1. Na entrevista que dá, nesta edição, à VISÃO, o secretário-geral do PS, José Luís Carneiro, defende uma ideia pela qual se arrisca a ser ridicularizado – mas que é extremamente interessante: o PS é o 2º maior partido e ele próprio, e não André Ventura, é que é o líder da oposição. Dir-se-ia que o recém-eleito líder socialista entrou em fase de negação. Afinal o PS tem menos dois deputados do que o Chega, na Assembleia da República, e esse deve ser o critério, numa democracia representativa. No entanto, Carneiro agarra-se à ideia de que os socialistas tiveram mais votos: “Somos os que tiveram mais votos. E somos o mais importante partido do poder local democrático.” Se a primeira afirmação é verdadeira – os socialistas tiveram mais cerca de quatro mil votos do que o partido de André Ventura –, a segunda é temerária, a menos de dois meses de eleições autárquicas que podem desmentir o líder do PS. Em todo o caso, é bem possível que José Luís Carneiro seja ridicularizado pela afirmação de liderança da oposição e que, lendo isto, Ventura se atire a ele como gato a bofe. Ora, por acaso, ninguém ridicularizou o presidente do Chega quando este, anos a fio, estando a larga distância da representação do PS na AR, andou a afirmar que ele é que era o verdadeiro líder da oposição. Nomeadamente, porque PS e PSD eram farinha do mesmo saco, entendiam-se nos bastidores e eram os representantes e beneficiários do “sistema”. E ele não.
Acontece, curiosamente, que os primeiros sinais da legislatura iniciada com as eleições de 18 de maio deste ano indicam que o sistema mudou. E o próprio André Ventura reconhece isso, quando enche a boca com a nova maioria de direita e com a postura de entendimentos sucessivos com o Governo, a começar nas políticas de imigração. Afinal, o novo sistema parece ser o PSD + Chega, o que faz com que José Luís Carneiro marque aqui um ponto: tal como ontem Ventura, pode hoje ele próprio reivindicar-se como não fazendo parte do “sistema”.
Até aqui, tudo bem. O problema é que a argumentação de José Luís Carneiro, nesta mesma entrevista, acerta um bocado ao lado. Vejamos:
O que é que pode valorizar a posição de José Luís Carneiro – e a do PS – ao ponto de fazer com que Luís Montenegro pondere a hipótese de lhe telefonar? Insinuar que o PS muito dificilmente não votará contra o próximo Orçamento do Estado
“O Partido Socialista é o que está do Norte ao Sul, do Litoral ao Interior, nas regiões autónomas, e está no Parlamento Europeu com uma das maiores expressões.” Fim de citação. Infelizmente para o PS, o Chega está de norte a sul, do Litoral ao Interior, nas regiões autónomas e, se ainda não tem uma representação no Parlamento Europeu, ao nível da do PS, dá dez a zero aos socialistas nos círculos da imigração. Não é por aqui. Mas continuemos a ouvi-lo:
“Qual foi o partido que nos trouxe a liberdade? Cujos dirigentes viveram na clandestinidade para que hoje até possam aparecer partidos que sejam contra o próprio sistema democrático? O Partido Socialista é o mais importante partido português. Para mim, isto é claro.” Aqui, cabe referir que nenhum clube coloca nos campeonatos de alta competição a sua equipa de velhas glórias nem ganha apenas graças ao peso das camisolas. Finalmente, José Luís Carneiro remata: “Se estivesse no lugar de Luís Montenegro, pegava no telefone de quando em vez e ligava ao líder da oposição. Perguntava: ‘O que é que achas sobre isto? Qual é a tua opinião sobre esta questão dos incêndios?’” Estas últimas afirmações sugerem-nos duas notas. A primeira, lá está, é que, se calhar, Luís Montenegro até telefona ao líder da oposição. Mas ao outro. A segunda é que não se vislumbra nenhuma razão, pelo menos, à vista desarmada, para que Luís Montenegro se dê ao trabalho de telefonar a José Luís Carneiro: é que não precisa! E muito menos para lhe pedir conselhos sobre os incêndios. É que, por muito que os governos socialistas tenham progredido, nessa matéria, o que aconteceu em 2017 sugere que governos futuros se afastem deles o mais possível.
Chegados aqui, o que é que pode valorizar a posição de José Luís Carneiro – e a do PS –, ao ponto de fazer com que Luís Montenegro pondere a hipótese de lhe telefonar? Insinuar que o PS muito dificilmente não votará CONTRA o próximo Orçamento de Estado. É por aqui que o PS pode afirmar-se “líder da oposição”, obrigando o Governo, e a AD, a ficarem nos braços do Chega. E obrigando o Chega a definir-se como partido colaborante e desistente da liderança da oposição. Este é o único argumento que pode fazer de José Luís Carneiro um ator importante, mesmo que, no final, o PS possa abster-se nessa votação orçamental. A determinado preço, evidentemente. Por exemplo, o da reversão de algumas das ideias da reforma laboral do Governo.
Ironicamente, o líder radical do PS, Pedro Nuno Santos, tinha muito a perder se não tivesse viabilizado o Orçamento para 2025 (como ficou demonstrado, quando o governo caiu por outras razões e o PS teve de ir a eleições). E o líder moderado do PS, de quem se esperaria colaboração com o Governo e compromisso com a estabilidade, terá muito a ganhar se chumbar o documento – ou, pelo menos, ameaçar chumbá-lo. Mesmo que o Chega não engolisse o isco – e é difícil não o engolir, visto que também interessa a Ventura testar e expor o “não é não” de Montenegro – e o OE fosse chumbado, o cenário de crise política estaria afastado: por imperativos constitucionais, o PR já não pode dissolver a Assembleia da República. O Governo não pode cair. E, preso a duodécimos, o Executivo também não poderia avançar com as reformas que o PS considera um conjunto de “malfeitorias”.
Disputando com Luís Filipe Vieira o predomínio das audiências, com entrevistas cruzadas em canais concorrentes e em horários sobrepostos (não foi uma nem duas…), o líder do Chega é o novo big brother da sociedade portuguesa
2. Em ano de autárquicas e com a campanha simultânea para as eleições presidenciais, é, de novo, bastante irónico que, pela mão do PS, a discussão sobre o Orçamento do Estado para 2026 possa ainda vir a ocupar o primeiro lugar do pódio dos temas da rentrée. Seria uma forma de os socialistas recuperarem o controlo da agenda política, num tempo em que o líder da oposição, que é André Ventura, a controla, pelo menos, sob o ponto de vista mediático, a seu bel-prazer, parecendo dominar as direções das televisões privadas como se fossem marionetas, dando entrevistas quando quer e nos termos em que quer. Disputando com Luís Filipe Vieira o predomínio das audiências, com entrevistas cruzadas em canais concorrentes e em horários sobrepostos (não foi uma nem duas…), o líder do Chega é o novo big brother da sociedade portuguesa. E come as papas na cabeça da concorrência, fazendo em picadinho qualquer outro líder político. É muito possível, aliás, que se candidate à Presidência da República, agora que perdeu o medo, percebendo que Henrique Gouveia e Melo está a esvaziar o balão das intenções de voto e pode facilmente ser batido em debates. Aproveitando a campanha, a sua omnipresença multiplicará o tempo de antena, como se tivesse vários clones para todas as plataformas mediáticas. É uma presença esmagadora cujo único risco é a hipótese de vir a cansar. Cá está: presidenciais, o outro tema da rentrée.
E, finalmente, as autárquicas. A presença do “grande irmão” em todos os cartazes autárquicos do País – e o Chega, pelo seu crescimento e respetivo financiamento público, com dinheiro dos contribuintes, tal e qual como os outros, tornou-se o partido mais representativo do tal “sistema” – potencia a engorda da direita radical e populista a um nível ainda não experimentado: o do tecido autárquico e local. Esse pode ser um passo maior do que a perna. Uma coisa é estar no poder central e distorcer as normas a seu favor. Outra é ter de gerir as autarquias e expor a incompetência de candidatos do tipo “cromo”, num longo período de quatro anos. Cá estaremos para ver.