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Esta história passa-se numa época distante, quando os robots ainda se apaixonavam. Agora estão demasiado parecidos com os homens.
O Koala 2005 era um robot simpático. Trabalhava num pronto-a-vestir e dava atendimento personalizado a todas as clientes. Elas achavam-no bem mais querido – e definitivamente com muito melhor gosto – do que o dono da loja. Elas perguntavam-lhe “Que tal?”. E ele, na sua ternurenta voz digital, respondia: “Assenta-lhe bem o azul”.
Por ser um robot, o Koala 2005 tinha o privilégio de entrar nos provadores e estava programado para exprimir os mais convenientes palpites e apreciações. Tal não escandalizava ninguém. Pelo contrário, as clientes agradeciam-lhe e apaparicavam-no.
Na pastelaria em frente trabalhava uma rapariga. Tinha umas longas tranças louras e usava uma pala para que ninguém visse que o seu olho direito não via. Poderia facilmente ser operada numa clínica. Mas não sentia falta da perspectiva O robot mirava-a à distância, por entre os manequins que povoavam a montra de vidro fosco. Até que, certa vez, ela entrou na loja para provar uma blusa amarela. Quando o Koala 2005 viu a rapariga do café, semi-nua, com uma mini-saia de xadrez e a blusa nova por vestir, um dos seus chips pifou e por momentos bloqueou o sistema. Apaixonou-se.
Não era suposto, na altura, os robots apaixonarem-se por humanos. Mas, na verdade, ela também engraçava com ele e fazia-lhe festas na casca de metal sempre que lhe saía algum bitate. Pelo que o robot se convenceu que o amor era correspondido. O input tornou-se cada vez mais forte e sentiu que algo de estranho se passava na sua motherboard. Como era tímido, ficou sem saber o que fazer.
Até que se decidiu. Atravessou a rua, avançou pelo café adentro e sentou-se numa mesa afastada do balcão. Ela, feliz e espantada por o ver ali, sentou-se à sua frente. Ele acelerou o processador e disse-lhe, sem rodeios:
– Amo-te.
Ela estranhou a declaração e, com ternura, riu-se de boca fechada para não o ofender. E depois explicou-lhe:
– Eu também gosto muito de ti. Mas não é suposto os robots e os humanos apaixonarem-se. Tu és muito querido, mas não respiras, nem comes, nem fazes amor. Não ia resultar.
O sistema do Koala 2005 entrou em conflito com aquela informação contraditória. Na sua linguagem binária, não havia espaço para aquele “sim, mas…”. Registou as palavras “Também gosto muito de ti” e “mas não…”. E não conseguiu coordenar os dados.
Durante a semana seguinte esteve apagado no trabalho e não satisfez, como de costume, todas as clientes. Tornou-se daltónico, o que é fatal quando se trabalha num pronto-a-vestir. O dono da loja convenceu-se de que se tratava de um vírus e resolveu formatá-lo.
Quando no dia seguinte o Koala 2005 reiniciou o sistema operativo, apaixonou-se de imediato pela manequim careca que morava na montra.