Os resultados desta segunda volta das Presidenciais são claros e concludentes naquilo que é mais importante: a esmagadora maioria dos portugueses continua a preferir a democracia e a recusar o radicalismo extremista.
António José Seguro foi o candidato que conseguiu personificar esse sentimento. Ao longo dos últimos meses, graças a uma campanha centrada na moderação e na afirmação do respeito pelos valores da Constituição, soube manter-se afastado do ruído, tantas vezes tóxico, que domina o debate político em Portugal. Dessa forma, acabou por aglutinar, no momento do voto, quase todos os que querem continuar a defender a democracia e um regime baseado na liberdade e no respeito pelos direitos humanos. E, mais importante ainda, ser recompensado por ser o único candidato que, de facto, tinha um discurso de unidade, em clara oposição ao de divisão, permanentemente gritado por André Ventura.
Em certa medida, a vitória de António José Seguro representa o triunfo de uma postura e de um discurso claramente em contracorrente com o estilo de debate e de combate político que, desde há uma década, se tornou norma em Portugal – e que explica, em grande medida, a ascensão de André Ventura.
Seguro recusou a crispação, os ataques constantes e o cavar de trincheiras em relação aos adversários. Mesmo quando as sondagens lhe davam apenas 6% dos votos como na noite da vitória, ele preferiu sempre o discurso positivo e o elogio ao País como comunidade. E, assim, indiferente aos prognósticos da bolha mediática e dos remoques de alguns barões das elites partidárias, acabou por consolidar uma imagem de homem de Estado, capaz de inspirar confiança, graças à humildade, a seriedade e, algo que, de facto, acabou por fazer a diferença no momento do voto: a decência.
Nesta peculiar eleição presidencial, António José Seguro acabou por demonstrar como se combate o extremismo e o crescimento do radicalismo de direita, representado pelo Chega: em vez de se deixar envolver no combate na lama, optou antes por elevar o nível do discurso e, acima de tudo, concentrar a sua atenção na grande massa de eleitores que, como se viu nesta segunda volta, continuam a defender a democracia e, com memória, não admitem que lhes digam que os “últimos 50 anos” foram um desastre para o País – como todas as estatísticas o podem demnonstrar.
O resultado está à vista. António José Seguro foi eleito com o maior número de votos de sempre numa eleição presidencial. E, contas feitas, teve mais do dobro dos votos de André Ventura – o homem que, no início da sua campanha, repetiu várias vezes que Portugal precisava de “três Salazares” para se poder endireitar. Foi exatamente isso que mais de dois terços dos portugueses rejeitaram nestas eleições. De uma forma esclarecedora: com os votos que obteve, Seguro teria derrotado até dois Venturas.