No final de abril, no jantar de correspondentes da Casa Branca, um professor de 31 anos, munido com uma caçadeira, abriu fogo e atingiu um agente, sem conseguir, no entanto, passar o bloqueio de segurança que protegia o salão do hotel onde decorria o jantar que, anualmente, junta centenas de jornalistas e patrões dos média com os membros da Administração norte-americana.
O que se passou lá dentro, no entanto, é digno de uma fina análise sociológica… ou de ser transformado em memes satíricos para alimento das redes sociais, o que de facto sucedeu. Enquanto os agentes de segurança tiravam de lá os eleitos do povo – estavam presentes Donald Trump e JD Vance, assim como as respetivas mulheres –, foi muito notada a atitude de Robert F. Kennedy Jr., o secretário da Saúde. Os vídeos mostram-no a fugir, rodeado de agentes, deixando para trás a mulher, a atriz Cheryl Hines, completamente desprotegida. Ela caminha sozinha, atrás do grupo de homens que segue em formação tartaruga, blindando-se uns aos outros. Robert F. Kennedy Jr. é o político que diz que as “boas mães” não devem confiar nos especialistas médicos que as mandam vacinar os seus filhos.
Um dos pontos fulcrais do discurso ultraconservador e também base do discurso de várias religiões sobre as mulheres, é que estas, em troca de se submeterem aos papéis tradicionais que se espera delas, beneficiam da proteção dos homens. “Mulheres, sede submissas aos vossos maridos, como convém no Senhor. Maridos, amai as vossas mulheres e não as trateis com aspereza.” Epístola de São Paulo. O problema é que o amor é coisa muito subjetiva.
Várias notícias dão conta de uma trend (tendência) dos últimos meses nas redes sociais com a hashtag #AlpineDivorce. Aqui, as mulheres têm contado histórias de terem sido abandonadas pelos maridos, namorados ou amigos em montanhas, sobretudo depois de se mostrarem menos resistentes às caminhadas do que os homens que as acompanhavam.
O caso mais mediático, como explica a CNN, foi o de Kerstin Gurtner, uma austríaca de 33 anos, deixada pelo namorado, Thomas Plamberger, na parte mais alta dos Alpes por ela estar exausta. Kerstin morreu congelada e Thomas foi condenado por homicídio negligente.
Depois disso, muitas outras histórias surgiram. Ainda na CNN, a psicóloga Jo Hemmings explicou que este comportamento, homens que abandonam mulheres (e quantas mulheres são deixadas a criar os filhos sozinhas, por exemplo, nada de novo debaixo do sol), ganha uma outra dimensão na natureza selvagem, como o cenário da montanha, onde se forma uma hierarquia instantânea sobre quem lidera. “Seguir em frente, recusando adaptar-se ao outro, pode ser uma forma subtil de afirmar autoridade ou controlo”, disse.
É o Senhor das Moscas versão homens contra mulheres. Onde falha a empatia, sobra a necessidade de afirmar superioridade e domínio, algo tão presente no movimento “red pill”, a corrente de afirmação da masculinidade dominante e altamente tóxica, que tem vindo a ganhar lastro nas gerações de homens jovens.
Só que o outro lado falha redondamente. O lado em que é suposto cuidar. Ficam só na alegria, na saúde e na riqueza, fugindo na hora da tristeza, da doença e da pobreza. Até que o feminicídio os separe.