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Pedro Camacho*: “No jogo do empata, ganhou Sócrates”
Num debate que teve como nota dominante o conflito de personagens, o primeiro frente-a-frente televisivo das legislativas foi sobretudo pouco esclarecedor. Onde ficaram as diferenças entre mais Estado e menos Estado que separam PS e PP? Onde ficaram os argumentos que podem levar alguém a escolher as propostas mais liberais do PP ou a optar pelas posições mais reguladoras do PS? Aqui e ali, em pequenos apontamentos sobre o ensino ou sobre a segurança, e de forma um pouco mais marcante nas questões fiscais. Mas ficaram, sobretudo, perdidas numa luta de galos. O que, aliás, já se adivinhava, ou não fossem Portas e Sócrates os intervenientes deste debate.
Duas coisas, contudo, foram óbvias.
A primeira, é a de que Portas tinha, à partida, a obrigação de ter conseguido mais. Não só porque é melhor do que aquilo que mostrou, como também porque não faltam temas difíceis e incómodos para o primeiro-ministro. Mas a verdade é que o líder do PP nem por uma única vez conseguiu, pelo menos de forma taxativa, encostar às cordas o chefe do Governo.
A segunda, é a confirmação de que Sócrates continua a ser um candidato muito difícil de bater em pingue-pongue directo. Pela sua experiência, desde logo, mas também porque este Governo tem, de facto, muita coisa para mostrar e argumentar.
Mas Sócrates revelou também que continua a ser um candidato que é capaz de deitar tudo a perder de um momento para o outro. E isso podia ter acontecido já neste primeiro confronto.
Portas esteve a um passo de fazer o seu adversário perder a cabeça, porque Sócrates chegou a um ponto em que já não conseguia disfarçar a falta de paciência. Mas o líder do PP falhou, e perdeu ele o debate. Porquê? Possivelmente porque sofre exactamente do mesmo problema de Sócrates: um sangue que aquece em excesso em situações críticas, e que o impede de pensar com clareza e actuar com serenidade.
Mas o próprio modelo de debate também merece uma nota, e má. Por não se adaptar à nossa indisciplina portuguesa? Eventualmente. Porque os políticos não se respeitam mutuamente? Pelo que se vê.
A verdade é que as regras aparentemente acordadas foram escandalosamente esquecidas, tal como foi patente a impotência da moderadora para as garantir. Do ponto de vista do debate político, o resultado foi o que se viu.
José Carlos de Vasconcelos*: “Sócrates vence, Portas também ganha”
José Sócrates “venceu” este primeiro debate, com Paulo Portas. Como aliás era de esperar face aos antecedentes, isto é: ao que se viu ao longo dos últimos anos nos debates na Assembleiai da República. De facto, creio que o líder do PS, bastante bom neste tipo de “confronto”, foi mais convincente, apresentou mais factos, deu ideia de dominar melhor os dossiês, deixou o seu ‘adversário’ sem resposta em vários temas. Sobretudo quando utilizou, como muitas vezes fez no Parlamento como primeiro-ministro, um “argumento” que pode já ser muito repetitivo mas continua a ser eficaz e por vezes demolidor: comparar o que Portas diz agora com o que fez quando esteve no Governo, comparar o que fizeram os governos que o líder do PP integrou e o actual (claro que este tipo de “argumentação” irá ser amplamente utilizado também no debate com Manuela Ferreira Leite).
Comparações que de facto, se bem avalio, lhe são nitidamente favoráveis, em particular em domínios como a Segurança Social, designadamente a sua sustentabilidade, apoios a alguns dos sectores mais carentes da sociedade, Saúde e até diversos aspectos da Educação. Mais favoráveis também por serem muito conservadoras, mesmo direitistas, as opções defendidas por PP, contrário a intervenções do Estado que a recente gravíssima crise mostrou ainda mais à evidência indispensáveis. Opções bem nítidas na forma como fala, amiúde com uma enorme dose de demagogia, do rendimento mínimo, da escola pública, etc., etc. Assim, este debate permitiu a José Sócrates situar-se numa posição à “esquerda”, de que Jerónimo e Louçã seguramente o vão querer retirar.
Mas, apesar do que disse, este debate também terá sido positivo para Paulo Portas – um político de palavra fácil (amiúde demasiado fácil, diga-se…), com evidente capacidade dialéctica e de expressão, de frase curta e incisiva. Além de o seu partido, de acordo com as sondagens, ser o último dos cinco representados nestes debates, o que só por si em princípio faz com que dos debates possa tirar mais benefícios, aquelas características de Portas ser-lhe-ão favoráveis nas comparações com as de Ferreira Leite, em algumas faixas da direita.
Filipe Luís*: “Paulo Portas 2, Sócrates 3”
Os picos do debate vistos à hora do jantar. Ementa do comentador: um chicharro salgado, cozido, com cebola crua, batatas, feijão verde e beringela. Branco da Extremadura, de produção particular. Queijos e peras do pomar. O prato – e as cartas – estão na mesa
Respeitinho e distância Paulo Portas refere-se ao primeiro-ministro como “José Sócrates”. Este responde interpelando-o por “senhor doutor”. O que pensará a bem comportada Direita, que sempre nos ensinou que o respeitinho é muito bonito? Um ponto para Sócrates.
O que é “o nosso melhor”? José Sócrates afiança que deu “o seu melhor”. O seu melhor pode ser pouco. Quase no fim do debate, Paulo Portas lembra que “o nosso melhor, todos damos”. Um ponto para Portas.
Economia e fiscalidade Belíssima síntese de Paulo Portas. Claro, certeiro, seguro e preparado. Boa réplica de Sócrates. Puxa por alguns galões, mas está na defensiva. Empate com tendência mais para Portas.
Defesa ou Segurança? Sócrates leva a guerra do Iraque ao debate… a martelo: a propósito de Segurança. Ora, isto é Defesa. Sócrates responde com a Damaia e com o Cacém. Um ponto para Portas.
Votou ou não votou? Portas esperava ganhar no tema “Segurança”, mas Sócrates aguenta bem e entra mesmo ao ataque. Torpedeia a argumentação de Portas com números. Apanha Portas em contradição e este fica baralhado: afinal não está a ganhar. Surpresa: um ponto para Sócrates.
Desemprego empatado Portas é certeiro no desemprego, mas demagógico q.b.. Sócrates aguenta-se e justifica bem a tese do “fim da recessão”. Empate.
Não querem trabalhar Paulo Portas fala ao coração dos portugueses, a propósito do rendimento mínimo, explorando, aliás, o nacional sentimento da inveja: uns recebem do Estado e outros é que pagam… Muito claro, certeiro e inatacável. A conversa de taxista rende. Mas Sócrates, fugindo a este tema incómodo, puxa dos galões, nos apoios sociais do seu Executivo e confronta Portas com a falta deles, no último Governo AD. Portas pega na frase “dormiu descansado” e despeja um rol de acusações a Sócrates, manipuladas à luz de alguma demagogia. Empate com tendência mais Sócrates. Antes do último tema, o debate está empatado. Na argumentação, na preparação de ambos, nos truques, nas interpelações e nos soundbytes. Com surpresa, Paulo Portas está mais irritado do que José Sócrates. Mas também está mais genuíno e menos actor. O último tema vai decidir tudo…
Educação Paulo Portas mete os pés pelas mãos e não consegue explicar a tese da livre escolha para a frequência da escola. José Sócrates elenca as mudanças que houve na Educação, com o seu Governo, demonstra que as políticas de Educação não se resumiram à avaliação dos professores – da qual nem é obrigado, pelo seu interlocutor, a falar… – e ganha. Desempate a favor de Sócrates.
Moderação Uma lição de bom senso. Perante regras rígidas e burocráticas, impeditivas de um bom debate, a moderadora teve um critério largo. Utilizou o bom senso contra o contra-senso das regras. Deu espaço à vivacidade e mostrou que é no terreno que as coisas se decidem. Um ponto para Constança Cunha e Sá.
* Pedro Camacho é Director da VISÃO, José Carlos de Vasconcelos é Director do JL e Coordenador do Gabinte editorial da VISÃO, Filipe Luís é Editor Executivo da VISÃO