mutuamente, lidar adequadamente com as divergências, acumular resultados positivos para as interações de alto nível e procurar alcançar a estabilidade estratégica nas relações bilaterais”.
“Estabilidade” é agora a palavra-chave. “Temos diferenças, mas não podemos permitir que essas diferenças minem a estabilidade”, resumiu um professor da Universidade Chinesa de Negócios Estrangeiros.
Para Pequim, “o risco maior é a questão de Taiwan, que diz respeito aos interesses principais da China”, enfatizou Wang Yi a Marco Rubio. O “risco” está relacionado com o estatuto da ilha onde se refugiou o antigo governo chinês depois de os comunistas terem ganhado a guerra civil no continente, em 1949, e que continua a denominar-se República da China (sem o adjetivo popular).
Pequim defende a “reunificação pacífica”, mas ameaça “usar a força” se a ilha declarar a independência. Embora reconheçam que “só há uma China e Taiwan faz parte da China”, os Estados Unidos comprometeram-se a “assegurar a defesa” da ilha e vendem-lhe regularmente grandes quantidades de armamento.
A atual administração americana tem hostilizado alguns dos seus aliados europeus, mas em relação à China parece quase amigável. “Não penso que Trump tenha uma visão particularmente hostil da China”, disse o professor Da Wei. “A sua visão sobre a China é relativamente neutra, e ele está disposto a participar em certas ‘negociações’”. Além disso, “mostrou também um certo nível de respeito pela China e pelos seus líderes”.
Da Wei, nascido em 1973, é diretor do Centro de Estudos de Estratégia e Segurança Internacional da Universidade Tsinghua, em Pequim. As suas áreas de estudo são a política norte-americana e as relações China-Estados Unidos. “Na atual competição entre grandes potências, se a China conseguir manter um impulso sólido nos domínios económico e tecnológico e convencer a outra parte de que esta não pode garantir uma superioridade esmagadora e que, em vez disso, deve aceitar a realidade da coexistência, então acredito que a relação se tornará mais estável”, afirmou.
Não é fácil “aceitar a realidade”. Sobretudo para os Estados Unidos, que se veem a si próprios como o país mais poderoso do planeta. Depois de anos a tentar “conter a China”, Washington enfrenta agora um rival com poder quase equivalente e que responde taco a taco às suas ameaças.
Em nome da segurança nacional, os EUA limitam o acesso da China às tecnologias mais avançadas. No mês passado, Pequim respondeu da mesma maneira à pretensão de um gigante de Silicon Valley de comprar uma empresa chinesa de Inteligência Artificial, inviabilizando um negócio de dois mil milhões de dólares.
A chegada de Trump a Pequim está prevista para quarta-feira à noite, seguindo-se, dia 14, a cerimónia de boas-vindas e a primeira ronda de conversações. A segunda ocorrerá na sexta-feira, último dia da viagem. Xi Jinping deverá retribuir a visita até ao final de 2026 e os dois líderes poderão encontrar-se mais duas vezes este ano, à margem das cimeiras da APEC (Cooperação Económica Ásia-Pacifico) e do G-20, agendadas para novembro e dezembro em Shenzhen e Miami, respetivamente. Também por isso, convém que a cimeira de Pequim decorra numa atmosfera auspiciosa, arte que o protocolo chinês cultiva com especial minúcia. O programa inclui um passeio ao Templo do Céu, no sul da capital chinesa, onde os antigos imperadores promoviam rituais suscetíveis de gerar boas colheitas.
“No mínimo, os dois países poderão estabilizar a sua relação” e “no melhor cenário, poderão alcançar um acordo sobre Taiwan que permita uma solução pacífica”, escreveu o economista Yao Yang acerca daquela invulgar sequência de contactos. “Se isso acontecer, poderá trazer estabilidade e paz não apenas para os dois países, mas para todo o mundo durante várias décadas.”